Desde a revolução sexual, na década de 60, apoiada pela chegada da pílula anticoncepcional no mercado, o sexo não só deixou de ser tabu como passou a ser estimulado de todas as formas possíveis. Nem mesmo a Aids conseguiu refrear a busca por novos parceiros; só popularizou o uso da camisinha. A globalização, através da mídia, transformou o sexo num produto de consumo cada vez mais precoce. Estatísticas apontam que a iniciação sexual, que na época da propagada revolução do amor livre era no final da adolescência, é marco de entrada da puberdade.
Diante desse cenário, falar de virgindade, especialmente a masculina é, no mínimo, coisa de outro mundo. Mas ela existe e, apesar de tímida, tem aumentado sua legião de seguidores, todos eles guiados por orientação religiosa. É o caso de cinco rapazes ouvidos pela Folha da Sexta, que não têm receio de assumir essa opção.
''Não somos diferentes, mas preservamos valores perdidos pela sociedade porque acreditamos nas Escrituras'', afirma o bancário Paulo Sérgio de Jesus, 26 anos, que pertence à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (Mórmons). A virgindade, que ele prefere chamar de castidade, é uma opção sagrada e não uma exigência religiosa. ''Eu nunca 'conheci' uma mulher''
garante Paulo, que acredita no ato sexual como um complemento do casamento para a constituição de uma família feliz.
''Deus abençoará a minha vida conjugal pela opção que fiz'', completa o estudante Vagner Teles da Silva, 21 anos, que lidera um grupo de adolescentes na Igreja Nova Aliança. Para ele a liberação sexual da juventude, além de ser uma inversão de valores estimulada pela mídia, não traz felicidade. ''Eles estão sempre querendo mais e mais''.
A insatisfação da juventude apontada por Vagner coincide com a opinião do biólogo Leandro Godoy, 26 anos, católico, que integra um grupo de jovens do movimento da Renovação Caristmática Católica (RCC). Pelos testemunhos que já ouviu de muitos jovens durante os encontros promovidos pelo movimento, Leandro acredita que a vida sexual ativa não preenche os anseios dessa juventude liberal, além de lhes causar muito sofrimento. ''O sexo é um ato maravilhoso, feito por Deus, então se faz sofrer ele não está sendo feito no momento correto'' presume.
Leandro destaca que não pode ser considerado virgem pois teve uma pequena experiência sexual aos 17 anos. Com 18 anos, desde que entrou para o movimento, ele optou pela abstinência sexual, pois: ''Deus nos pede que esperemos um pouco mais''. Ele não nega que é uma opção difícil e que é preciso muita fé para suportar os apelos do corpo. ''Deus não nos dá tentação maior da que podemos suportar'', resume.
Para o técnico em informática Moacir Leandro Camillo, 23 anos, ''fazer sexo é fácil, difícil é não fazê-lo''. Ele também é católico e integra a RCC e conta que, pela formação cristã que recebeu de sua família, sempre cultivou o pensamento de preservar a virgindade. Quando começou a namorar, há quatro anos, sua namorada reforçou a opção. Com as atividades que desempenham juntos na Igreja, ele diz que não sobra tempo para se sentir tentado. Ele entende que ''o sexo é uma experiência a mais no casamento. Muitos relacionamentos acabam por não terem mais o que conhecer''.
Já o assistente de compras Maicon Putti, 26 anos, revela que há cerca de 60 dias, desde que se casou, está tendo contato com o sexo mas garante que ter se preservado pela santidade do casamento ''está valendo como ouro''. Ele também é da Igreja Nova Aliança, e entende que prática do sexo fora casamento seja responsável pela deturpação da vida conjugal que ocorre em alguns segmentos da sociedade. ''Falta a valorização da família, falta Deus no meio delas, Ele é a base para se vencer as tentações do mundo''.
Além do suporte religioso, esses jovens encontram apoio na família para a sustentação da escolha. Vagner conta que seu pai, ao contrário de muitos outros, é seu grande incentivador. ''Ele experimentou de tudo antes de conhecer minha mãe, e garante que não valeu a pena''. Para a mãe, a dona de casa Marinalva Damião Cruz da Silva, 39 anos, os pais têm uma parcela de culpa na liberação sexual dos filhos. ''Com a falsa idéia de protegê-los, muitos permitem que essas experiências aconteçam em suas casas'', opina. Para Vagner, os pais precisam entender que quando estimulam a ''iniciação sexual'' dos filhos, eles têm também responsabilidades pelas consequuências desse ato, como por exemplo, uma gravidez indesejada, crianças abandonadas, contágio por doenças sexualmente transmissíveis.
A convicção por se manter virgens, segundo esses moços, não os coloca como motivo de deboche para outros. ''Estamos tão além dos hábitos desse mundo, que o que provocamos na verdade são surpresa e admiração'', resume Leandro Godoy. Vagner completa dizendo que é respeitado não só na Igreja, mas por todos que conhecem sua opção, há até quem o procure para aconselhamento.
Eles também não têm medo de uma frustração sexual causada pela inexperiência: ''Não há problema que o diálogo não resolva'', tranquiliza Paulo Sérgio. ''O sexo completa, mas não é tudo em um casamento'', conclui Moacir Leandro.
Para esses jovens, a Palavra de Deus ainda vai ser capaz de devolver os valores que a sociedade perdeu e que podem tornar as pessoas mais felizes. Inclusive sexualmente. n
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