O brasileiro tem tradição em fazer doações. É só lembrar dos altos valores arrecadados por campanhas como o ‘‘Criança Esperança’’, da Rede Globo, apenas para citar um exemplo. Outros números confirmam essa veia solidária do País. De acordo com uma pesquisa feita pelo Ibope em 1998, 50% dos brasileiros adultos doaram naquele ano alguma quantia para instituições de caridade. Se forem consideradas as doações feitas a pessoas físicas, esse percentual sobe para 80%. A maioria, entretanto, parece acreditar que a sua contribuição para diminuir as mazelas sociais termina no momento em que põe a mão no bolso.
Com a escolha de 2001 como o Ano Internacional do Voluntário pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), essa idéia pode mudar. A intenção é destacar a atuação e os resultados do envolvimento das pessoas que contribuem com o seu tempo para o benefício de muitos. E, com isso, estimular mais pessoas a se engajar no trabalho voluntário, deixando claro que, acima de tudo, trata-se de um compromisso com a cidadania.
As formas de ação voluntária são tão variadas quanto as necessidades da comunidade. Basta olhar ao lado para detectar alguma forma de ajudar. Hospitais, bairros carentes, programas que trabalham com pessoas da terceira idade, asilos, movimentos de luta contra a violência, grupos de auto-ajuda, ações para a melhoria da educação, associações culturais e muitas outras. Todas acabam convergindo para o mesmo objetivo: combater a indiferença, a desesperança e a exclusão social.
Mas nem sempre é fácil dar o primeiro passo quando a idéia é escolher um trabalho que realmente faça a diferença para quem precisa. Segundo pesquisa do site www.voluntarios.com.br, 54% dos jovens brasileiros querem ser voluntários mas não sabem por onde começar. Atualmente, apenas 7% da juventude nacional é voluntária, contra 62% dos Estados Unidos, onde esse tipo de trabalho é movido por uma forte consciência social, ao contrário do Brasil, onde a motivação costuma ser, sobretudo, religiosa. A atual campanha nacional de incentivo ao voluntariado busca unir essas duas facetas, mas evidencia o discurso da participação cívica, incentivando a competência, a qualidade do trabalho e a busca de resultados.
Para mostrar como funciona o voluntariado em Londrina, a Folha da Sexta pesquisou algumas instituições – há muitas outras precisando de gente disposta a ajudar – e conversou com pessoas que dedicam parte de seu tempo a elas. A constatação é que mesmo contando com um quadro fixo de voluntários, a ajuda extra é sempre necessária e muito bem-vinda.
Estrutura emocional No Hospital do Câncer existem aproximadamente 45 voluntários divididos em grupos que atendem, diariamente, adultos e crianças internadas e em tratamento ambulatorial. Como o local recebe pacientes de toda a região, conta com uma sala de recreação para os que ficam aguardando o horário da consulta. ‘‘Os voluntários participam de diversas atividades e brincadeiras, levam lanches e palavras de alegria e conforto às famílias, mas é norma do hospital não divulgar religião’’, explica a assistente social Márcia Marengo.
De acordo com ela, muitas pessoas ligam querendo ser voluntários, mas antes precisam passar por uma espécie de triagem. ‘‘Não é todo mundo que tem estrutura emocional para lidar com a situação. Muitos vêm uma ou duas vezes e não voltam mais’’, diz. Ela conta que as mães das crianças internadas costumam reclamar que o hospital fica muito triste nos finais de semana, quando diminui o número de pessoas circulando por lá. Atualmente, o local conta com apenas um voluntário aos sábados.
Precursora do trabalho com crianças no Hospital do Câncer, Gilda Martins Calmezini, 65 anos, é voluntária desde os 12 anos. Começou ajudando gestantes carentes, em São Paulo, seguindo os passos dos pais. Quando os dois adoeceram, ambos com câncer, foi ela quem cuidou deles. Na época, tinha pouco mais de 20 anos. A experiência a motivou a trabalhar em prol dos que sofrem com a doença. ‘‘Ninguém se acostuma com a morte; aprende a aceitar a vontade de Deus. São situações difíceis, mas não insuperáveis’’, garante.
Gilda lembra que quando iniciou as atividades de recreação no hospital, logo veio a necessidade de dar uma contribuição material, principalmente no que se refere a remédios, já que as crianças carentes internadas dependem do SUS para ter medicamentos. ‘‘Organizo rifas, peço a ajuda de amigos e promovo bazares de roupas e objetos usados’’, conta ela, que faz parte de um grupo que atua em outros setores da cidade, ajudando várias entidades.
Também foi a convivência com a doença na família que levou a decoradora e empresária Rosane Rotondo, 40 anos, a participar do grupo de voluntários do Hospital do Câncer. ‘‘Quando a gente sente na pele, sabe do que os outros estão precisando’’, justifica. Voluntária há três anos, ela dedica todas as manhãs de terça-feira ao trabalho de recreação e acompanhamento. ‘‘Brincar com uma criança doente faz com que ela fique mais animada, passe a comer e a dormir melhor e a esquecer um pouco do lugar onde ela está. E, brincando, a gente vai ensinando aos pacientes mais carentes noções de limpeza e higiene, e também a importância da alimentação hospitalar. As mães vão ouvindo, participando’’, conta.
O envolvimento com a causa fez com que Rosane e seus colegas de voluntariado idealizassem uma associação de voluntários para as crianças com câncer. O intuito é abrir para a sociedade os pedidos de doação e angariar fundos para melhorar as condições de atendimento no hospital. ‘‘É uma realização muito grande poder dar algo da gente para alguém. Muda muito nossos próprios valores’’, observa.
Obrigação social Para a presidente da Creche e Núcleo de Convivência Ida Garcia Pedrialli, Míriam Setti, essa mudança de valores começou a acontecer quando seus filhos nasceram. ‘‘Senti necessidade de ajudar os outros; era uma forma de retribuir o que eu tinha’’, lembra. Na época, ela morava em Jacarezinho e iniciou um trabalho voluntário na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), que continuou quando se mudou para Londrina. Tempos depois, passou a atuar na creche, que abriga 178 crianças em regime de semi-internato, com atendimento escolar até o pré-primário. Oito voluntários trabalham em prol da instituição.
‘‘Lá as crianças recebem o melhor possível. O que não conseguimos mudar é a situação dentro da casa de cada uma. Saiu do portão da creche, não tem jeito. Tem criança que vai para casa sexta-feira, de banho tomado e roupa limpa, e volta na segunda com a mesma roupa, sem tomar banho. Para mim, ficou uma lição: é preciso fazer um trabalho com as famílias’’, constata Míriam, que deixa a presidência da creche após o baile da Rainha da Exposição (tradicionalmente organizado pela instituição), mas pretende iniciar um novo projeto de voluntariado. ‘‘Hoje, já não faço isso pelos meus filhos e nem por caridade, mas por obrigação social’’, salienta.
Guiomar Moreira, uma das pioneiras no voluntariado em Londrinaá, atuante há mais de 40 anos, ensina que o resultado desse tipo de trabalho sempre reverte em benefício do próprio cidadão. Membro da Associação das Senhoras Rotarianas por vários anos e presidente do Provopar quando o marido era prefeito na cidade, ela conseguiu recursos para construção de nada menos que 10 creches e equipou todas elas.
Atualmente, é presidente do grupo Pró-Vida da Santa Casa de Londrina, coordenando 85 voluntárias que trabalham na captação de fundos para o Hospital Infantil. ‘‘Não tem melhor recompensa do que ver uma mãe chegar com uma criança doente e ser atendida imediatamente’’, afirma. Segundo Guiomar, Londrina é uma cidade rica em voluntariado. ‘‘Todas as entidades têm o apoio de pessoas conhecidas e dos humildes, que trabalham no anonimato’’, observa.
Trabalho a longo prazo De acordo com a assistente social Márcia Denise Cavasin, quem deseja ser um voluntário precisa ter, fundamentalmente, iniciativa, disciplina e disposição para fazer um trabalho a longo prazo. ‘‘Só assim se vêem os resultados’’, ressalta. Voluntária no Lar Anália Franco, ela é responsável pelo marketing, criando campanhas e procurando parcerias com o objetivo de trazer recursos para a entidade. A próxima ação é a participação no projeto ‘‘Gente Contente’’, realizado pelo Catuaí em comemoração aos 10 anos do Shopping, que vai doar R$ 8 mil por mês e disponibilizar um espaço durante todo o ano para a comercialização de artesanato e outros produtos, beneficiando 40 entidades de Londrina, quatro por mês.
Essas entidades vão dividir o lucro obtido com a venda de seus produtos no Shopping e o montante arrecadado com o pedágio que está sendo realizado aos domingos no estacionamento do local (as doações são espontâneas). Márcia informa que o Lar Anália Franco vai participar do projeto em abril e precisa de voluntários. Os interessados devem ligar para o telefone (43) 325-8060. ‘‘Mas existem outras formas de ajudar trabalhando dentro da instituição. Nem que seja apenas pegar um bebê no colo e fazer dormir, porque muitas vezes não tem gente suficiente para cuidar de todas as crianças’’, diz.
Segundo Márcia, esse trabalho é uma forma de beneficiar a sociedade como um todo. ‘‘Portanto, o que fazemos lá, não fazemos só pelo Lar’’, enfatiza. Abrigando crianças e adolescentes – cerca de 250 no total – o Lar Anália Franco funciona como creche, atendendo moradores de bairros carentes, e como abrigo, acolhendo atualmente 55 crianças enviadas pelo Conselho Tutelar e pelo Forum. Todas recebem o mesmo atendimento.
À noite, as crianças do abrigo vão para as cinco casas lares mantidas pela instituição. Os ‘‘pais sociais’’ destas casas são voluntários e, em troca, recebem alimentos e isenção de despesas. De acordo com a assistente social Sueli Aparecida Lourençon, este ano eles passarão a ganhar uma gratificação de meio salário mínimo. Os recursos para o funcionamento da entidade vêm das promoções e doações, de um termo de parceria com a Prefeitura e de uma verba do governo estadual repassada ao fundo municipal. E ainda do lucro obtido com um bazar de usados.
Educação complementar Atualmente, o Lar tem cerca de 20 voluntários fixos e ativos, que participam do conselho deliberativo, prestam atendimento médico e odontológico e organizam eventos. Os demais são esporádicos. ‘‘A falta de compromisso – muitos começam um trabalho e não aparecem mais – é um dos maiores problemas’’, diz Sueli. Segundo ela, a lei federal 9.608, de 18/12/98, que regulamenta a atividade voluntária, e exclui vínculo empregatício, obrigações trabalhistas e previdenciárias contribuiu bastante para as atividades da instituição.
No Lar, as crianças têm ensino até o pré. Depois, são encaminhadas às escolas municiais e estaduais. O local oferece ainda oficinas de marcenaria, reciclagem de ferro velho e música, que dependem da disponibilidade de voluntários. Os menores ficam ali até completar 18 anos, quando são encaminhados ao mercado de trabalho. Para isso, recebem desde os 13 anos uma educação complementar. ‘‘A criança tem tudo dentro do Lar: boa comida, escola, roupa. Mas é uma realidade artificial, um casulo. Quando sai dali, tem que estar preparada e motivada a continuar progredindo’’, ressalta o empresário Silvério da Silva, 59 anos, vice-presidente da entidade e voluntário no local há mais de 20 anos.
Foi dele a iniciativa de dar a esses jovens aulas de preparação para o trabalho, ministradas todo o final de semana pelo grupo de voluntários do Núcleo Espírita Irmã Scheilla, do qual ele também faz parte. ‘‘O conteúdo é basicamente a moral cristã aplicada no dia-a-dia. E também valores complementares que todo o empresário está buscando: comprometimento, honestidade e dinamismo, que servem tanto para a vida profissional como para a pessoal’’, explica Silvério.
O Núcleo fica na zona leste da cidade, próximo da favela Marabá e dos conjuntos Rosa Branca e Santa Fé, bairros muito carentes onde as crianças correm constantemente o risco de se envolver com drogas, prostituição e criminalidade, e o que é pior: de nunca conseguir um emprego. ‘‘O núcleo praticamente reforma esses jovens na sua maneira de pensar, mudando seus valores morais ao ensinar princípios cristãos’’, afirma o empresário.
O lugar conta com cerca de 60 voluntários, que se encarregam de procurar emprego para seus protegidos, bancando as despesas com encargos sociais durante os três primeiros meses e se responsabilizando por qualquer dano causado pelo funcionário. Com isso, já conseguiram empregar 305 menores. Também organizam palestras para as famílias, passando noções de higiene e nutrição, trabalhando a parte psicológica para harmonizar o ambiente doméstico. Distribuem ainda cestas básicas para os mais necessitados.
Disposição Voluntário desde os 25 anos, Silvério considera o trabalho gratificante em todos os sentidos. ‘‘Tenho observado muitas melhoras na vida dos que se propõe a fazê-lo. A pessoa pára de olhar para o próprio umbigo e muda de atitude diante da vida’’, relata. Mas há também os que já iniciam o voluntariado plenamente conscientes da realidade que os cerca e de seu papel como cidadãos. O médico ginecologista Mário Sérgio Azenha de Castro, 43 anos, é um bom exemplo. Com um apurado senso organizacional que o torna um realizador em potencial – na faculdade promovia torneios e eventos culturais e como síndico praticamente reformou o prédio onde mora – ele resolveu canalizar essa energia para o trabalho voluntário.
Entre os plantões na maternidade municipal, as atividades no Nubec/UEL e a agenda de seu consultório, Mário presta atendimento médico geral às crianças do Lar Anália Franco uma vez por semana, faz palestras sobre obstetrícia em bairros carentes, orientando mães e grupos de gestantes e, atualmente, está engajado em mais um projeto: pedir a colaboração ao empresariado para a ampliação do Núcleo Irmã Scheilla. Outra causa que abraçou é a do clube das mães unidas da ocupação Monte Cristo e do Jardim Fé. Elas precisam de utensílios domésticos usados para aprender a manipulá-los, uma forma de se qualificar para trabalhar como empregadas domésticas. (Quem puder doar deve ligar para (43) 324-8666.
A explicação de Mário para tanta disposição é também uma boa definição da essência do trabalho voluntário. ‘‘Tenho vontade de fazer as coisas progredirem’’, diz ele, que enxerga a questão por outro ponto de vista: ‘‘O que eu acho fundamental não é só ajudar, mas dar o exemplo de conduta. Isso é a coisa mais importante que eu deixo por onde passo’’, constata.

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