É comum Papai Noel receber uma montanha de chupetas e mamadeiras em troca dos pedidos das crianças. Condicionar um presente do Papai Noel para que a criança abandone para sempre a chupeta, é dar uma atribuição ao bom velhinho que não é exatamente a dele. Com esse tipo de condicionamento, a generosidade e a solidariedade embutidas na imagem do Papai Noel, acabam desaparecendo. Essa observação é sustentada pela psicóloga londrinense Eliana Louvison. Segundo ela, se o bom velhinho vai punir ou presentear a criança, caso ela seja aprovada na escola, esse procedimento está de certa forma mudando a função dele.
É preciso manter o lugar do Papai Noel como mito e não dar-lhe uma conotação de humano. Largar a chupeta, na concepção de Eliana Louvison, deveria ser pela mãe ou pai da criança e não pelo Papai Noel. Este existe enquanto mito, para dar vazão aos desejos e sonhos. Papai Noel não tem pai, nem mãe, não nasceu de relação sexual. Ninguém nunca vai encontrá-lo numa esquina no mês de julho. E é bom que continue assim, com essa aura de mistério.
‘‘A existência do mito Papai Noel significa que dar-se é prazeroso’’, resume a psicóloga. A psicóloga cita um artigo de jornal em que o Papai Noel é ‘‘uma referência cultural de prazer na solidariedade’’. O presente deveria vir sem nenhuma condição.
De acordo com a psicóloga, o Papai Noel é uma figura que representa aquele que pode dar ‘‘o que eu desejo’’. Entre os humanos pode-se ajudar ou facilitar os desejos, mas não realizar. ‘‘Isso o humano não dá conta’’, diz. Essa fantasia não se presta somente às crianças, todos temos desejos.
A criança está no auge desta crença. Dos 2 anos e meio até os 6 anos, a criança acredita que todos os desejos serão realizados. Nesta fase, acontece o desenvolvimento intelectual e imaginário daquilo que está à volta dela. Se a parte física está ok, dando condições para que a criança viva esse período, ela começa inserir o ‘‘EU’’ em seu vocabulário, começa a se ver como pessoa, como indivíduo. A criança percebe que existem coisas que se passam dentro da cabecinha dela e outras fora dela. Ela tem notícia que pode muita coisa e não tudo, e precisa do Papai Noel.
Neste período, as histórias infantis possuem um papel fundamental no imaginário infantil. Nelas estão contidos sentimentos que a criança não consegue nomear, como a raiva, a culpa, o ódio. É muito bom ela saber que tem gente que se sente como ela, num outro reino distante. O mundo imaginário é fundamental. Ela vai descobrindo que há limitações, que há determinadas proibições na vida. ‘‘Não é o fato de alguém se fantasiar que dá existência ao Papai Noel. Ele existe porque reside no imaginário’’, enfatiza.
Segundo a psicóloga, nós inventamos o reino da fantasia porque precisamos. Ela faz uma citação da psicanalista francesa Françoise Dolto em seu livro ‘‘Quando Surge a Criança’’, em que a autora ressalta a importância da fantasia: ‘‘A imaginação e a poesia infantis não são nem credulidade, nem puerilidade, mas a inteligência em uma outra dimensão’’.

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