Dizem que o velho dá lugar ao novo e que toda novidade acaba se transformando em uma unânime atração. Se essa afirmação parece lógica para algumas pessoas, quando o assunto a tratar é a questão do apego ela perde todo o sentido.
Gostar de objetos em especial, todo mundo gosta e tem um. Mas conseguir se desfazer deles, já é outra conversa. Um bom exemplo disso são as crianças, que mesmo ganhando presentes novos a cada ano, não desgrudam dos que estão há anos alimentando sua imaginação.
Dormir com objetos de estimação, levá-los para a escola e só se sentir protegido quando eles estão por perto são alguns bons exemplos dessa fiel amizade. E na casa de Beatriz Moreno Barbosa, de 5 anos, a história não é diferente.
O quarto, que parece ser um sonho para muitas meninas, decorado com bonecas e ursinhos de pelúcia, para a pequena Bia só ganha sentido se nele estiverem o travesseiro de golfinho, a Barbie Liana e a florzinha que toca música, seus verdadeiros xodós.
‘‘A flor foi presente do avô quando nasceu, mas até hoje ela não deixa eu dar para ninguém. Diz que sempre vai ficar com ela’’, conta a mãe Adriana Moreno, que acha muito bom a filha ter um carinho especial pelos brinquedos. ‘‘Com eles, vejo que ela se sente mais segura quando está fora de casa’’, justifica.
Além da flor, Bia também não larga o travesseiro de pelúcia em forma de golfinho. A afeição é tamanha que ela mesma deu o nome de ‘‘Sonho de Lunar’’ para o amiguinho. E a explicação é uma só: ‘‘Ele me faz dormir gostoso’’, garante. Não é à toa que o bichinho se tornou o grande companheiro das noites dormidas fora de casa e do Dia do Brinquedo na escola. ‘‘Ele não cabe na mochila, mas ela faz questão de levá-lo’’, conta a mãe.
Objeto de transição
Dentro do universo infantil, a questão do apego, se analisada de maneira psíquica, mostra que há uma lógica para tamanho ‘‘grude’’. Quem explica melhor é o psicanalista clínico Ailton Bastos. Segundo ele, quando a criança nasce, não tem noção do ‘‘outro’’ e, portanto, acredita fielmente que ela e a mãe são um único ser.
‘‘Nesse período, o bebê é movido pelo sentimento de onipotência, supondo que controla tudo. De repente, quando começa a perceber a separação do outro, como por exemplo, o ato de desmamar, surge a angústia, e com ela, a necessidade de se agarrar a um objeto que dê segurança. É o que chamamos de ‘objeto transicional’’’, diz Bastos, ressaltando que tamanha importância dada a um objeto externo em grande parte serve para resolver uma angústia interior.
Enquanto bebê, Bastos explica que essa é uma atitude normal, pois ele está transitando para a fase criança. Porém, quando a criança dá início ao período escolar, teoricamente, já não deve estar tão apegada ao objeto, pois nessa nova fase deve se socializar com os outros. ‘‘É importante lembrar que cada criança tem sua fase de transição. Não existe idade certa, pois deve se levar em conta o sistema familiar e a personalidade da criança e dos pais’’, afirma.
Para constatar se o apego a algum brinquedo pode ou já se tornou um problema, os pais devem sempre estar atentos aos sinais. ‘‘Eles devem saber se o brinquedo se tornou um sofrimento tanto para a criança quanto para eles mesmos. Por exemplo, quando o objeto é esquecido em algum lugar, a ausência dele não pode causar transtornos e, muito menos, angústia’’, aponta.
A hora do desapego
Para o especialista, a melhor maneira de trabalhar o desapego é estimulando a criança a ter segurança sem o brinquedo. ‘‘Porém, essa ação nunca deve ser brusca. Ela deve ser gradual e de exposição. Não adianta esconder o objeto ou mentir para a criança, deixando bem claro que o brinquedinho preferido estará ao lado, mas que agora não é hora de mexer com ele. Os pais devem, aos poucos, convencer a criança de que não precisa dele’’, indica.
Tão importante quanto a exposição do objeto é o empenho dos pais em reassegurar à criança o amor e o afeto, dando garantia de que ela não será abandonada.
Para Deise Neves Hernandes, a fixação do filho Rodrigo, de 8 anos, pelos brinquedos nunca foi um problema. ‘‘Desde pequeno, nós sempre conversamos com ele, explicando que há lugares onde o brinquedo não pode ir’’, diz.
Com uma imensa coleção de dinossauros e um afeto especial por cada um deles, Rodrigo encontra dificuldade para apontar qual é o preferido, mas acaba se rendendo ao ‘‘Fuinha’’: um bichinho de pelúcia em forma de alienígena, dado de presente pela mãe há anos e que se tornou o grande xodó do garoto.
‘‘Acho saudável o Rodrigo ter essa afeição aos brinquedos, pois acredito que é uma forma de estimular o cuidar, o brincar, além de oferecer segurança à ele’’, comenta Deise, que vira e mexe, confessa encontrar um brinquedo escondido na mochila do filho. ‘‘Ele sempre acha um jeitinho de carregá-los’’, revela.

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