Se o ano só começa mesmo depois do Carnaval, o que acontece antes? As festas acabaram e as metas sonhadas para o novo ano ainda parecem distantes demais. Em janeiro, quem não tira férias volta para a velha rotina. Nada mudou, a não ser o ritmo. O dia-a-dia se arrasta e as pessoas sofrem uma espécie de Síndrome de Janeiro. Preguiça, tédio e desânimo são sintomas comuns na maioria das pessoas.
O psicólogo Eduardo Laffitte explica que se trata de uma espécie de ressaca da euforia vivida nas festas de final de ano. Depois de tantas emoções compartilhadas, chega segunda-feira e tudo se acaba. ‘‘As pessoas se perguntam: E agora? O que mudou realmente? Para completar, isso acontece no verão. Dá a impressão que todo mundo está feliz, menos a gente’’, explica.
Na opinião do neuropsiquiatra Joaquim Monte, este é o melhor período para tirar férias, pois janeiro é tempo de arrumar as gavetas, jogar papéis fora e se livrar do peso do ano que passou. ‘‘Esse tempo é importante para amadurecer as mudanças que precisamos fazer no ano que começa e descansar, para começar o ano renovados’’, recomenda. Quem não pode tirar férias nessa época, precisa compensar nos finais de semana e administrar melhor o tempo para ter mais momentos de lazer e qualidade de vida. Quem gastou demais no Natal tem um fator a mais pesando no desânimo. ‘‘É deprimente trabalhar para pagar contas, ganhar um dinheiro que já foi gasto’’, diz.
Para quem está se sentindo assim, a dica é refletir sobre a vida e o que precisa ser modificado. ‘‘A gente vai construindo o ano no decorrer dele. É preciso entrar em contato consigo mesmo. Avaliar desejos e metas. As mudanças não acontecem de fora para dentro. Tem que começar em voc꒒, recomenda Eduardo Laffitte. O psicólogo cita o exemplo de quem quer ganhar na loteria , mas nunca joga.
A Síndrome de Janeiro afeta também a produtividade das empresas. Laffitte está escrevendo um livro exatamente sobre a importância de as empresas reconhecerem comportamentos como esse e compreenderem que este pode ser um momento positivo para mudanças de atitude. Quando o desânimo toma conta, é também quando as pessoas estão mais ávidas para que o ano que começa seja diferente, muito melhor. ‘‘O relacionamento das pessoas e organizações na virada do século está mudando muito. Na produtividade, qualidade do serviço e atendimento ao cliente, é necessário ter compreensão e ação participativa’’, explica. Ele diz ainda que as empresas devem estimular mudanças de atitude com treinamento. O ânimo pode ser aprendido.
O publicitário Luciano Lisboa, 29 anos, começou janeiro desplugado. Mesmo fazendo vestibular para dar uma reviravolta no ano novo, diz que está tendo dificuldades para se concentrar. ‘‘Acho que o ano vai começar de verdade em março. É um ciclo natural. Não tem muito trabalho e todo mundo está se sentindo assim’’, conta. Mas como ele já começa o ano cumprindo uma de suas metas, que era fazer vestibular para mudar de área de atuação, Luciano diz que ainda não foi pêgo pela depressão. ‘‘Isso só vai acontecer se eu não passar’’, conclui.

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