A cabeleireira Maria Cristina Ferreira dos Santos, 43 anos, tem motivos de sobra para estar feliz da vida. O filho único, Saulo Veronese Ferreira dos Santos, 18 anos, acaba de ser aprovado em três vestibulares de faculdades públicas do País. Mas o que foi motivo de comemoração no início, agora está tirando o sono e a alegria da mãe-coruja. Saulo optou por estudar ciência da computação na Universidade Federal de São Carlos, no estado de São Paulo.
Há dois meses, o rapaz, que sempre foi caseiro e fazia companhia à mãe, se mudou de casa. O contato entre os dois se limita às visitas que acontecem a cada quinze dias. ''Estou muito orgulhosa por ele ter passado em um curso concorrido e em uma faculdade muito boa, mas sinto muito a falta dele em casa. No começo, foi uma festa: fomos para São Carlos procurar apartamento, comprar móveis. Mas, quando voltei, percebi que ele não estava mais aqui e a tristeza apareceu'', conta ela.
Ninho vazio Segundo a psicóloga clínica e especialista em análise do comportamento, Simone Oliani, Maria Cristina Ferreira Santos está sofrendo de um problema que os profissionais chamam de síndrome do ninho vazio. Com a saída dos filhos de casa, muitas mulheres se sentem sozinhas e sem referências, uma vez que o objeto de suas preocupações não precisa mais de seu trabalho. ''Quase todas as mulheres sofrem com a saída dos filhos de casa, mas aquelas que se dedicam demais a eles sofrem mais. Essas mulheres têm nos filhos a única preocupação e ocupação e, quando eles deixam a casa, elas ficam sem nada para fazer, passam a se sentir vazias e inúteis'', comenta.
Mesmo as mães que trabalham fora e têm outras atividades sentem a ausência dos filhos porque, de acordo com Simone, na nossa sociedade é sempre da mulher a atenção para com as necessidades das crianças. ''Até a mãe moderna acaba assumindo toda a responsabilidade de cuidar dos filhos e, por isso, sofre mais com a ausência deles do que o pai'', comenta.
Tudo para ele Maria Cristina era uma dessas supermães. Levava o filho para todos os lugares, da escola à casa da namorada, e era responsável por todos os o seus compromissos. ''Eu fazia tudo para ele, desde acordá-lo de manhã até servir de motorista e resolver problemas do dia-a-dia. Ele era minha principal ocupação''. Para espantar a solidão, Cristina agora tenta ocupar o tempo ao máximo. ''Estou vendendo um monte de coisas, além de trabalhar como cabeleireira. Se fico parada começo a pensar nele. Às vezes choro bastante, mas aí lembro que Saulo está em busca do seu futuro, que essa experiência vai ser importante para o seu crescimento, e me conformo. Mas ainda assim, ligo para ele quase todos os dias'', conta.
Nova vida Manter outras atividades é a dica da psicóloga para se preparar para essa fase. ''É importante que a mulher não se limite apenas ao papel de mãe. Ter um grupo de amigos para conversar, fazer esportes ou outra atividade como trabalho voluntário e cursos diversos são boas opções para ocupar a cabeça e se sentir útil. A saída dos filhos pode ser o começo de uma nova vida, onde a mulher pode voltar a exercer o papel de esposa, de companheira do marido, que ficou um pouco esquecido durante a maternidade'', aconselha, acrescentando que quem não se preocupa com isso, acaba caindo em armadilhas perigosas. ''São comuns os casos de mães que passam a beber e consumir drogas e remédios para depressão por causa da carência que surge depois que os filhos saem de casa'', alerta.
O apoio do marido nessa hora é fundamental. Simone lembra que muitos casamentos esfriam depois da chegada de um bebê e esse pode ser o primeiro passo para uma futura depressão. ''Os casais precisam evitar de se ver apenas como pai e mãe. Ter uma vida social juntos e manter o romance são atitudes que não podem sumir depois do nascimento dos filhos'', observa.
E, quando eles deixam a casa dos pais, segundo a psicóloga, o carinho e a paciência do companheiro ajudam a mulher a superar o sofrimento dessa fase, que tende a passar com o tempo. Mas, se a mulher começar a se sentir irritada, sem vontade de fazer nada e sofrendo muito, o conselho é procurar ajuda profissional. ''A síndrome do ninho vazio é bastante comum e muitas pessoas precisam de ajuda para superá-la'', afirma.
Maria Cristina acredita que a tristeza que ela está sentindo vai passar e já se prepara para levar a vida longe do filho. ''Estou colocando na minha cabeça que ele não vai mais voltar para casa. Mesmo depois de terminar a faculdade e voltar para cá para trabalhar, ele vai querer ter a casa dele e se casar. Hoje vejo que Saulo está mais amadurecido e independente e isso é muito bom. Sei que eu e o pai dele seremos sempre o apoio, mas de uma maneira diferente a partir de agora'', comenta, com os olhos cheios de lágrimas. n

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