Entre os preparativos para a promissora noitada, um pequenino pacote de papel alumínio tem lugar garantido na carteira. Dentro dele, uma pílula azul em formato de losango. Sem sofrer de problemas de ereção, há rapazes de classe média que se tornam dependentes psicológicos de Viagra para manter relações sexuais. Eles se automedicam para ter experiências que se transformam depois em histórias capazes de impressionar os amigos.
Faz oito meses que o engenheiro civil Ricardo (o nome é fictício para preservar a identidade do rapaz), de 26 anos, não toma mais Viagra toda vez que vai manter uma relação sexual. As histórias repletas de vantagens, tradicionalmente compartilhadas entre homens, foram o estopim para que Ricardo tivesse a idéia de usar o medicamento por conta própria quando tinha 24 anos. ''Coisa de moleque'', confessa.
''Sempre um dos meus amigos contava ter saído com uma garota e mantido quatro ou cinco relações na mesma noite. Por que eu não conseguia mais do que duas?'' Na carteira, cuidadosamente embrulhado em papel alumínio, Ricardo passou a carregar um comprimido de Viagra. ''Era só tirar do bolso, como a gente faz com preservativo. Era automático, estava viciado.''
O que começou como molecagem acabou se transformando em dependência psicológica. Só com dois anos de psicoterapia Ricardo conseguiu se livrar do remédio. ''Aprendi que a qualidade da relação sexual é mais importante do que quantidade numa noite.''
Automedicação Apesar de não haver estatísticas sobre uso de Viagra sem indicação médica, o problema já é conhecido por especialistas em saúde masculina. ''Só o tempo dirá se há prejuízo orgânico em jovens que usam Viagra'', ressalta o psiquiatra Moacir Costa, coordenador da Comissão de Sexualidade do Departamento de Andrologia da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). ''Mas toda dependência é nefasta.''
Há cinco anos no mercado, o Viagra é um medicamento seguro e eficiente, indicado para o tratamento de disfunção erétil perda da capacidade de ereção que atinge os homens com mais de 40 anos. Foi o primeiro remédio de uso oral capaz de tratar impotência. ''O jovem dependente de Viagra faz mau uso de algo bom'', diz Ênio Brito Pinto, psicólogo do Instituto Gestalt de São Paulo.
Desde que o Viagra chegou ao Brasil, em junho de 1998, a Pfizer (laboratório fabricante) insiste que o medicamento deve ser usado sob prescrição médica. ''A marca de nossas campanhas é recomendar que o homem com problemas de ereção fale com seu médico'', reforça Valdair Pinto, diretor médico da Pfizer. Nas farmácias, não é preciso apresentar receita médica para comprar Viagra, mas a automedicação é condenada pelos médicos.
Sem vínculos Para o urologista Celso Gromatzky, do Hospital das Clínicas, o risco de o jovem usar Viagra por conta própria é ele restringir o foco da relação sexual para o pênis e o remédio. ''Ele passa a acreditar que só terá boa relação se tomar o remédio.''
Fica de lado, para o jovem dependente de Viagra, a construção de vínculos emocionais com a parceira. ''A preocupação é apenas mostrar desempenho para ela, não estabelecer um relacionamento amoroso'', conta Moacir Costa, que já tratou com psicoterapia jovens dependentes de Viagra. Segundo ele, é normal os rapazes buscarem algo que aumente a força. ''Na sexualidade, não é diferente. A ditadura do desempenho torna-se obsessiva.''
Tímido, Pedro (nome fictício), de 22 anos, deixou-se influenciar pelas vantagens que os amigos contavam. Aos 19 anos, para conseguir aumentar sua potência sexual, ele passou a tomar Viagra. Foi depois de usar o remédio que, numa só noite, Pedro e sua namorada mantiveram seis relações sexuais. A intensidade foi tanta que ambos machucaram os órgãos genitais.
Ao contar a experiência dessa noite para o pai, Pedro encontrou um companheiro que o ajudou a procurar ajuda profissional. Três meses de psicoterapia foram suficientes para o rapaz voltar a desfrutar de sua vida sexual, dessa vez, sem Viagra.
Como Ricardo, a dependência de Viagra começou com a vontade de ter experiências sexuais que impressionassem o grupo de amigos. Pedro nunca sofreu de disfunção erétil. Era apenas mais introvertido do que seus colegas. n

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