Solidão amiga
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quinta-feira, 15 de setembro de 2005
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
Há uns anos os filhos geralmente saíam de casa quando se casavam ou então para estudar em outra cidade. Com as grandes mudanças na sociedade e nos núcleos familiares, essa realidade não é mais verdadeira para muitas pessoas. Vários jovens acabam ficando na casa dos pais por mais tempo que o normal, adiando o compromisso do casamento, e outros saem de casa sem ter encontrado sua alma gêmea.
A legião de solitários espalhados por aí tem aumentado nos últimos anos, principalmente nos grandes centros. Em Londrina isso fica fácil de perceber quando se vê o número de edifícios com apartamentos pequenos de um ou dois quartos. São para pessoas que por escolha própria decidem sair da casa dos pais e construir a vida não com a companhia de alguém, mas independentes no sentido mais radical da palavra.
Segundo a psicóloga Dora Lúcia Ferrarim, o aumento no número de pessoas que optam por morar sozinhas é resultado da mudança do ideal de vida. ''No passado a felicidada estava muito associada à constituição de uma família. Os pais criavam os filhos com o objetivo de que eles também se casassem e tivessem seus filhos. Hoje esse conceito tem mudado. As pessoas já acreditam que podem ser feliz também sozinhas. Antes quem ficava sozinho era visto como aquela pessoa que não deu certo com ninguém. Hoje é a pessoa independente'', explica.
Mas estar sozinho não pode ser sinônimo de solidão, diz a especialista. ''O ser humano precisa do outro. Quem mora sozinho precisa se socializar também, ter grupos de amigos, atividades de lazer, projetos. É preciso dosar as coisas. Não é saudável querer estar sozinho o tempo todo, assim como não é saudável precisar da companhia dos outros o tempo todo para ser feliz. Qualquer uma das situações é limitante. Hoje temos a opção de escolher o que queremos e mudar de opinião logo depois. Podemos querer morar sozinhos e depois resolver morar com alguém. Muitas pessoas experimentam as duas coisas'', comenta.
Como em qualquer situação, viver só tem suas vantagens e desvantagens. Para quem mora sozinho, o problema geralmente é a solidão e o risco de se tornar intolerante. ''A pessoa que mora sozinha acaba tendo dificuldade de aceitar manias e defeitos dos outros. Quer tudo da sua maneira. Para a solidão há quem opte por comprar um cão ou uma planta. Isso ajuda mas não pode ser uma fuga do real. O contato com as pessoas é importante'', lembra Dora.
E até a solidão tem seu lado bom. A psicóloga diz que ficar só é uma boa oportunidade de se auto-conhecer. ''Muitas pessoas que moram sozinhas acabam descobrindo competências que desconheciam quando moravam com os outros. Descobrem que sabem cozinhar e que gostam de determinado tipo de comida. Aprendem a pintar, a cuidar de plantas e se descobrem boas companhias para si mesmos. Isso traz crescimento interior'', completa a psicóloga.


