Cigarro, falta de exercícios físicos, predisposição genética, excesso de peso e má alimentação são os principais motivos para o surgimento de doenças do coração, segundo os médicos. No entanto, um fator a mais tem modificado essa opinião e colocado uma outra causa para os ataques cardíacos: os problemas emocionais.
Esse foi o tema de uma palestra do 9º Congresso Sul-Brasileiro de Cardiologia, que aconteceu na última semana em Londrina. A psicóloga Bellkiss Wilma Romano, diretora do Serviço de Psicologia do Hospital das Clínicas de São Paulo, esteve na cidade para falar sobre a chamada Síndrome do Coração Partido, ou Síndrome Takatsub. ''Ainda existem poucos estudos sobre esse assunto, mas alguns casos levam a crer que essa síndrome realmente existe''.
Segundo ela, a doença foi diagnosticada em 1990 e tem maior incidência em mulheres acima de 70 anos, cerca de 96% dos casos contra apenas 4% de pacientes homens. ''Outro dado curioso é que a maioria das mulheres que apresentam o problema são de origem oriental. Mas essa questão racial que ainda não foi analisada'', observa. O mais surpreendente é que as doenças podem atingir um grau sério e levar o paciente à morte.
''Já sabemos que as substâncias liberadas pelo organismo durante momentos de estresse facilitam o acúmulo de gordura nas veias, podendo causar problemas cardíacos. Também foi constatado que em algumas mulheres, quando muito nervosas, o coração assume a forma de um coração com insuficiência cardíaca sem que as pacientes tenham a doença. Assim que o nervosismo acaba, o coração volta ao tamanho e formato naturais'', garante.
Geralmente, a Síndrome do Coração Partido aparece depois de algum evento muito estressante, como a separação do marido ou perda de algum ente querido. ''Embora seja o cérebro que controla as emoções, elas se refletem no coração. Pessoas que passaram por episódios de perda ou frustração muito grandes podem desenvolver doenças cardíacas'', comenta.
Para evitar que as emoções sejam vilãs nesse processo, a psicóloga diz que é preciso saber lidar com o estresse. ''Antigamente, desde pequenas as mulheres eram educadas para tarefas que iriam realizar na vida adulta, como cuidar da casa e dos filhos. Depois que começaram a assumir outras funções, dividindo com o marido ou até se responsabilazando pelo sustento da família, elas entraram em outro nível de estresse. Essas mudanças contribuiram para o aumento de casos cardíacos em mulheres, além do fato de elas viverem mais hoje.
De acordo com a especialista, além de ser provocadoras de doenças do coração, as emoções também comprometem o tratamento de pacientes que passaram por cirurgias de transplante ou foram dignosticadas como cardiopatas. ''Depois desses eventos, o paciente costuma apresentar problemas psicológicos. Do total de pessoas que passaram por transplantes, 30% irão apresentar depressão em um ano após a cirurgia se não tiverem acompanhamento psicológico'', lembra Bellkiss.
A idéia de que a vida acaba quando se detecta um problema no coração é também responsável pelos transtornos da mesma forma que a mudança de hábitos necessária para melhorar a saúde também influencia. ''Não poder comer o que se gosta, ter que parar de fumar, ficar incapacitado para o trabalho. Tudo isso acaba afastando o paciente da família e dos amigos e diminuindo a auto-estima. Geralmente, ele se torna instrospectivo e as pessoas ao redor não sabem como lidar com a mudança de comportamento'', diz.
Para ajudar esses pacientes e seus familiares a lidarem com os tratamentos e as doenças, a psicóloga realiza um trabalho desde 1985 no HC em São Paulo. ''O mais importante é fazer a pessoa valorizar a vida, mesmo que esteja com uma doença grave, e conscientizar os parentes das alterações na rotina familiar, como reeducação alimentar e outras atividades do dia-a-dia, além da aceitação do doente. O acompanhamento psicológico é muito importante para o sucesso do tratamento para qualquer caso'', garante.

mockup