A imagem de um idoso vivendo sozinho nem sempre é vista com bons olhos pela sociedade. A primeira idéia que vem à mente é o abandono e a falta de consideração dos familiares. Ledo engano. Para muitos vovôs e vovós, trata-se de uma opção, uma forma de garantir a liberdade e a privacidade depois de cumprida a missão de educar e encaminhar os filhos na vida.
A terapeuta ocupacional Sônia Geib, da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro, de Uberaba (MG), quantificou a situação. Ela entrevistou 44 idosos de classe média que moram sozinhos, para saber se eles pretendiam viver com a família. Apenas um respondeu que queria companhia. Mesmo assim, não se tratava de morar com filhos, mas de casar de novo.
Os entrevistados da pesquisa têm idade entre 72 e 94 anos; 84% são viúvos e os outros, solteiros ou separados. As mulheres são maioria – 81% dos pesquisados. Elas vivem mais do que os homens e se casam menos do que eles pela segunda vez. Antes de morarem sozinhos, 55% dos entrevistados viviam com o marido ou a mulher. Os demais dividiam a casa com irmão, filho ou outro parente. A pesquisa foi apresentada como dissertação de mestrado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Segundo o estudo, morar sozinho produz efeitos positivos e bem-estar no idoso. ‘‘Eles permanecem motivados e independentes por mais tempo’’, explica Sônia. ‘‘A independência e a autonomia de cuidar de si mesmos é a realização de um desejo. E as pessoas da terceira idade não querem abrir mão disso’’, afirma a terapeuta.
Tranquilidade Um bom exemplo é Herta Horner, 89 anos, viúva há 27, um filho, dois netos e dois bisnetos. ‘‘Minha nora queria me levar para casa dela, mas achei melhor ficar aqui. Ele têm a vida deles e eu, a minha’’, justifica ela, que mora próximo à casa dos familiares. ‘‘Eles vêm me ver todos os dias’’, conta.
Apesar da insistência deles em lhe arrumar uma companhia, ela nem pensa mais no assunto. ‘‘Tinha sempre alguém morando comigo, eu alugava um quarto. Todos se casaram. Tive uma empregada que ficou durante um ano, mas me roubou e me amolou bastante. Depois, quiseram colocar uma mulher de idade aqui, mas para quê? Para eu cuidar dela?’’, questiona, enfática.
Para Herta, ficar sozinha é uma forma de manter a tranquilidade e a independência. O trabalho doméstico não a assusta. ‘‘Me acostumei’’, diz. Ela limpa a casa, lava a roupa e cozinha, além de capinar o jardim e, vez ou outra, preparar doces de frutas colhidas no pomar que ela mesma plantou. ‘‘O bem-te-vi me acorda. E traz a família para comer no meu jardim. Depois, chegam as rolinhas, os pardais. Brigam, comem, cantam. Essa é a minha convivência’’.
O tricô, uma de suas atividades preferidas, já não é mais possível. ‘‘O ponto escapa, as mãos tremem’’, lamenta. Mas as limitações param por aí. ‘‘Eu sentia muitas dores nas pernas, fui até internada, mas os médicos não souberam o que era, até que sarei. Tenho muita saúde’’, ressalta, sem abusar da sorte. ‘‘Tenho muito cuidado com acidentes. Antes de fazer uma coisa, sempre penso: será que vou dar conta?’’
A solidão não incomoda Herta. ‘‘Adoro a minha vida. Fico pensando no meu passado, na minha vida que foi tão dura’’, lembra ela, que saiu da Alemanha com 8 anos, morou com os pais em Rio Claro (SP), casou-se com um lavrador e acabou chegando à Warta, onde ajudava o marido a administrar uma propriedade rural. ‘‘Tive até que domar burro chucro’’, conta.
Liberdade Já para a aposentada Francisca Camargo Pires, 73 anos, a solidão não é tão boa companhia, principalmente à noite. A solução são os livros e, vez ou outra, a televisão. Além do tricô e do crochê, seus hobbies são costurar e cozinhar para as netas. Viúva há quase dois anos, ela se mudou de Bauru (SP) para Londrina por pressão da filha, que nem insistiu para que a mãe morasse na sua casa. ‘‘Ela me conhece. Eu sempre gostei da minha liberdade. E não gostaria de tirar a liberdade da família dela’’, diz Francisca, argumentando: ‘‘A gente tem que envelhecer com dignidade’’.
A alternativa foi comprar um apartamento próximo ao da filha, mesmo porque é lá que ela passa a maior parte do dia, além de sempre acompanhar a família nos programas de fim de semana. Por que, então, não dividir o mesmo teto com eles? ‘‘Quando quero ficar sozinha, venho para a minha casa’’, explica Francisca, que não abre mão das viagens para matar as saudades dos amigos que deixou em Bauru e do filho, que mora em Catanduva. Detalhe: ela vai sozinha e dirigindo. ‘‘A única exigência da minha filha foi a de que eu tivesse um celular para me comunicar com ela durante a viagem’’, relata.

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