Que tal preparar uma pizza de manjericão com as folhinhas colhidas na varanda? Ou temperar seu peixe com pimentas retiradas do quintal? Além de elogiar o sabor, os convidados vão se sentir homenageados quando você convidá-los a conhecer a ''horta'' de onde foram colhidos os temperos.
Saber que as plantinhas estão ao alcance da mão só aumenta o prazer de caprichar nos pratos e nas receitas, por mais simples que sejam. E cozinhar e comer com prazer são sentimentos tão importantes quanto selecionar corretamente nossos cardápios, pois o delicado processo de planejar espaços com luz e ar fresco, semear, regar as plantinhas diariamente, além dos benefícios dos vegetais em si, com certeza proporcionam boas horas de higiene mental.
As plantas caseiras são, em sua maioria, de fácil plantio e cuidados básicos. Nada sofisticado ou complexo. Sua utilidade pode variar, desde as medicinais, até as condimentares, passando pelas aromáticas.
Plantas medicinais De acordo com a Organização Mundial da Saúde, 80% das pessoas dos países em desenvolvimento dependem da medicina tradicional para suas necessidades básicas de saúde e cerca de 85% da medicina tradicional envolve o uso de extratos de plantas. lsso significa que de 3,5 a 4 bilhões de pessoas dependem de plantas como remédios. Cerca de 80% da população da Terra não têm condições financeiras para comprar medicamentos.
No Brasil, estima-se que 60% dos habitantes recorram às plantas medicinais, principalmente por falta de recursos. No entanto, o País representa o sétimo mercado mundial de produtos farmacêuticos, sendo que 60% dos remédios são consumidos por apenas 23% da população. Mesmo tendo um dos celeiros naturais mais variado e valioso do mundo, o Brasil chega a gastar entre 2 e 3 bilhões de dólares por ano com importação de matérias-primas para 90% dos remédios sintéticos consumidos pela população.
Avanços recentes nas pesquisas indicam que a biodiversidade representa, também, a diversidade química do ambiente e que os produtos naturais são ativos, desempenhando determinada função biológica nas plantas onde ocorrem. Essas funções tanto podem ser reguladoras, de defesa ou úteis para a preservação da espécie, atraindo pássaros ou insetos responsáveis pela polinização e dispersão de sementes. Tais conceitos auxiliam na compreensão do ecossistema, na obtenção de novos fármacos e produção sustentável das plantas medicinais.
Orientação Não se deve recorrer aos produtos vegetais como se fossem inofensivos só por serem naturais. Os produtos naturais têm ações específicas e por isso sua utilização deve ser sempre acompanhada de orientação médica. Um chazinho para uma indisposição gástrica é completamente diferente de um tratamento intensivo apenas com chás para uma pneumonia, por exemplo. A automedicação, prática recorrente no Brasil, precisa ser orientada.
Muita gente pensa que, por serem feitos à base de ingredientes naturais, os medicamentos fitoterápicos apresentam menos riscos do que as substâncias sintéticas. Na verdade, as ervas medicinais da mesma forma que seus correspondentes farmacêuticos podem provocar efeitos colaterais altamente tóxicos. Além disso, as ervas medicinais não estão sujeitas a padrões rígidos de controle como os medicamentos sintéticos.
Em 1988 foi criada a Sociedade Brasileira de Plantas Medicinais, órgão sem fins lucrativos que reúne pesquisadores, técnicos e profissionais das áreas de botânica, agronomia, farmacologia e química, além de outros profissionais universitários ligados diretamente aos serviços públicos de saúde, empresas e instituições não governamentais que tenham a mesma finalidade.
Em casa Voltemos às nossas hortinhas e vasos com cebolinhas na varanda. O fato é que sabemos muito pouco dessas ''terapias populares'' empregadas há séculos. Quem de nós já não tomou uma ''poção'' quentinha para dores, nervosismo, insônia? Será que os chás tomados eram os mais indicados? Muito se desenvolveu na pesquisa das plantas medicinais e na tecnologia da produção industrial. No início do novo milênio, percebemos que a medicina vem confirmando, cada vez mais, as propriedades curativas das ervas. Cresce, portanto, a cada dia, o número de pessoas que encontram nas plantas medicinais um auxiliar natural, seguro e eficaz para a manutenção e restauração da saúde.
Os pequenos vasos de antúrios e os xaxins podem dar lugar a outros vegetais, de fácil e simples cultivo, com utilização imediata e sem contra-indicações. Eles podem ser adquiridos a granel ou em embalagens que trazem todas as indicações sobre a melhor época de cultivo, profundidade de semeadura e condições mínimas climáticas para desenvolvimento da planta.
É importante que a terra esteja bem adubada e as plantas fiquem em espaços arejados e com pelo menos um momento de luz ao dia. Um outro processo de cultivo, a hidroponia cultivo sem terra, apenas com água e nutrientes é mais complexo e requer mais espaço e conhecimento de outras técnicas.
A forma mais adequada de utilizar as plantas para manter uma boa saúde e curar pequenos distúrbios é adotá-las na alimentação diária. Tanto os chás quanto os temperos à base de ervas aromáticas, quando usados de forma correta, só trazem benefícios ao nosso organismo. n


Ervas aromáticas

Alecrim - Realça o sabor de aves e da carne de carneiro, suas folhas contém um óleo que é empregado em unguentos contra dores musculares. Acredita-se que o chá de alecrim alivia as dores de cabeça.

Alfavaca - Arbusto originário do Brasil, de múltiplas utilizações. Na culinária é usada em sopas e molhos, tem propriedades digestivas, antiflatulências, anticatarrais e antiasmática. É considerada benéfica também contra problemas urinários.

Artemisia - Utilizada em sopas e assados. É indicada, segundo alguns autores como estimulante do apetite, contra dores de cabeça, enxaquecas, cólicas e doenças das juntas como reumatismo e artrite.

Cebolinha - Irmã caçula da cebola, realça o sabor de batatas, sopas e cozidos. A cebolinha contém enxofre, que pode reduzir a pressão arterial se consumida em grandes quantidades.

Coentro - O sabor forte de suas folhas enriquece molhos e pratos à base de aves e vegetais. Recomenda-se mascar folhas ou as sementes para alívio da indigestão.

Manjericão - Base de diversos pratos, o manjericão, quando utilizado em grandes quantidades, funciona também como fortificante e antigripal. Acredita-se que o óleo dessa planta sirva como repelente de insetos.

Salsa - Quando consumida em porções de pelo menos 30 gramas, contém uma boa quantidade de vitamina C (no caso da salsa fresca), cálcio, ferro e potássio. A salsa também é rica em bioflavonóides, monoterpenos e outras substâncias anticancerígenas.

Sálvia - Usada em muitos pratos de aves e carne de porco preparadas com recheio à base de pão. O chá de sálvia é usado como digestivo e como líquido para bochechos e gargarejos, agindo contra gengivites, aftas e inflamações da garganta.

Tomilho - Uma das ervas favoritas da tradicional cozinha italiana, o tomilho é usado também em chás, para aliviar distúrbios intestinais, em gargarejos contra inflamações da garganta e em xaropes, para tratamento de tosses e congestões respiratórias.

Louro - Usadas como tempero de sopas, guisados e cozidos, as folhas de louro também podem ser utilizadas em chás, proporcionando alívio contra gases. (J.M.S.)

Orégano - Muito utilizado em recheios, saladas e pratos à base de tomate, as folhas de orégano são consideradas digestivas e descongestionantes.

Serviço
Jocelem Mastrodi Salgado é professora titular de Nutrição da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz- USP. É autora do livro ''Pharmacia dos Alimentos Recomendações para Prevenir e Controlar Doenças'', editora Madra.

mockup