Com todas as mudanças de valores na sociedade deste final de século, uma instituição, em particular, ganha ares de fênix. Agonizante, o casamento tradicional está dando lugar a outras formas de relacionamento. Não poderia ser diferente, depois da revolução sexual, da emancipação feminina e da tão festejada (mas ainda não concretizada) igualdade entre os sexos. Teoricamente, as uniões se tornaram mais legítimas, já que agora estão baseadas em sentimentos e afinidades e não mais em conveniências e convenções. Mas, por outro lado, a idéia generalizada de que ‘‘se não der certo é só separar’’, acabou banalizando esta decisão. E contribuindo para novas escolhas erradas.
‘‘Ao se casarem novamente, muitas pessoas só trocam de problemas’’, avisa a terapeuta familiar Sueli Ferreira Ancioto. Para ela, a maioria dos distúrbios no casamento tem raízes na família de origem (pais, avós e bisavós). São comportamentos que a pessoa carrega, inconscientemente, para a vida a dois, que acabam dificultando a relação. ‘‘É preciso cortar o cordão umbilical’’, diz. De acordo com Sueli, se o indivíduo não elaborar as dificuldades e tratar de seus problemas psíquicos, estará, invariavelmente, fadado a uma nova separação. ‘‘Muitas vezes, depois do tratamento, é comum a pessoa dizer que se soubesse disso antes não teria se separado pela primeira vez’’, conta, explicando que todo casamento passa por um ciclo vital.
Primeiro acontece a fase dos sonhos, onde a tendência é ver apenas as qualidades do outro. Depois, vem o período de conflitos e desilusões. É quando se costuma cometer infidelidades, sobretudo ‘‘se a pessoa não tem uma boa formação espiritual. É uma forma de fuga’’, esclarece a terapeuta. Se o relacionamento resistir, caminha para a fase do conhecimento, onde se aprende a apreciar até mesmo os defeitos do outro. E os que conseguem chegar à etapa do amadurecimento da relação podem, então, desfrutar do prêmio tão esperado. ‘‘É como se tivesem um sapato velho que já se moldou a todos os calos e ficou bem confortável’’, compara Sueli, uma das ‘‘discípulas’’ do equatoriano Jorge Maldonado, doutor em teologia e terapia de casais, que esteve na Cidade semana passada, ministrando workshops e seminários sobre o assunto para profissionais e estudantes da área.
Reitor do Centro Hispano de Estudos Teológicos de Los Angeles, na Califórnia, onde vive há sete anos, ele trabalha com o treinamento de pastores e conselheiros familiares vinculados principalmente à igreja evangélica. ‘‘A psicologia existe há um século como ciência. Mas o trabalho pastoral existe há pelo menos dois mil anos. Então, meu papel é dar a estes profissionais as ferramentas atuais para que façam melhor seu trabalho’’, explica. Em entrevista à Folha da Sexta, Jorge Maldonado enfatiza a importância de construir os relacionamentos em novas bases. E garante que é possível, sim, salvar casamentos à beira da ruína.
Segundo dados do IBGE de 1995, para cada quatro casamentos, acontece um divórcio no Brasil. Mas casar está em alta entre a nova geração. Só que o conceito mudou. Muita gente acredita que casamento que funciona é aquele que dá certo por um determinado período. É o fim do ‘‘até que a morte nos separe’’?
Penso que houve muitas mudanças na instituição do casamento. No passado, os casamentos aconteciam porque era tradição, porque a mulher não tinha outro papel que o de casar e gerar filhos. Mas agora, com a revolução sexual e a independência econômica da mulher, não é possível manter os mesmos tipos de motivações ou de estruturas para o casamento. Agora, os casais têm uma relação mais igualitária, onde estão propondo projetos comuns de vida. E quando isso não acontece, se dá o rompimento. São alarmantes esses índices de divórcio em toda a parte. Mas significam também a possibilidade de revisar a forma de pensar o casamento, que pode ser com mais instrução, com mais preparação. Quando treino conselheiros pastorais, dou ênfase na preparação para o casamento porque, dessa forma, se pode romper com as tradições do passado, os casais podem revisar as influências negativas e estruturas mentais e abrir-se à possibilidade de estabelecer o casamento em novas bases. Creio que é possível, mas é preciso tempo para mudar conceitos históricos. A família é a estrutura básica da sociedade, sem a família não temos oportunidade de exercitar o amor, a solidariedade, a paciência, o compromisso, a fidelidade. Em cada filho, acredito que Deus nos dá a oportunidade de contribuir com a humanidade de uma maneira nova.
Com todas essas mudanças da mulher, o homem ficou perdido, foi obrigado a rever seus papéis. O mais difícil neste processo é o comportamento masculino?
O machismo não é um assunto somente dos homens, está na estrutura mental de homens e mulheres. O machismo é uma maneira de pensar, de atuar. Todos os brinquedos que compramos para meninos e meninas são diferentes, as histórias que contamos, como a do Chapeuzinho Vermelho, informam às gerações que Chapeuzinho é uma menina tonta, a mamãe e a vovó são tontas, os homens são os que as salvam. Esse tipo de mentalidade está presente em homens e mulheres. Nas estruturas sociais existem também formas de afirmar essa idéia machista.
As mudanças acabam se refletindo também na educação dos filhos. Para muitos casais, esse é um dos principais motivos de discórdias.
A forma de preservar filhos saudáveis é trabalhar com a relação do casal. Há muita documentação na literatura da terapia familiar afirmando que, quando a relação de papai e mamãe se enriquece, os filhos crescem saudáveis. Quando estão em briga, não têm acordo, não aprendem a comunicar-se, a se livrar dos conflitos, a distribuir seus papéis e a ter uma relação satisfatória, incluindo a sexual. Então os filhos crescem num ambiente inseguro e, às vezes, sem estar conscientes, se sacrificam para manter papai e mamãe juntos.
Uma união sem filhos pode ser saudável?
O casal que tem a capacidade de estabelecer uma relação satisfatória, pode perfeitamente não ter filhos. Os filhos não são o único e principal motivo da relação. Nisso, nos discernimos do conceito católico do casamento.
Muitos casais estão optando atualmente por viver em casas separadas como uma forma de preservar a relação. É uma boa alternativa?
Sim, pode ser uma forma de experimentar uma alternativa ao que possivelmente é um espaço de muito conflito. Se o casal preferir não ter filhos talvez funcione. Mas em algum momento a relação demanda 100% de envolvimento de duas vidas. É preciso uma unidade na relação marital muito mais forte do que o que existe na relação com a família de origem. Então, creio que seja uma alternativa à instituição tradicional do matrimônio. Mas chega um momento em que a vida marital, para atingir a plenitude, requer um compromisso total, que inclui viver sob o mesmo teto.
Há casais que namoram por muito tempo, acreditam que se dão muito bem, se casam achando que é para sempre e depois de pouco tempo se separam. Por que isso acontece?
Pode acontecer por várias razões. Uma delas, porque não há maturidade das pessoas para entrar na relação. Com frequência, há motivos equivocados para se casar. A solidão, por exemplo. Se a pessoa não aprendeu a manejar a solidão, será um casamento de dois sozinhos. Outro motivo é querer sair de casa. Acham que a namorada(o), é a solução para sair da casa dos pais, onde há muitas exigências. Outro é que, possivelmente, não há formas saudáveis de diálogo, comunicação. Nos dados que circulam nos Estados Unidos, o problema número um das relações não saudáveis está na comunicação. Não sabem falar sobre os problemas, não sabem resolver conflitos, e isso talvez signifique que estão repetindo padrões aprendidos em suas famílias de origem. Se os pais não sabiam como falar, não resolviam conflitos adequadamente, possivelmente há uma porcentagem muito grande de que os filhos reproduzam, sem estar conscientes, esse mesmo padrão com seus parceiros. Então, há muitos fatores que fazem os casais enfrentarem dificuldades. Graças a Deus, há conselheiros, terapeutas, pastores, sacerdotes, rabinos, que estão sendo ensinados em suas escolas a enfrentar essas situações e ajudar os que buscam estabelecer bases mais firmes para suas relações.
Muitos casais mantêm o casamento por causa dos filhos. Até que ponto é saudável que isso aconteça?
Quando eu encontro um casal que está junto porque quer cuidar de seus filhos eu me alegro, porque é parte de um compromisso que eles mantêm. Minha função como conselheiro é desafiá-los para que não se limitem a estar juntos só pelos filhos, mas que pensem que eles também precisam de cuidados com suas próprias necessidades. E que se houve uma vez o amor, a compreensão e o cuidado de um pelo outro, é possível recuperar isso se eles quiserem. É possível estabelecer uma relação satisfatória a partir dessa preocupação com os filhos, que é um compromisso dos dois. Dependendo dos casos, eu tenho uma resposta que não é suficiente que o casal fique junto só pelos filhos, porque seria uma vida miserável para os dois. Mas eles podem trabalhar sua relação para que seja satisfatória enquanto os filhos crescem, e que seja algo mais bonito, que possam encontrar alegria na relação e não só uma carga.
É realmente possível recuperar uma relação desgastada com a ajuda de um terapeuta?
Claro que sim. Os casais passam por diferentes etapas. Há a etapa de se conhecerem e descobrirem que um é par do outro. Logo vem a etapa da volta à realidade, em que pensam ‘‘não é bem isso que eu queria’’. Entram numa luta de poder para ver quem é quem, e na etapa seguinte estão na encruzilhada da decisão: ou se separam ou fazem uma mudança significativa, revisando a relação. Os que rompem, muitas vezes começam outra relação, pensando: talvez me equivoquei, mas na próxima, não. Mas outra vez começam lua-de-mel, volta à realidade, luta de poder e de novo a decisão de separação, de ruptura. E assim podem começar diversas vezes se não aprendem a passar por essa etapa e seguir adiante, para a quarta etapa. Quando eu encontro casais nessa etapa eu os desafio a fazer uma renegociação de suas relações, porque agora se conhecem melhor, sabem realmente como são e têm possibilidades de exercitar decisões que a princípio não estavam preparados. O amor não é somente sentimento, o amor inclui também atitudes e ações. Quando o casal está nessa etapa de decisão de separar-se ou continuar, eu lhes mostro uma espécie de pastel com três partes: sentimento, atitudes e ação. É muito difícil trabalhar os sentimentos, porque são muito instáveis. Mas trabalho atitudes, a pessoa pode decidir, está sob a sua vontade aceitar o seu cônjuge, respeitá-lo e protegê-lo. E essas são as atitudes básicas: aceitação, respeito e compromisso. Às vezes, estas três coisas não estiveram na lua-de-mel. Mas agora são possíveis. E trabalhamos também com as ações. Recuperamos ações que quando eram noivos as tinham muito claras: um presente, uma flor, um beijo. E assim podem caminhar para outra etapa, que é de crescimento, de intimidade e realização.
Mas nem todos os casamentos têm salvação. Ou têm?
Lastimosamente, nem todos.
Como saber a hora de desistir da relação?
Muitos casamentos deterioraram muito a relação, por abusos físicos ou mentais. Às vezes começaram por motivos equivocados, digamos, com a motivação de atrapalhar outra pessoa com um filho, por exemplo. Se o início foi muito pouco saudável, a relação não tem nenhum nível de compromisso, então, esse casamento não tem bases nas quais construir uma relação. Para alguns casais é mais saudável que aprendam a elaborar a sua separação. Para isso também há a aconselhamento e terapia, para ter um bom divórcio, porque há divórcios horríveis, casais que se divorciam mas nunca se separam nos sentimentos. E há outros casos que precisam ser trabalhados para que a pessoa aprenda de uma experiência dolorosa como o divórcio e que possa, então, iniciar outra relação de uma forma saudável.
A infidelidade é um motivo comum das separações. E, geralmente, é muito difícil sustentar uma relação depois que a pessoa descobre que foi traída. Como o senhor trabalha isso com os casais?
A traição, a infidelidade, são elementos mais difíceis de se trabalhar. Porque criam feridas muito profundas. Em efeito, está incluso na Bíblia, como eu entendo, que a infidelidade, o adultério, a fornicação são os elementos que rompem a relação. O matrimônio, dentro de uma percepção teológica, é a união de duas vidas. A relação sexual tem um poder unitivo, une as pessoas de tal forma que, ao uni-las em uma relação extramarital, estraga a relação marital. Então, isto cria sentimentos e feridas profundas que não são fáceis de se trabalhar e requerem toda uma orientação para a recuperação da pessoa traída. Isso toma meses, anos.
Mas é possível?
Sim, é possível se as pessoas tiverem a atitude de perdoar. Não há outro caminho.
Experiências anteriores de outros casamentos podem contribuir para que o próximo seja melhor?
Sim e não. Se as pessoas puderam realmente fazer as separações necessárias de sua experiência anterior, podem estar preparadas para entrar em uma relação aprendendo com a anterior. Mas o mais comum é as pessoas terem dificuldades de sair da relação, mesmo que tenham saído fisicamente, por causa de vínculos: propriedades, às vezes filhos. Se as pessoas não trabalham seus relacionamentos anteriores, misturam coisas da antiga com a nova relação. Um conselheiro familiar orienta àqueles que se separaram a não entrarem em uma nova relação pelo menos em um ano, se for possível um pouco mais, para que a pessoa, durante esse tempo, tenha a oportunidade de resolver coisas pendentes.
Qual o conselho que o senhor daria a casais que hoje estão passando por dificuldades e pensando em se separar?
Eu diria que sempre há uma luz no final do túnel. Se eles têm vontade de trabalhar a relação, é possível encontrar maneiras agradáveis de relacionar-se. E que busquem ajuda, que se desafiem um ao outro a revisar seus padrões de relacionamento, suas formas de comunicação, de manejo de conflitos, e a influência que tiveram de suas famílias de origem. Que estejam dispostos também a encontrar formas de distribuir seus papéis, pois não é possível reproduzir o que eles aprenderam na sua família de origem. Nossos pais nos deram coisas preciosas, mas também coisas que não são funcionais e, às vezes, coisas que não são saudáveis. E cada geração deve abrir a mala da vida para checar o que traz de sua família de origem, o que não serve e o que pode transmitir a seus filhos. Este seria meu conselho.

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