Da Editoria
Não é de hoje que o ronco vem sendo discutido como um problema social que afeta o convívio mais íntimo do portador do distúrbio. As conseqüências vão além das queixas rotineiras, com os pacientes chegando aos consultórios médicos para o tratamento da evolução do problema que, pelas características, pode ter gravidade e ser caracterizado pela chamada Síndrome da Apnéia Obstrutiva do Sono. No entanto, o que pouca gente sabe é que o distúrbio pode surgir na infância e prejudicar o desenvolvimento intelectual e físico da criança.
  ‘É mais comum diagnosticar a apnéia no adulto. Não há, em nosso meio, muitos estudos estatísticos sobre a incidência no público infantil, estimando-se ser possível ocorrer em até 10% das crianças com idade até os 10 anos. Estudos recentes correlacionam crianças portadoras de apnéias freqüentes com alterações na produção do hormônio de crescimento (chamado de GH), podendo evoluir um déficit de peso e altura, acompanhadas de dificuldades no desenvolvimento físico e de aprendizado. É preciso estar atento ao problema’’, esclarece o otorrinolaringologista e cirurgião de cabeça e pescoço Wilson Ayres, do Hospital e Maternidade São Luiz, de São Paulo.
Sintomas Segundo o especialista, o problema já pode ser verificado e diagnosticado a partir de um ou dois anos de idade. Por isso, os pais devem estar atentos e observar o sono da criança, que é fundamental. ‘‘A criança pode apresentar vários sintomas, além do ronco e da apnéia, incluindo a dificuldade em se alimentar’’, explica Ayres. O tratamento, assim como no adulto, pode ser cirúrgico, por meio da adenoamigdalectomia (remoção da adenóide e das amígdalas) quando estas, hipertrofiadas forem a causa da apnéia’’ complementa.
  Estima-se que cerca de 40% dos adultos roncam, com predominância do sexo masculino. Deste total, aproximadamente 3% a 5% dos portadores do distúrbio evoluem e sofrem de apnéia grave. ‘‘A incidência do ronco é alta, mas os índices de eficácia dos tratamentos também são. Quando, em crianças, as causas do ronco são diagnosticadas corretamente e o tratamento é adequado, o índice de melhora dos sintomas pode chegar a praticamente 100%’’, assegura Ayres.
Ronco patológico Para o especialista, o ronco passa a ser considerado um fenômeno de incômodo social quando torna-se desconfortável para quem convive com o ‘roncador’. É patológico quando evolui para a apnéia do sono, um problema considerado grave. Os roncos são resultados de vibrações das estruturas anatômicas das vias aéreas superiores (nariz, palato mole e faringe), ocasionados por bloqueio parcial à passagem do ar da respiração.
  Já a apnéia do sono é a interrupção da respiração, por alguns momentos, durante o sono. ‘‘Este fato pode ser gravemente danoso à saúde e é freqüente em boa parte dos roncadores crônicos. A ocorrência da apnéia pode chegar a incríveis 300 episódios durante uma única noite e pode levar à diminuição séria nos níveis de oxigenação sanguínea, tendo como conseqüência o aumento da possibilidade de doenças que incluem problemas cardíacos, cerebrais, hipertensão arterial, entre outros. Além disso, pacientes que têm apnéia do sono costumam apresentar sonolência diurna, dificuldade de concentração, redução da libido, cefaléia matutina, entre outros sintomas’’, relata Ayres.
Tratamentos Alguns fatores predispõem o problema. Entre eles estão a obesidade, o uso de tranqüilizantes, a ingestão de bebidas alcoólicas, o fumo (por ocasionar processos inflamatórios crônicos das vias aéreas superiores) e posições durante o sono, como decúbito dorsal (de barriga para cima). Este último se deve ao fato de, com a ação da gravidade, as estruturas respiratórias se estreitam e a língua ‘cai para trás’, dificultando o processo respiratório.
  Há diversos tipos de tratamentos indicados para as diferentes causas do ronco e da apnéia: anatômicas, cerebrais e mistas. Contudo, o tratamento mais utilizado, em mais de 80% dos casos, é a cirurgia conhecida como uvulopalatofaringoplastia – remoção das
amígdalas com a redução volumétrica do palato, incluindo a extirpação total ou parcial da úvula. ‘‘Nestes casos, quando adequadamente indicada e executada tecnicamente, o índice de eficácia do tratamento, em adultos, supera os 90%’’, afirma Wilson Ayres. n

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