Nas últimas décadas, a família tem passado por várias transformações educacionais, morais, religiosas e culturais. Essas mudanças, por sua vez, criaram novos padrões de relação entre pais e filhos que ainda não foram totalmente assimilados pela sociedade. Como se isso não bastasse, ao longo desses anos surgiram diferentes correntes pedagógicas que tentaram orientar os pais para esse novo conceito de família, porém, muitas não se mostraram eficientes, servindo mais para confundir do que esclarecer.
Para a terapeuta e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Yara Ingberman, que esteve em Londrina para dar curso sobre Terapia Familiar, promovido pelo Instituto de Psicoterapia e Análise do Comportamento, as mudanças sociais estão acontecendo de forma muito rápida. ‘‘No passado, comportamentos que demoravam 20 anos para mudar, hoje, mudam em dois anos. O problema é que os pais não conseguem acompanhar essa mudança, o que o deixa ansiosos por não saber se estão agindo certo ou errado na educação dos filhos’’, avalia.
Essas dúvidas, segundo a psicóloga, se tornam mais acentuadas porque o surgimento das chamadas ‘‘famílias nucleares’’ distanciou as gerações antigas das novas. ‘‘Antes, a mulher casava e continuava morando perto da mãe, da avó e das tias, que serviam como modelo na construção de uma nova família. ‘‘Hoje, as novas mães não têm mais esse referencial porque, geralmente, vivem longe de seus familiares e, com isso, elas perdem o encadeamento familiar que dava sustentação’’, observa Yara.
Temporão Na tentativa de suprir esse modelo, a partir de 1988 começou a surgir uma vasta literatura de auto-ajuda, orientando os pais na educação dos filhos. ‘‘Porém, na maioria das vezes, esses livros não são baseados em pesquisas científicas e trazem informações contraditórias que confundem ainda mais os pais. Uns dizem que de vez em quando umas palmadas fazem bem, outros afirmam que não. Existem livros, por exemplo, que argumentam que a violência na televisão influencia a criança, outros apontam que não. Essas contradições só servem para deixar os pais ansiosos e angustiados’’, diz a terapeuta.
Segundo Yara Ingberman, além da literatura, a mídia também colabora para aumentar essa angústia, veiculando informações sem qualquer base científica, que ficam apenas na especulação. ‘‘No ‘‘Fantástico’’, da Rede Globo, isso é muito comum. O programa divulga reportagens de três minutos dizendo, por exemplo, que a agressividade é mais determinada pelo fator genético do que pelo ambiente, mas não esclarece como os profissionais que afirmam isso chegaram a essa conclusão. Em que base científica isso está ancorado?’’, questiona a terapeuta.
Ela ressalta que os padrões educacionais mudam tão rápido, que uma mãe que tem um filho temporão precisa educá-lo de forma diferente dos demais porque a época em que ele está vivendo tem novos valores. ‘‘O importante é que os pais não fiquem se culpando porque alguma coisa saiu errada’’. Yara argumenta que não existe receita para educar filhos, entretanto, há algumas regras que são fundamentais: desenvolver na criança a auto-estima, a autoconfiança e mostrar que a ama incondicionalmente. ‘‘Mas esse amor incondicional não significa deixar de impor limites’’, avisa.
Partindo desse ponto de vista, a psicóloga diz que quando uma criança ou adolescente apresenta problemas, não adianta mandá-lo para fazer terapia sozinho. ‘‘A terapia precisa envolver a família também porque dessa forma, o terapeuta terá um conhecimento melhor do que está acontecendo. Não há necessidade, é claro, de a família estar reunida em todas as sessões, mas quando o terapeuta achar importante para o progresso do tratamento’’, afirma Yara Ingberman.

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