Stress tecnológico
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quinta-feira, 20 de setembro de 2001
Celso Mattos 
Não há como negar que a informática facilitou em muito a vida das pessoas, economizando tempo, trazendo novos recursos visuais e informações que há dez anos eram impensáveis. Os mais antigos, que usaram por muito tempo as pré-históricas máquinas de escrever Olivetti, valorizam ainda mais essa maravilha da modernidade que são os microcomputadores. Mas os benefícios trazidos pela tecnologia têm seu preço.
Há algum tempo, a psicóloga clínica Eliane Marçal vem pesquisando o stress que o computador provoca nos usuários. O interesse de Eliane pelo assunto começou à medida em que aumentou o número de pacientes estressados que a procurava no consultório. ''Percebi que eram pessoas que ficavam durante muito tempo em frente ao computador, por trabalho ou diversão'', justifica a psicóloga.
Ela recorda que nos últimos anos, com a disseminação da informática, o problema se tornou ainda mais grave. ''As pessoas têm ficado mais tempo no computador e a grande quantidade de informações recebidas acaba sendo um agravante'', acrescenta Eliane. A psicóloga esclarece que, nesse caso, os estressados podem ser divididos em dois grupos: aqueles que dominam bem a informática e os que têm apenas um conhecimento básico da área.
Os experts em computação se estressam porque ficam muito tempo em frente ao micro e se tornam ansiosos porque não conseguem assimilar toda a informação disponível na rede. Do outro lado estão os que usam o computador no trabalho ou em casa, mas não têm grande domínio da máquina. ''Esses, que são maioria, estão constantemente brigando com o micro porque dependem dele, mas não sabem utilizar corretamente seus recursos. O sentimento de incompetência diante do computador deixa-os estressados'', constata.
Micromaníacos Por esse motivo, as cenas de pessoas xingando o micro de ''burro'', ''desgraçado'' e outros adjetivos impublicáveis é cada vez mais comum, pois estamos nos tornando reféns dessa máquina. ''Parece que é justamente quando você está com pressa que o computador resolve travar ou acontece de você apertar uma tecla errada e deletar tudo o que já havia digitado. Às vezes, o material não foi deletado, mas apenas desapareceu da tela e o usuário não sabe como recuperá-lo. Esses inconvenientes são extremamente estressantes'', observa a psicóloga.
Além dessa ''relação conflitante'' com o computador, atualmente, as pessoas precisam conviver com a cobrança da sociedade e do mercado de trabalho. ''Quem não sabe navegar pela internet, enviar e-mail ou fazer um download é considerado um analfabeto, por mais culto que seja em outras áreas. Hoje, dominar a informática é um imperativo categórico. E quem não domina ou não tem acesso a essa tecnologia, sente-se excluído'', salienta.
Na outra ponta estão os ''micromaníacos'' que passaram horas e horas navegando pela internet ou jogando no computador. ''Essa dependência pode desenvolver um comportamento anti-social, a pessoa passa a ter dificuldade de se relacionar com os outros. Isso é muito comum entre os adolescentes que começam a visitar sites de bate-papo, de sexo virtual ou só encontram divertimento nos jogos disponíveis no computador'', alerta a psicóloga.
Eliane Marçal aponta que além do stress e do isolamento, os ''micromaníacos'' começam a levar uma vida muito sedentária, passam a sentir dores de cabeça e ter problemas de visão. ''Temos que nos conscientizar que o computador é um instrumento fundamental de trabalho e de informação, mas seu uso precisa ser dosado para não acarretar prejuízos à saúde'', aconselha.
Outras atividades Ela acrescenta que o cérebro precisa de um tempo para descansar, caso contrário chegará ao esgotamento. ''É necessário aliar os benefícios de divertimento, informação e facilidades que o computador oferece, com outras atividades de lazer que favoreçam o contato com a natureza e o relacionamento com outras pessoas. Transformar o micro em seu único elo com o mundo físico e, às vezes, até emocional, é um comportamento que pode trazer muitos problemas físicos e psicológicos'', alerta.
Um outro aspecto abordado por Eliane Marçal é a necessidade que as pessoas têm de sempre comprar um computador mais moderno. ''Existe aí até uma pressão da sociedade e da publicidade'', observa. Assim como o indivíduo ''namora'' um carro novo, ele passa a desejar um computador de última geração, mais potente e com mais recursos.
No momento, a psicóloga Eliane Marçal está coletando dados para seu estudo sobre ''Stress no Computador'', para o qual busca patrocínio empresarial para dar continuidade à pesquisa. Segundo ela, a intenção é que esse estudo possa abranger um número significativo de pessoas, transformando-o em uma radiografia para que empresas e trabalhadores possam se espelhar para nortear e se organizar na forma de lidar com essa máquina que a cada ano fica mais presente em nossas vidas.


