Sexo no casamento
Mario CesarSexo no casamentoO metro quadrado mais difícil de se conquistar é aquele restrito a quatro paredes
Francelino França
Texto e produção
Quando, sexualmente, o casal não está nenhuma Brastemp, e a relação se transforma numa geleira, a ponta deste imenso iceberg, sem dúvida, é a falta de diálogo. Sexo é comunicação, inclusive a verbal. Olha, eu não estou legal, é um desabafo direto e objetivo, difícil de ecoar entre quatro paredes.
Desde os tempos da revolução sexual, quando faixas feministas bradavam Faça amor e não faça guerra, até hoje, em que o fantasma da Aids ronda camas tradicionais e redondas, o comportamento mudou consideravelmente.
Cesar AugustoNos domínios da cama, o casal pode chegar às nuvens ou se afundar num pântanoMas os descompassos na cama podem ser mais resistentes que muitos vírus. A psicóloga clínica Lucianne Fernandes, que atua há 11 anos como terapeuta sexual, constata em seu consultório como é penoso para o casal transpor as barreiras da incomunicabilidade sexual e vislumbrar uma luz no fim do túnel. Segundo pesquisas norte-americanas, o homem demora de três a oito anos para recorrer a um especialista, quando está flagelado pelos problemas afetivos e sexuais. Nesse período, o casal vivencia a mais profunda angústia, depressão e indiferença. Sufoca com o silêncio as inesquecíveis noites de amor, desejo e tesão. Lucianne observa que o comportamento mais comum é atribuir a culpa ao outro, sendo que a relação sexual depende dos dois. Após entrar em contato com os temores mais íntimos e abrandar o sofrimento mútuo, o casal se transforma, volta a namorar. A seguir, leia a entrevista que a especialista Lucianne Fernandes concedeu à Folha da Sexta sobre as possibilidades de reencontrar na cama só love, só love.
Folha O casal inclui o prazer nos projetos do casamento?
Lucianne Quando o casal resolve juntar as escovas de dentes, e é estruturado emocionalmente, tem mais chances de estar bem sexualmente.
Folha O que acontece ao casal que apresenta problemas na cama?
Lucianne Se a sexualidade vai mal, a comunicação entre o casal também vai. A falta de comunicação desencadeia um processo de angústia, ansiedade e depressão. Sexo é comunicação, inclusive a verbal. Nesse contexto, a frequência das relações diminui, o medo da rejeição e de não se sentir amado aparece. A mulher é mais ligada à afetividade, tem necessidade de se sentir amada, para ser completada dentro da sexualidade. Ela ainda está descobrindo sua sexualidade. O homem, devido à formação cultural, age por impulso, que é bem mais definido. A mulher tem aventura extraconjugal quando se liga afetivamente.
Folha A sexualidade problemática pode derrubar uma relação?
Cesar AugustoQuando o casal resolve investir no relacionamento, é porque vê uma luz no fim do túnel, afirma a psicóloga Lucianne FernandesLucianne Sim. Porque os parceiros começam a fantasiar, o que nem sempre representa a realidade. É difícil um parceiro convencer o outro com esse discurso eu te amo, mas não faço amor contigo.
Folha A sexualidade plena pode segurar uma relação, mesmo que em outros aspectos do casamento as coisas não estejam boas (financeiramente, desnível cultural)?
Lucianne Se o casal estiver bem afetiva e sexualmente, com certeza vai dar conta da relação. Os dois juntos podem superar tudo.
Folha Como tudo na vida, a sexualidade apresenta fases. Que tipos de fases um casal enfrenta ao longo de um casamento?
Lucianne A primeira é a identificação, a fase da paixão, quando são feitas as descobertas e a frequência das relações sexuais é maior. A paixão vai se transformando em amor, dando lugar ao amadurecimento gradativo. Quando o casal se entrosou, há um momento de tranquilidade no relacionamento sexual. Na terceira idade, há diminuição na frequência das relações. Esse é um momento do amor calmo.
Folha O que fazer quando mudam os interesses sexuais de um dos parceiros?
Lucianne Em primeiro lugar é rever em si e no outro o que houve. Só será possível encontrar uma solução se o casal sentar, pensar e falar sobre o assunto. É muito comum um dos parceiros pensar espero que você adivinhe o que estou sentindo. Há grande possibilidade de o casamento dar certo quando eles voltam a investir na relação. Buscar ajuda pode levar anos porque esse é um outro nível de dor.
Folha Quais são as principais disfunções masculinas que interferem no relacionamento?
O diálogo entre o casal é fundamental para uma vida sexual plenaLucianne Disfunção erétil ou impotência, que é a incapacidade do homem em ter ou manter ereção. A outra é a ejaculação precoce, quando o homem ejacula antes da introdução do pênis na vagina ou logo em seguida, não levando sua parceira ao orgasmo.
Folha Quais são as principais disfunções femininas?
Lucianne Na mulher, as disfunções mais comuns são a frigidez, ou disfunção sexual geral, a anorgasmia (ausência total de orgasmo) e dispaurenia (dor na relação sexual). Uma mulher que apresenta um disfunção sexual geral não tem desejo, consequentemente, não fica excitada, não possui orgasmo e nem relaxamento. Na anorgasmia, ela apresenta desejo, mas não tem orgasmo. Essa disfunção é a mais comum. Quando o casal está mal num desses aspectos é imprescindível procurar um especialista. Hoje é mais fácil identificar e sanar os problemas orgânicos com uma equipe multidisciplinar que envolve ginecologista, urologista, cirurgião vascular, psicólogo e psicoterapeuta. Se aparecer um problema e a pessoa não souber para onde ir, procurar um desses especialistas já é um começo.
Folha Quais são os problemas psicológicos mais comuns no relacionamento a dois?
Lucianne Tanto para o homem como para a mulher, o principal problema é a ansiedade no desempenho sexual. Isso é tão grave que leva a angústia, a depressão, a perda da auto-estima e ao desinteresse geral pelas pessoas. Funciona assim: um dia a relação sexual deu errada, na relação seguinte eles vão para a cama angustiados, tensos e com medo de falhar. Isso se transforma numa bola de neve.
Folha Nesses tempos em que se fala muito sobre sexo, isso não vem contribuir para que os fantasmas apareçam com mais força?
Lucianne A informação sobre sexo ainda é muito fragmentada. Existe muito estímulo informativo e pouca informação sobre sexo.
Folha Quais os tipos de cobranças mais comuns hoje para o homem e a mulher?
Lucianne Eles acabam pensando da seguinte forma: se você não me entende, como eu vou entendê-lo, eu não sei o que você quer? O casal acaba projetando e transferindo a culpa para o outro.
Folha É comum um dos parceiros, ou o casal, negar que está com problemas?
Lucianne Para o homem é muito difícil falar sobre a sexualidade. Quando ele identifica o problema pode levar de 3 a 8 anos para procurar ajuda, quando a angústia já tomou conta de tudo. A mulher vai ao ginecologista uma vez ao ano, está mais acostumada a solicitar ajuda.
Folha Quando é que eles resolvem procurar um especialista?
Lucianne Existe a demora porque o medo de pedir ajuda é fruto da própria condição sexual. Ter de tomar contato com os temores físicos e psicológicos é complicado. Precisamos dar conta das limitações todos os dias e isso não é fácil.
Folha Quando o casal consegue superar esses problemas que afetam a relação, como prossegue a vida sexual?
Lucianne Eles passam a namorar novamente, resgatam a paixão, o afeto. O retorno ao namoro é visível. Poder falar sobre os problemas alivia, o casal precisa permitir a redescoberta da relação a dois.
Folha A falta de desejo sexual pelo parceiro, depois de muitos anos de relação, pode ser revertida?
Lucianne Pode ser revertida quando existe afeto, um busca ajudar o outro. No momento em que eles procuram um especialista estão apostando na relação. O terapeuta vai permitir que o casal se veja.
Folha Quais são as maiores reclamações que você ouve?
Lucianne A principal é a de não ser percebido pelo outro. Se ela está gelada, por exemplo, ele pode estar contribuindo para isso.
Folha Esse descompasso na cama não incentiva os relacionamentos extraconjugais?
Lucianne Não necessariamente. O que leva a buscar um relacionamento fora, é um descompasso interpessoal e não somente sexual. Não se pode ter medo de falar para o objeto de amor aquilo que se sente. Vida afetiva é companheirismo.
Ficha técnica:
Fotos: Cesar Augusto
Produção: Francelino França
Modelos: Fernanda Guerra e João Batista Candido Gomes
Agradecimentos: Movelaria Franco, Seda Cáustica (lingerie), Hering Store (underwear)





