Sonho proibido
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quinta-feira, 15 de maio de 2003
Rosângela Vale<br>Reportagem Local 
As recentes denúncias feitas por londrinenses que tentaram entrar na Inglaterra e foram deportados, depois de terem feito dívidas ou vendido tudo o que tinham para bancar as despesas da viagem, traz à tona uma questão fundamental. Mais do que serem ludibriadas por agentes de viagem com garantias de obtenção de documentação falsa e de emprego, essas pessoas são traídas pela própria falta de informação.
''É uma ilusão. Elas acham que vão começar a trabalhar imediatamente e mandar dinheiro na primeira semana. Primeiro, é impossível dar garantias de entrada na Inglaterra. Se o departamento de imigração barrar, não tem jeito'', avisa a empresária Gabriela Costa, da Central de Intercâmbio.
De acordo com ela, grande parte desses agentes é de cidades da região de Londrina, não tem escritório e faz a divulgação boca a boca, prometendo arrumar moradia e documento que autoriza o trabalho no país. ''Na verdade, é uma carteirinha emitida para portugueses que vão trabalhar na Inglaterra. Os agentes daqui têm contato com pessoas de lá que falsificam esse documento'', denuncia Gabriela. Segundo ela, na maioria das vezes, as agências não têm nada a ver com a situação, pois apenas vendem a passagem.
Pressão A empresária explica que, ao contrário dos Estados Unidos, que emite visto por meio de seu consulado no Brasil, na Inglaterra o documento é concedido (ou negado) no momento em que a pessoa entra no país. O visto geralmente é válido para permanência de seis meses e não inclui permissão para o trabalho, a não ser no caso de programas de estudo; ainda assim, a jornada é limitada: apenas 20 horas semanais. Somente os europeus têm autorização irrestrita para trabalhar no país. Justamente por essa razão, teoricamente, é mais fácil burlar as leis na Inglaterra.
O risco, porém, é alto, como atestam os muitos que já deram com a porta na cara. ''Quando são deportadas, as pessoas são mandadas para o primeiro país que passaram antes da Inglaterra. Por isso, muitos desembarcam antes em Paris, Amsterdã ou Lisboa para permanecer na Europa e tentar entrar na Inglaterra de novo'', relata Gabriela.
Além do domínio do inglês, ter a documentação correta e a reserva do hotel são itens fundamentais para passar sem problemas pela imigração que, algumas vezes, exige até que o passageiro mostre quanto dinheiro está levando. ''É uma pressão muito grande. É difícil a pessoa ter sangue frio para conseguir mentir nessa hora, ainda mais sem dominar o idioma'', diz empresária, observando que, mesmo que a pessoa viaje realmente para estudar e tenha todos os pré-requisitos para entrar no país, não há garantia absoluta de que ela consiga o visto.
Internet O proprietário da LDB Marcos dos Santos, viaja praticamente todo ano acompanhando estudantes que se matricularam em cursos de inglês na Inglaterra. E, mesmo com todos os documentos em dia, ainda fica apreensivo na entrada do aeroporto, apesar de nunca ter tido nenhum caso de estudante deportado. ''Para algumas pessoas, eles (da imigração) fazem perguntas, para outras, não'', observa. Ser consistente nas respostas é a melhor saída. ''Hesitações podem dar margem para mais questionamentos'', avisa.
Engana-se quem pensa que os problemas acabam quando se consegue passar pela imigração. ''A maioria trabalha mais e ganha menos do que o combinado. Há casos de empregadores que acabam pagando a metade do que foi previamente estabelecido. E daí? para quem o empregado vai reclamar, já que está ilegal no país?'', alerta Gabriela. Sem falar nas constantes blitzes feitas pela polícia nos estabelecimentos para descobrir funcionários ilegais, que são deportados sem direito a nada, muitas vezes, nem mesmo a pegar a própria bagagem.
''As pessoas não fazem idéia de como é complicado trabalhar em Londres sem falar inglês. Aquela cidade é um monstro, se você não tem estudo, ela te engole mesmo'', observa Marcos, que toda semana atende três ou quatro interessados em trabalhar na Inglaterra. ''Tentamos mostrar que não é tão fácil como parece, além de perigoso'', diz ele, que vende pacotes apenas para quem deseja estudar lá.
Outro alerta feito por Gabriela é sobre os cursos vendidos na Internet. Geralmente bem mais baratos do que os oferecidos pelas agências, funcionam da seguinte forma: o interessado faz o pagamento e a escola envia uma carta de matrícula para ser apresentada na imigração. Muitas dessas escolas, entretanto, não são credenciadas pelo British Council (espécie de Ministério da Educação britânico), o que aumenta as chances de a pessoa ser deportada. n


