Talentos lapidados
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 01 de abril de 1999
Rosângela Vale Enviada Especial 
Menos show e mais roupa comercial foi o que se viu na maioria dos desfiles da 5ª edição da Semana de Moda, que aconteceu semana passada, em São Paulo, com o patrocínio da Alcantara Machado. Permeando os universos próprios de cada criador, as principais tendências da estação estavam lá: bolsas à la Prada, peças cortadas no fio, sobressaias, silhuetas marcadas por drapês, pregas, plissados e assimetrias. E uma vasta cartela de cores, como pede este outono-inverno.
A rede de dormir vira poncho sob a ótica brasileiríssima de Eduardo FerreiraA coleção de Carlota Joaquina, assinada por Carla Fincato, não foge à regra. Com peças que prometem ser hits, como jaquetinhas estruturadas, coletes, sobressaias, calças no tornozelo e pochetes coloridas, tem tudo para agradar seu público-alvo, os adolescentes, e conquistar adeptos de faixas etárias diversas. Destaque para as estampas estilizadas de bandeiras e para as listras de marinheiro, que aparecem em saias e camisetas.
Um clima sombrio e dramático invadiu a passarela de Marcelo Quadros, ex-estilista da Ellus, desde o ano passado em carreira solo. O gótico inspira a coleção, que traz longos e volumosos vestidos negros, decotes profundos, peças em neoprene branco estampado e até um modelito estilo elizabetano, de golas, mangas e barra plissadas.
Look de Caio Gobbi: ponto para as botas com velcroO inverno da grife de streetwear Slam vem marcado pelas cores e pelo uso de detalhes como zíperes, matelassê, cordões (na cintura e na barra das calças masculinas, que ganham comprimento abaixo dos joelhos) e pochetes largas, fazendo as vezes de cinto. Além do náilon e do jeans constantemente utilizados, o estilista Giuliano Menegazzo acrescentou brim e moletom, privilegiando o conforto.
Redes de dormir, palha e balaios se transformam em moda sob o olhar apaixonadamente brasileiro do pernambucano Eduardo Ferreira. Com o tema Veredas (uma menção à obra do escritor Guimarães Rosa), o estilista utiliza a estética do vaqueiro, misturada à elementos da música - evidenciada pela presença do cantor Otto na passarela - folclore e comportamento nacionais. As formas variam: estruturada no terninho de renda, seca no vestidinho transparente, ampla na saia xadrez com babados de tule.
Os detalhes são primorosos: franjas de palha, bolsinhas enfeitadas com pena de pavão, coletes de couro bordado, texturas experimentais. Destaque para o trabalho de casa de abelha na blusa em forma de leque, para o balaio que vira saia, e para a determinação de Eduardo, que só acredita na moda feita com a intenção de revelar brasilidades.
O gaúcho Mareu Nitschke tenta reinterpretar o corpo humano subvertendo a silhueta feminina: cós despencando, volumes nas laterais e paletó com uma só manga - dando a impressão de que foi vestido pela metade. O tricô é um dos bons momentos, mas as estampas criadas a partir de gesso e silicone, pretensos pontos altos da coleção, vieram com um certo déja vu, pois já haviam aparecido no último verão de Reinaldo Lourenço.
A imagem de mulheres latinas orienta a coleção de Caio Gobbi, que aposta na alfaiataria em lã de corte seco e estruturado, franze golas e cinturas de vestidos, e acrescenta recortes rendados nas saias, que vem ainda com lateral em evasê, sobressaias e bolsos à mostra na versão jeans. Ponto para os sapatos: o estilista acerta tanto no escarpim bicolor de salto grosso, como na bota longa com velcro em todo o cano.
A grife mineira Jotta Sybbalena elabora seu inverno a partir das bandas de glitter punk dos anos 80. Entre calças laminadas, tops de lurex e paetês, camisetas trazem inscrições em alemão do filme Christiane F., além de estampas do grupo Kiss. Bolsos inusitados - com tecido enroladinho, formando pequenos tubos - elastex e renda fazem o contraponto do glamour. Tudo bem ao gosto do público clubber, assim como a trama ficcional-fashion de A Mulher do Padre, baseada em um lutador assombrado por uma menina fantasma e um lagarto. A fértil imaginação dos estilistas Vinícius Campion e Paula Ferrari resultou numa coleção irreverente e divertida, que abusa do náilon matelassado, lã felpuda e couros sintéticos, e sugere peças inusitadas, como a calça masculina cujo cós é a metade da cueca, numa referência à mania dos skatistas de deixar a peça íntima à mostra.
Apresentando uma cartela de cores primorosa, Mário Queiroz fez uma coleção que promete conquistar o gosto masculino convencional, com silhueta reta e jaquetinhas curingas. Há também opções para os que querem ousar: conjuntos em couro e com aspecto de veludo e calças corsário retas. Mas a imagem que fica é a dupla calça cinza/camiseta salmão: simples, moderna, essencial. A linha feminina vem com saias transpassadas, com fenda entre as pernas, meia 3/4 padrão escocês e camisa.
Com representação em Paris e algumas de suas criações em editoriais de revistas francesas, Lorenzo Merlino é um dos nomes do momento. Personalidades como as cantoras Madonna e Natalie Imbruglia já exibiram modelitos do estilista, que faz um inverno com silhuetas alongadas. Destaque para as calças sequinhas com abertura em leque em uma das barras, collants de lã e longos casacos. Patrocinado pela Chivas Regal, Merlino faz uma homenagem à terra do uísque reinterpretando o kilt , com saias-calça em cores monocromáticas. Mas as influências internacionais pesam um pouco, e apesar de revelar técnica apurada e boa pesquisa, a coleção soa européia demais para o frio tupiniquim.


