Sexo e gravidez
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de agosto de 2001
Cleide Cavalcante<BR>Agência Estado 
Queixa frequente nos consultórios médicos, a queda da libido durante o período de gravidez é um assunto mais sério do que se imagina. Segundo os especialistas, a grande maioria das gestantes passa pelo problema, que pode ser desencadeado por uma série de razões, físicas e emocionais. E não só as mulheres sofrem com esta mudança de comportamento é também significativo o número de homens que enfrentam a diminuição do entusiasmo sexual nesta fase, seja por parte da esposa ou dele próprio.
Dúvidas e crenças equivocadas em torno do comportamento sexual existem há milhares de anos. Algumas sociedades, por exemplo, defendiam a teoria de que o sêmen tinha o poder de matar o feto por afogamento ou até cegá-lo. Os persas eram mais radicais; casais que mantinham relações sexuais durante a gravidez eram condenados à morte. Em contrapartida, na Índia, a regra que valia era a de que o sêmen tinha a função de alimentar o feto.
Mitos Porém, não se deve achar que esses mitos do passado eram padrão típico de sociedades pouco evoluídas. Ainda hoje, entre culturas avançadas, especialistas atestam questionamentos de nível semelhante. Muitos pais, simplesmente, abstêm-se do sexo por achar que a penetração pode machucar o bebê. Outros, por uma questão mais ligada ao emocional, param com as relações por associar a imagem da esposa com o aspecto sagrado da maternidade.
Independentemente do motivo que leva o casal a comprometer a qualidade de suas relações sexuais, os médicos recomendam acompanhamento especializado. ''A gestação pode trazer ou agravar problemas já existentes. Quando surge algum padrão de comportamento diferente nesse período, é necessário tomar muito cuidado, pois a situação pode perdurar mais tempo do que se imagina'', explica a psiquiatra Carmita Abdo, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Projeto de Sexualidade (ProSex), que funciona no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Atendimento gratuito No ProSex, uma equipe multidisciplinar, formada por ginecologistas, urologistas, psicólogos, psiquiatras e terapeutas ocupacionais presta atendimento aos casais com reclamações ou questionamentos envolvendo a intimidade. ''O primeiro passo é detectar se a disfunção é de ordem física ou psicológica para que se possa indicar o tratamento mais adequado'', frisa a médica. ''Há casos em que se verifica um misto de problemas englobando estes dois aspectos''. Os pais, segundo a médica, devem ter consciência de que a gravidez é uma fase transitória que acarreta grandes mudanças físicas e hormonais no organismo da mulher. O que traz resultados diretos na vida conjugal.
E não é raro ocorrer de a gestante sentir necessidade de um tempo para assimilar seu novo papel, o de mãe, e ainda todas as alterações hormonais que logo têm início. ''Em certos casos, a mulher demora um pouco mais para se adaptar a essa nova identidade, de mãe e esposa, concentrando toda sua energia nesse processo. Somando-se a isso um eventual sentimento de ciúme por parte do marido, o resultado é o distanciamento do casal e a perda do desejo sexual'', ressalta Carmita.
Mais gorda Por volta dos seis, sete meses de gravidez, a mulher se depara com uma outra realidade que pode se transformar numa barreira à entrega na relação: seu corpo está com novo contorno, suas formas arredondadas evidenciam contundentemente a presença do bebê. ''Ela pode começar a sentir-se feia, achar que seu corpo está deformado e, junto com a questão hormonal, a futura mãe se vê diante de fatores impeditivos para o sexo.'' A psiquiatra comenta que muitos maridos realmente perdem o apetite sexual por este motivo. Afinal, ''mais gorda'' ela deixa de despertar interesse.
Claro que esse quadro não é regra, a situação pode ser inversamente contrária. ''No ProSex tenho recebido casos de mulheres que vêem seu comportamento sexual mudar completamente durante a gestação, que sentem vontade redobrada de ter uma vida sexualmente mais ativa. O sexo e o prazer ganham outra dimensão, pois esta mulher está mais centrada e segura. Há também os homens que acham que a mulher fica mais sexy durante o período gravídico''. Para Carmita, a gravidez está diretamente associada à sexualidade. E o sexo é permitido, sim, durante praticamente toda a gestação. A não ser quando a gravidez é acompanhada de alguma patologia que coloca em risco a saúde da mãe ou do feto. Situações nas quais os médicos costumam recomendar repouso.n


