Suando em bicas
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 26 de janeiro de 2001
Vivian Ávila Pavan Especial para a Folha da Sexta 
Ninguém está livre de, literalmente, molhar a camisa, nestes dias em que os termômetros tropicais beiram os 40 graus. Suar é necessário para regular a temperatura do organismo. Mas, quando o clima não está tão elevado assim e as mãos insistem em gotejar e as axilas formam aquelas imensas e indesejáveis circunferências é sinal de que é preciso procurar ajuda.
O suor excessivo é chamado de hiper-hidrose, catalogada como doença no Código Internacional de Doenças (CID). De acordo com o médico e cirurgião-torácico João Carlos Thomson, uma disfunção do tronco simpático formado por gânglios e situado ao lado da coluna vertebral provoca uma sudorese excessiva em determinadas partes do corpo. É mais comum nas mãos e axilas, mas também pode atacar os pés e a face, observa o médico.
Sem causas orgânicas que o expliquem, o suor excessivo, conforme Thomson, pode estar associado a situações emocionais. O médico observa que o tratamento mais indicado para a doença, hoje, é o cirúrgico. Trata-se da Vídeo Simpatectomia Torácica, cirurgia feita bilateralmente e que consiste na secção do tronco simpático. O corte interrompe o estímulo nervoso para as glândulas sudoríparas e o suor em quantidade desaparece.
A cirurgia para eliminar a sudorese axilar e palmar tem resolvido também em 50% dos casos a sudorese excessiva dos pés, lembra Thomson. A simpatectomia lombar, contudo, é a cirurgia específica para o caso.
Após a operação, pode acontecer de a sudorese migrar para o abdome, costas e parte interna da coxas. É a chamada sudorese compensadora que tende a reduzir consideravelmente, e pode até desaparecer, num período de três a seis meses. -
Peregrinação Na busca por uma solução para o problema, pacientes muitas vezes consultam dermatologistas, endocrinologistas e neurologistas. Sem resposta em curto período, o tratamento é interrompido. Pacientes são também encaminhados ao cirurgião-torácico por estes especialistas. Thomson explica que a avaliação de um endocrinologista é importante para descartar a possibilidade de hiper-hidrose secundária. Uma disfunção da glândula tireóide também pode provocar o problema.
Desde 97, cerca de 30 pessoas de Londrina e região se submeteram aos bisturis de Thomson e de Eduardo Sahão, também cirurgião-torácico. A grande maioria com idade entre 16 a 24 anos. Mas há casos de pessoas na faixa dos 40 anos que procuram o recurso. Os resultados, tanto para as axilas quanto para as mãos, são considerados excelentes pelos médicos, com 96% de resultados positivos. Em só um dos pacientes, a hiper-hidrose persistiu após a cirurgia.
Visão ampliada Thomson conta que a cirurgia para a cura da hiper- hidrose é feita no mundo todo há cerca de 50 anos. Nos anos 90, o progresso da videocirurgia facilitou a visibilidade do tronco simpático do sistema nervoso autônomo, proporcionando uma cirurgia menos agressiva e melhores resultados.
Nos últimos quatro anos, a técnica vem sendo realizada nos grandes centros brasileiros de cirurgia torácica. É uma boa opção, assegura Thomson. Atualmente, não há técnica melhor para o tratamento, completa Sahão.
A cirurgia dura em média 1h20 para a correção bilateral. É realizada com anestesia geral. São utilizados dois cateteres em cada um dos lados. Um deles, de 10 milímetros, acoplado à câmera de vídeo, fica abaixo da mama; o outro, de cinco milímetros, introduzido abaixo da axila, usa o cautério (bisturi elétrico) para cauterizar, até cortar, os gânglios do tronco simpático. O tempo de permanência pós-cirúrgico do paciente no hospital é, em média, 12 horas. Em uma semana o paciente pode retornar às suas atividades normais.


