Sob o estigma do mal
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quinta-feira, 05 de maio de 2005
Leandro Quintanilha<br>Agência Estado 
Enquanto nos contos de fada, filmes e novelas as madrastas geralmente são megeras, na vida real elas se esforçam para salvar a reputação da categoria. Contam até com uma associação que as orienta sobre o bom convívio familiar e ajuda na inglória missão de derrubar o estereótipo da madrasta má.
Júlia, 8 anos, é filha de pais separados. E costuma apresentar a segunda mulher do pai assim: A Roberta é minha madrasta, mas ela é boazinha. A ressalva da menina faz sentido. Talvez seja culpa dos contos de fada (ou das telenovelas?), mas a acepção negativa da palavra madrasta foi incorporada até pelos dicionários. Virou sinônimo de mulher pouco carinhosa, que traz problemas e tristezas e até de mãe que maltrata os filhos. Mas Júlia tem razão: madrasta pode, sim, ser boazinha. A dela é, talvez, por ter sido enteada de uma megera na infância. Anos depois, o destino inverteu os papéis: a professora Roberta Palermo, hoje com 35 anos, se apaixonou por um homem que já tinha dois filhos. O desejo de ser uma madrasta legal foi tamanho que ela fundou a Associação Brasileira de Madrastas e Enteados (Ame) e escreveu um livro sobre o assunto, Madrasta Quando o Homem da Sua Vida já Tem Filhos (Editora Mercuryo, 96 págs.).
A entidade sempre promove encontros. Encontros de quem? De madrastas, enteados, pais e amigos. Cinderela e Branca de Neve certamente não compareceriam, mas é claro que esse tipo de iniciativa pode ser de grande ajuda para quem deseja levar uma vida harmoniosa numa família refeita. Sim, porque há muita madrasta por aí querendo ser fada-madrinha.
Ter pais separados é a primeira grande frustração de uma criança; imagine ainda se deparar com uma madrasta hostil, diz Roberta Palermo. Ela entende do assunto. Seus pais se separaram quando tinha 3 anos. Aos 13 recebeu com otimismo a notícia de que o pai se casaria novamente. Mas a madrasta tinha ciúme da relação dele com a filha. Ela fazia de tudo para nos afastar. Quando ficou grávida, a madrasta transformou o quarto da menina no do bebê. Para mim, só restou um colchãozinho.
Depois da morte do pai, Roberta perdeu o contato com a madrasta. Há nove anos, assim que se deu conta de que também seria madrasta, começou a pesquisar sobre o assunto. O futuro marido, Márcio, tinha dois filhos e não queria mais nenhum. No começo, fiquei em estado de alerta, lembra. Mas o alarme passou; o marido até mudou de idéia: há três anos, tiveram Pedro e a família ficou completa. Hoje, Roberta considera-se uma madrasta boa e feliz.
No Orkut, a rede virtual de relacionamentos, há comunidades tanto para quem ama a madrasta quanto para quem detesta a nova mulher do pai. Em Eu Odeio a Minha Madrasta, com 136 integrantes, os internautas trocam experiências sobre o convívio com essas criaturas impertinentes, em tópicos de discussão como Quero me vingar, Bicho ruim e A vaca está grávida. Em contrapartida, há a comunidade Eu Amo a Minha Madrasta, com 61 pessoas, em que se discutem temas como Pode ser maravilhoso e Sou mimado pela minha madrasta.
Distância A arquiteta Stella Rodrigues, 30 anos, é uma participante ativa da comunidade dos que odeiam suas madrastas. Ela tinha 13 anos quando os pais se separaram e 22 quando o pai conheceu a atual mulher. Não gostei dela logo de cara. Não gostou, mas jura que tentou manter uma relação cordial com a madrasta. Até que... Ela mandou um e-mail agressivo para a minha mãe, que sempre foi amiga do meu pai. Na mensagem, segundo Stella, havia a advertência: Não pise na grama. Mas o que mais incomoda a enteada é o fato de o pai ter se distanciado. Há dois anos, ele se mudou para Belo Horizonte com a mulher.
Para a psicóloga Maria Rita DAngelo Seixas, coordenadora do curso de Terapia Familiar da Unifesp, a postura do pai é fundamental para uma boa relação entre madrasta e enteados. Ele tem de garantir aos filhos que a nova relação não vai prejudicar o amor que sente por eles. A condição de madrasta também requer jogo de cintura. A melhor dica é colocar-se no lugar da criança e perceber quais são os seus medos: perder o amor do pai e trair o da mãe.
Na casa dos Souza Santos, deu tudo muito certo. Magnólia, 46 anos, era amiga da família antes de virar madrasta de Felipe, 26, Lucas, 21, e Matheus, 19. Quando tudo aconteceu (há três anos), a gente já gostava dela, diz o enteado do meio. É uma pessoa com quem adoro conversar, elogia Felipe. Magnólia também adora. É muito gostoso esse contato com os meninos; fico atualizada sobre cinema, internet... Ela virou confidente dos rapazes: Sabe que às vezes fico sabendo dos namoros deles antes que o pai?


