Os porta-retratos que enfeitam as estantes da casa de muitas avós trazem fotos da família toda. As imagens - motivo de orgulho para as matriarcas - traduzem a realidade de antigamente em que as mulheres casavam-se ainda na adolescência, tornavam-se mães cedo e tinham muitos filhos. Os modelos de família e de vida estampados nas fotografias do século passado, no entanto, mudaram drasticamente.
''A contemporaneidade trouxe consigo novas oportunidades e estilos de vida'', afirma a antropóloga Martha Ramirez Galvez, doutora em Ciências Sociais e docente da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Segundo ela, diversos fatores podem explicar as mudanças enfrentadas pela sociedade nas últimas gerações. ''Antigamente as mulheres eram preparadas para casar novas, cuidar da casa e dos filhos enquanto os homens eram os provedores do lar. Hoje existem novas formas de existência que não estão necessariamente atreladas ao núcleo familiar'', explica.
Na sociedade contemporânea, os jovens já não saem da casa dos pais somente após o casamento. E é cada vez mais comum encontrar uma pessoa que vive sozinha. As mudanças pelas quais a sociedade passou foram tantas que atualmente existe até uma data para celebrar a solteirice. O Dia do Solteiro foi comemorado esta semana, no dia 15.
Não se sabe exatamente quando esta data foi criada, mas o fato é que reflete o novo estilo de vida que boa parte da população tem adotado. ''O plano de casar e ter filhos deixou de ser prioridade e começou a acontecer mais tarde. A mulher ingressou no mercado de trabalho e passou a lutar pelos seus objetivos'', cita a antropóloga, acrescentando que ''as universidades passaram a ser mais frequentadas e o nível de profissionalização de homens e mulheres aumentou consideravelmente''.
Ela alerta, porém, que a solteirice não está relacionada necessariamente à solidão. ''Os solteiros estabelecem outros vínculos afetivos e de cuidado como as relações de amizade. Além do mais, uma maior liberdade sexual fez o casamento deixar de ser o único espaço legitimado para uma vida sexual ativa'', destaca.
De acordo com ela, essas mudanças começaram a acontecer nos anos 1960 e se consolidaram em meados de 1970, período em que as lutas feministas ganharam força, bem como movimentos sociais importantes como de negros e homoafetivos.
Aos poucos, diante de tantas transformações, um novo cenário surgiu. O último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta um crescimento do número de pessoas solteiras. O Brasil conta com quase 90 milhões de solteiros contra pouco mais de 56 milhões de casados. No Paraná, são 4.302.554 de solteiros e 3.691.762 de casados. No ano 2000, os solteiros não atingiam a marca de 76 milhões no País.
''Os números refletem a sociedade contemporânea. Trata-se de uma realidade mundial e não apenas do Brasil'', aponta Martha, destacando que a facilidade para se divorciar é outro fator que estimula a solteirice. ''Diferentemente de antes, hoje as pessoas têm independência para terminar um relacionamento infeliz'', observa.

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