Te quero e não te largo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 02 de janeiro de 2009
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 
Dizem que o velho dá lugar ao novo e que toda novidade acaba se transformando em uma unânime atração. Se essa afirmação parece lógica para algumas pessoas, quando o assunto a tratar é a questão do apego ela perde todo o sentido.
Gostar de objetos em especial, todo mundo gosta e tem um. Mas conseguir se desfazer deles, já é outra conversa. Um bom exemplo disso são as crianças, que mesmo ganhando presentes novos a cada ano, não desgrudam dos que estão há anos alimentando sua imaginação.
Dormir com objetos de estimação, levá-los para a escola e só se sentir protegido quando eles estão por perto são alguns bons exemplos dessa fiel amizade. E na casa de Beatriz Moreno Barbosa, de 5 anos, a história não é diferente.
O quarto, que parece ser um sonho para muitas meninas, decorado com bonecas e ursinhos de pelúcia, para a pequena Bia só ganha sentido se nele estiverem o travesseiro de golfinho, a Barbie Liana e a florzinha que toca música, seus verdadeiros xodós.
A flor foi presente do avô quando nasceu, mas até hoje ela não deixa eu dar para ninguém. Diz que sempre vai ficar com ela, conta a mãe Adriana Moreno, que acha muito bom a filha ter um carinho especial pelos brinquedos. Com eles, vejo que ela se sente mais segura quando está fora de casa, justifica.
Além da flor, Bia também não larga o travesseiro de pelúcia em forma de golfinho. A afeição é tamanha que ela mesma deu o nome de Sonho de Lunar para o amiguinho. E a explicação é uma só: Ele me faz dormir gostoso, garante. Não é à toa que o bichinho se tornou o grande companheiro das noites dormidas fora de casa e do Dia do Brinquedo na escola. Ele não cabe na mochila, mas ela faz questão de levá-lo, conta a mãe.
Objeto de transição
Dentro do universo infantil, a questão do apego, se analisada de maneira psíquica, mostra que há uma lógica para tamanho grude. Quem explica melhor é o psicanalista clínico Ailton Bastos. Segundo ele, quando a criança nasce, não tem noção do outro e, portanto, acredita fielmente que ela e a mãe são um único ser.
Nesse período, o bebê é movido pelo sentimento de onipotência, supondo que controla tudo. De repente, quando começa a perceber a separação do outro, como por exemplo, o ato de desmamar, surge a angústia, e com ela, a necessidade de se agarrar a um objeto que dê segurança. É o que chamamos de objeto transicional, diz Bastos, ressaltando que tamanha importância dada a um objeto externo em grande parte serve para resolver uma angústia interior.
Enquanto bebê, Bastos explica que essa é uma atitude normal, pois ele está transitando para a fase criança. Porém, quando a criança dá início ao período escolar, teoricamente, já não deve estar tão apegada ao objeto, pois nessa nova fase deve se socializar com os outros. É importante lembrar que cada criança tem sua fase de transição. Não existe idade certa, pois deve se levar em conta o sistema familiar e a personalidade da criança e dos pais, afirma.
Para constatar se o apego a algum brinquedo pode ou já se tornou um problema, os pais devem sempre estar atentos aos sinais. Eles devem saber se o brinquedo se tornou um sofrimento tanto para a criança quanto para eles mesmos. Por exemplo, quando o objeto é esquecido em algum lugar, a ausência dele não pode causar transtornos e, muito menos, angústia, aponta.
A hora do desapego
Para o especialista, a melhor maneira de trabalhar o desapego é estimulando a criança a ter segurança sem o brinquedo. Porém, essa ação nunca deve ser brusca. Ela deve ser gradual e de exposição. Não adianta esconder o objeto ou mentir para a criança, deixando bem claro que o brinquedinho preferido estará ao lado, mas que agora não é hora de mexer com ele. Os pais devem, aos poucos, convencer a criança de que não precisa dele, indica.
Tão importante quanto a exposição do objeto é o empenho dos pais em reassegurar à criança o amor e o afeto, dando garantia de que ela não será abandonada.
Para Deise Neves Hernandes, a fixação do filho Rodrigo, de 8 anos, pelos brinquedos nunca foi um problema. Desde pequeno, nós sempre conversamos com ele, explicando que há lugares onde o brinquedo não pode ir, diz.
Com uma imensa coleção de dinossauros e um afeto especial por cada um deles, Rodrigo encontra dificuldade para apontar qual é o preferido, mas acaba se rendendo ao Fuinha: um bichinho de pelúcia em forma de alienígena, dado de presente pela mãe há anos e que se tornou o grande xodó do garoto.
Acho saudável o Rodrigo ter essa afeição aos brinquedos, pois acredito que é uma forma de estimular o cuidar, o brincar, além de oferecer segurança à ele, comenta Deise, que vira e mexe, confessa encontrar um brinquedo escondido na mochila do filho. Ele sempre acha um jeitinho de carregá-los, revela.


