Sopros de verão
Explorando o delicado universo feminino sua especialidade Fábia Bercsek propõe um inusitado cocktail fazendo uma releitura de luxuosas peças da década de 30. O resultado é um rejuvenescimento dos looks de festa. Pontuando toda a coleção, a gravata borboleta surge como detalhe na lateral da calça, no tomara-que-caia e na blusa de malha torcida na frente, simulando um laçarote. Rosa, verde-água, champanhe, preto e branco são as cores eleitas para o verão. As formas sequinhas vão, aos poucos, cedendo lugar às mais amplas, culminando em vestidos rodados. Destaque para a discreta estampa tye-dye em tons pastel bordada com canutilhos.
Alices urbanas invadiram a passarela de Deoclys Bezerra, que usou o romantismo da personagem de Lewis Carrol para fundir passado e futuro. Volumes torcidos, amarrados e franzidos percorrem todos os looks. Passadores sustentam tiras de tecido que formam laços e fitas caindo pela silhueta. Os comprimentos estão acima dos joelhos e a cartela de cores inclui rosa, carmim, violeta e preto. Como acessórios, relógios antigos amarrados com faixas de tecidos, marcando o tempo da passagem da adolescência para a vida adulta.
Uma revolução no guarda-roupa certinho das secretárias. É o que propõe o talentoso Jefferson de Assis, mestre no corte enviesado. A partir dos tailleurs secos e básicos, ele reconstrói a silhueta, utilizando recursos bem interessantes, como fios de cadarço tensionados, ora repuxando a saia listrada ora formando uma teia nas pernas, abaixo de calças capri e leggings. Recortes vazados nos tailleurs e fendas impossíveis nas minissais são algumas das propostas. A gola alta formada por tiras de índigo e o vestido jeans todo recortado, costurado sobre segunda pele de malha, estão entre os pontos altos da coleção.
Depois dos escaravelhos da última coleção, a paranaense Érika Ikezili elege outro inseto como tema de seu verão. Em ''Colegial Butterfly'', a estilista faz uma analogia entre a metamorfose das borboletas e o amadurecimento das garotas. O bicho surge na regatas com estampas siliconadas e nas nesgas em forma de asas. O jeans é o ponto forte da coleção, aparecendo em saias levemente armadas e com barra de zíper, peças que podem ser fechadas quando fora do corpo, virando um casulo. Entre as cores, branco, preto e verde-água predominam.
Nenhum estilista representou tão bem a evolução do conceitual para o vestível fato que permeou toda a edição de verão Amni Hot Spot como Samuel Cirnansck. O estilista deixou para trás a carga demasiadamente teatral e acertou a mão ao apostar no luxo decadente (ou novo preciosismo) que tanto preza a moda atual. A imagem desgastada das festas de debutantes foi o pano de fundo para suas criações, que misturam delicadeza e agressividade. Os jeans surgem rasgados, colares de pérolas e cristais infiltram-se na trama, reconstruindo os rasgos. Crepe de seda, tule e malha rendada dividem a cena com o índigo. Assimetrias e franzidos completam o repertório de Samuel, que elegeu areia, pele e azul-bebê como os tons da sua festa.
O crochê em peças inteiras é o ponto alto do verão de Emilene Galende, que criou ainda belíssimos vestidos em tricô retilíneo e manual. As formas começam retas e chegam ao godê. Calça tipo moletom e macacão em matelassê são outras apostas. Inspirada em contos de fadas, a estilista trata cada peça como um amuleto. Tanto que os acessórios resgatam um modismo antigo: aqueles pingentes de bonequinhos usados pelas mamães para representar seu rebento. Na concepção de Emilene, eles surgem em tamanho extra large. Nos pés, congas brancos com velcro, desenvolvidos em parceria com a Alpargatas.
Delicado e leve, o verão de Wilson Ranieri é um sopro de frescor e juventude sabiamente misturado à sobriedade que tanto agrada às consumidoras das demais faixas etárias. Apostando nos tons pastel, com recortes precisos e um acabamento primoroso, ele confirma o talento para o moulage. As tranças, sempre presentes no seu trabalho, surgem agora nas blusas de crepe georgete. Drapês e plissados completam seu repertório. O sapato, criado em parceria com a shoemaker Janete e a designer Cláudia Arbex, vem coberto de georgete plissado com volumes feitos em dobradura. Pura poesia.
A sofisticação deu o tom, mais uma vez, à coleção de Walério Araújo. Com o tema ''Grã-finas Operárias'', ele criou estampas e aplicações de ferramentas mecânicas, que surgem ainda nos acessórios. As calças e macacões ganham formas amplas e as camisas são mais curtas, com elastex. Os destaques são a malha bordada em richelieu e a estampa de renda com interferências em prata. Os escarpins lixados, desenvolvidos pelo Empório Naka, ganham solado de pneu. Misturando elegância e modernidade em doses precisas, Walério prova que é mestre no ofício.





