Muita gente não sabe que o Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março, é resultado de uma ação corajosa, porém, com um final trágico. Neste mesmo dia do ano de 1857, ope­rárias de uma fábrica de tecidos, em New York, fizeram greve com o objetivo de reivindicar melhores condições de traba­lho. No entanto, a manifestação foi re­primida com violência, e as mulheres trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada, matando cerca de 130 tecelãs. Em consequência disso, durante uma conferência na Dinamarca, em 1910, ficou decidido que 8 de março passaria a ser o Dia Internacional da Mulher, em homenagem às vítimas da tragédia. Porém, foi só em 1975 que a data foi oficializada pela Organização das Nações Unidas (ONU).
Hoje, passados mais de 150 anos do ocorrido, as mulheres continuam mostrando força e coragem para lidar com assuntos atuais, seja dominando algumas áreas do mercado de trabalho, ou sozinhas à frente de empresas, negócios, ou competições onde os homens predominam. Cada uma das mais de 97 mi­lhões de mulheres brasileiras – segundo dados do censo 2010 - possui uma história de vida única, com seus fracassos e vitórias, sonhos e desilusões.
Para homenagear o "ex-sexo frágil", a reportagem ouviu quatro diferentes histórias de mulheres que são exemplos de determinação quando o assunto é alcançar seus objetivos.


Elas mandam no pedaço
Há 15 anos, uma das primeiras frases que Viviane Cristina de Souza ouviu ao entrar no ramo de seguros foi: "Eu não me sinto à vontade para tratar desse assunto com você", disse um corretor durante a negociação de uma frota. Hoje, a gerente executiva de uma seguradora em Londrina usa esse exemplo para mostrar como era e como é hoje o tratamento dado às mulheres em algumas áreas. "O mercado sempre ligou a figura feminina ao seguro de vida e benefícios, assuntos mais delicados. Mas hoje temos muitas mulheres negociando nos setores de carros, equipamentos agrícolas, riscos de engenharia, entre outros considerados mais masculinos", explica.
Apesar do aumento do número de mulheres nessa área, Viviane ainda é a única gerente executiva que trabalha com todos os ramos do setor em Londrina. "Ainda é uma área que a mulher não domina, mas de uns cinco anos para cá, ela tem se destacado", diz.
Viviane explica que a evolução das seguradoras acompanhou o ritmo feminino. "Com o aumento do número de mulheres ao volante, os serviços também lançaram um olhar mais apurado para esse público. Tem invenção melhor, para nós mulheres, que a assistência 24 horas? São poucas as que se arriscam a trocar um pneu, no meio da rua, às onze da noite", argumenta.
E não bastasse a gerente ser mulher, na seguradora onde ela trabalha, a presença feminina predomina. Além de Viviane, há outras três mulheres. "É gostoso trabalhar em muitas mulheres porque falamos a mesma língua, a gente se entende", explica. E para o gerente comercial Marcos Furlan, o único homem da turma, só resta elogiar. "Não vejo diferença no trabalho feito por homens ou mulheres nessa área".


Adrenalina para relaxar
Filho de peixe, peixinho é, como no caso de Mayara Beraldo, a peixinha, na família de duas meninas. "Meu pai foi campeão paranaense de enduro e eu, desde pequena, faço trilha de moto com ele. Minha irmã sempre foi a mais "menininha", e eu o moleque que ele não teve", diverte-se a gerente geral do Grupo BK.
Aos 17 anos, depois de cair de moto durante os passeios e ser proibida pela mãe de continuar com as trilhas, Mayara decidiu se aventurar pelo Autódromo Internacional de Londrina em competições de fusca. "Só tinha eu de mulher. Mesmo assim sempre participei de campeonatos e ficava entre os cinco primeiros", orgulha-se.
Depois de quase cinco anos na cate­goria, mudou para as corridas em protótipos, também só com homens. A dife­rença, segundo a gerente, é que este último atinge cerca de 240 km/h. "No começo ninguém acreditava que eu poderia competir e chegar a ganhar alguma corrida. Mas o legal é que eu tinha torcedores que iam ao autódromo só para me ver correr", lembra. Há três anos sem competir por motivos de saúde, Mayara já pensa em voltar às pistas o quanto antes. "Mesmo parada tenho em casa meus carros de competição. O Grupo BK possui um Centro de Treinamento de MotoCross em Cambé, então sempre que posso, estou lá", conta.
Apaixonada por tudo que tenha motor, Mayara afirma que hoje não existe mais a separação entre "coisas de homens e coisas de mulher, essa barreira já foi quebrada". Assim, nas competições, o lugar mais fácil de encontrá-la é entre os homens, e não junto às mulheres. "Categoria só com mulher não tem graça. O legal é perceber aquela raiva que eles sentem quando eu ultrapasso", confessa. E mesmo entre os motores, ela não deixa a vaidade de lado. "Estou sempre com gloss e um par de brincos. Eu me realizo nesse ambiente, adrenalina e velocidade me fazem relaxar".


De pai para filha
Em 2007, o professor Jamil Hatti, fundador do Curso Pré- Vestibular Sigma, decidiu colocar seus filhos para administrar o colégio. Pai de um homem e duas mulheres, a expectativa para que o escolhido fosse seu único filho era grande. Porém, o cargo ficou com sua filha, Fernanda Hatti. "No início não foi fácil. Primeiro porque as pessoas que estavam no cargo eram muito competentes e sempre rola comparação. E segun­do porque era comum eu ouvir que "quem tinha que estar aqui era seu irmão". A questão é que ele nunca quis, o negócio dele é atuar nos bastidores", explica.
No entanto, esse clima durou pouco tempo. Logo que assumiu a coordenação, Fernanda mostrou a todos porque estava ali. Seu trabalho consiste em intermediar as relações entre alunos e professores, cuidar das atividades dos estudantes, do planejamento do calendário, programação peda­gógica, acompanhar a elaboração do material didático, além de fazer o marketing do curso. "Como é uma empresa familiar, todo mundo faz um pouco de tudo. Não tenho férias, hora extra, sábado e nem domingo. Eu e meus irmãos damos o sangue aqui", conta.
Além de toda essa correria, ela ainda cursa o terceiro ano de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Londrina. "Este ano, eu e meus irmãos fizemos um acordo para estipular horários. Agora fico no colégio das 13h às 22 horas. E de manhã, estudo e cuido de mim", diz.
Parece muito? Fernanda, que é casada, planeja ter filhos, quando terminar a faculdade. "O legal é que meu marido entende meu trabalho e sabe que por causa de meus horários em casa nunca tem janta", revela. "Meu plano é, aos poucos, conseguir delegar funções. A escola dá bastante trabalho, mas eu fico muito feliz em ter a vocação para administrar o que meu pai construiu".
E quanto às mulheres que pensam que conciliar trabalho e família é impossível, Fernanda dá o recado: "Esse negócio de dizer que não tem tempo para o marido, para trabalhar e se cuidar, é balela. A mulher sempre acha um tempinho para tudo. Quando ela quer, faz o trabalho até melhor que o homem", afirma.


Superação em cima da bike
Aos 8 anos de idade, a pequena Júlia Alves dos Santos teve contato com o bicicross pela primeira vez. A partir daí, não parou mais. Hoje, aos 14 anos, já participou de campeonatos paranaenses, sul-brasileiros, brasileiros e até mundiais, em que conquistou a sexta colocação na sua categoria.
Para as amigas, ela é radical. E os meninos, bem, esses apesar de gostar de assisti-la nas pistas, não ficam muito felizes ao vê-la deixar vários marmanjos para trás. "Eles tinham medo e não queriam perder para mim. Mas eu acho isso superlegal, fica até mais competitivo", diverte-se Júlia, uma das poucas meninas que praticam esse esporte na cidade. "No começo só tinha meninos. Participei de várias provas em que eu era a única menina. Há uns dois começaram a aparecer mais garotas interessadas", afirma.
Apesar do passado de vitórias e participação em grandes competições, o momento atual não está muito favorável para a garota. Sem patrocínio e com as duas pistas de treino abandonadas, Júlia enfrenta dificuldade para se manter no cenário nacional. "Os principais olheiros estão em São Paulo, e para ser vista, ela precisa participar das competições que acontecem lá. Infelizmente não temos condições de levá-la", conta a mãe, Débora dos Santos. Ela explica que os gastos totais com cada prova fora de Londrina giram em torno de R$ 1.000 a R$1.500, valor que a família arca sozinha. Além disso, Júlia precisa trocar sua bike, já bastante usada, por uma nova, o que custaria aproximadamente R$ 3.000.
Porém, apesar de todas as dificuldades, Júlia sonha alto. "Eu pretendo continuar treinando cada vez mais e ainda quero ganhar um Mundial", afirma. A mãe, que a acompanha nas provas, a incentiva. "Sempre digo a ela que bom piloto é aquele que consegue bons resultados com o que tem. As pistas da cidade estão em péssimas condições, não temos patrocínio e nem treinador. Mesmo assim, Júlia sempre se supera. Eu sei que ela chega lá", afirma Débora.

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