Simples e direta
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quinta-feira, 20 de maio de 2004
Rosângela Vale<br>Reportagem Local 
Decifrar uma bula de remédio não é das tarefas mais simples. Os termos excessivamente técnicos acabam comprometendo a compreensão do texto até mesmo entre as pessoas com maior grau de instrução. E as letras miúdas dificultam a vida de quem mais tende a precisar dos medicamentos: os idosos. Para resolver essa questão, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) modificou as regras para a confecção das bulas. Agora, elas devem ter letras maiores e linguagem simples, ou seja, acessíveis ao cidadão com nível médio de conhecimento.
De acordo com o médico José Luis de Oliveira Camargo, membro do Conselho Regional de Medicina do Paraná, presidente indicado do Sindicato dos Médicos do Norte do Paraná e professor adjunto de ginecologia e obstetrícia da UEL, a bula atual é ''uma faca de dois gumes''. Ao mesmo tempo que traz referências absolutamente necessárias para que o paciente compreenda o que está usando, apresenta outras excessivamente técnicas, inacessíveis ao nível de compreensão da pessoa comum. ''Realmente havia necessidade de modificar a forma de apresentação do medicamento. A bula tem que ser acessível a quem usa o remédio, mesmo porque faz parte do seu invólucro. É dirigida ao usuário, portanto, tem que ser entendida por ele'', diz.
Lista padrão Mas nem todos os remédios terão as bulas simplificadas. Só aqueles incluídos na lista de medicamentos padrão, especificada pela Anvisa. De acordo com o fiscal da Vigilância Sanitária de Londrina, Rogério Lampe, a lista conta atualmente com cerca de 256 produtos que, pela lei, já devem estar no mercado com a bula modificada. O fiscal informa ainda que os laboratórios não incluídos que quiserem fazer parte do programa devem entrar em contato com a Anvisa. A partir de então, terão 180 dias para adequar o texto às normas vigentes.
Lampe acredita que essa adequação será uma consequência natural. ''O medicamento que tiver a bula popular vai atrair mais interesse do consumidor'', justifica. A vigilância sanitária fará vistorias regulares às farmácias para verificar se os medicamentos da lista estão em conformidade com a nova lei.
Automedicação Ao contrário do que se possa imaginar, os termos excessivamente técnicos usados nas bulas nunca tiveram como alvo a classe médica. As informações sobre medicamentos, segundo José Luis, são obtidas ''por meio de atualizações, frequência em cursos especializados, em congressos, lendo e praticando a leitura científica. O médico que vai atrás de bula para prescrever remédio é, em tese, desinformado, despreparado'', critica.
Segundo ele, a ampla utilização de remédios sem receita médica foi uma das razões que levaram a Anvisa a perceber a necessidade de uma bula simplificada e objetiva, escrita de tal forma que uma pessoa comum possa entender quais são os benefícios que o remédio traz e, principalmente, quais são os riscos decorrentes de seu uso inadequado.
A bula simplificada deve atender também à demanda por informações básicas sobre os medicamentos recentemente liberados para a venda sem receita médica (são, ao todo, 37 grupos terapêuticos, incluindo antinflamatórios, anti-histamínicos, antiparasitários, analgésicos, descongestionantes nasais, lubrificantes oculares, laxantes e relaxantes musculares).
De Acordo com Piero Rapazzini, vice-presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Medicamentos Isentos de Prescrição (Abimip), o uso responsável desses remédios é uma prática reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e adotada em países como EUA, Canadá, Japão e os da União Européia. Porém, há sempre a indicação de que, não desaparecendo os sintomas após o período determinado de tratamento, um médico deverá ser consultado. ''O uso de medicamentos isentos de prescrição é hoje aceito como parte integrante do sistema de saúde e contribui para que o indivíduo assuma a responsabilidade de cuidar de sua própria saúde. Quando praticado corretamente e de forma responsável, pode também contribuir para aliviar financeiramente os sistemas de saúde pública'', defende.
Riscos José Luis explica que a nova bula trará o mínimo de informações que o leigo tem necessidade de saber. ''É evidente que o nível de instrução das pessoas não é uniforme. Então fica muito difícil definir a maneira de escrever ou de redigir. Por isso, as informações são dirigidas às pessoas com nível de conhecimento médio para que os riscos sejam os menores possíveis'', observa.
Ainda assim, o médico insiste que a utilização do remédio é uma circunstância relacionada à presença de uma patologia ou de uma necessidade deferida pelo médico. ''Se o paciente teve uma boa anamnese, um bom exame, o médico detecta as situações em que o remédio não pode ser utilizado. Quando o medicamento é usado de uma outra forma, numa procura espontânea, de balcão, existe o risco da tomada em dosagem errada, excessiva, insuficiente ou simultânea com outros remédios, trazendo efeitos colaterais'', avisa.
Sobre o anticoncepcional, um dos medicamentos mais vendidos sem receita médica, José Luis diz que o índice de complicações relacionadas à utilização inadequada é muito grande. ''É um medicamento de componente hormonal e, por isso, interfere em algumas etapas da fisiologia feminina'', informa. De acordo com ele, cada mulher tem as suas particularidades orgânicas, que precisam ser conhecidas para que se indique a medicação ideal, evitando, assim, intercorrências das mais diversas ordens.


