Para os especialistas em relacionamento humano, não é exatamente o tempo que azeda a relação de gente tão apaixonada. Por isso, não tenha medo dos aniversários de casamento: dois, cinco ou sete anos são apenas números cabalísticos. ‘‘Não existe uma data marcada para um relacionamento começar a desmoronar’’, sentencia o psicólogo Thiago de Almeida, doutorando em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) e especialista em dificuldades amorosas. ‘‘Em geral, existe alguma novidade que causa estranhamento entre os parceiros, mas há recursos para enfrentar isso.’’
  O planejamento dos filhos, segundo Almeida, é um dos motivos que podem levar à desunião. ‘‘Não é que um filho separe ou junte o casal, mas muda a rotina dele. E o problema é que algumas mulheres estão mais preparadas para ser mães; outras, para ser companheiras’’, analisa.
  Doutor em psicologia pela USP e autor de três livros sobre conflitos amorosos, Ailton Amélio da Silva diz que a relação tem fases previsíveis, daí o mito das datas perigosas. ‘‘O que as pessoas chamam de crise dos sete anos, por exemplo, pode ser só um momento que coincide com a vinda dos filhos. A culpa não é da passagem dos anos, é dos acontecimentos’’, diz. Para outros, em dois anos, quando vence a validade da paixão, ainda não há maturidade para viver o amor, que seria um estágio mais calmo da relação, segundo Silva. ‘‘Aí o sexo enfraquece, vem a traição, um outro motivo de crise.’’
  Na avaliação da advogada Renata Guimarães, do ramo do direito de família, as traições não são mais as principais responsáveis pelos conflitos conjugais. ‘‘Com o tempo, o casal muda profissionalmente e os filhos crescem. E aí os parceiros se distanciam, optam pela separação. Nos últimos anos, em vez de armar um ‘‘barraco’’ por causa de uma traição, como era nos anos 90, eles passaram a fazer acordos mais amigáveis para expressar esse distanciamento’’,
Tolerância e respeito
  Uma crise nem sempre é sinal de que o relacionamento está fadado ao fim. Ela pode, aliás, até fortalecer as bases de um relacionamento que parecia prestes a ruir.
  Foi o caso da dentista Camila Massabki, 29 anos, que hoje comemora a volta por cima ao lado do advogado Marcílio Gil, de 33. A relação quase entrou em colapso quando ela, aos 19 anos, engravidou. ‘‘Para os outros, nós éramos o casal perfeito, mas ninguém sabia o que acontecia dentro de casa’’, conta. O casamento durou três anos. ‘‘Faltou maturidade’’, admite. Anos mais tarde, ajudado pela proximidade em torno do filho, Lucas, hoje com 10 anos, o casal decidiu investir na relação mais uma vez. E o reencontro foi brindado com a chegada de Isabela, de 1 ano e meio.
  Para Camila, a palavra-chave para driblar a crise é tolerância. ‘‘Respeitar o espaço do outro é muito importante. E o mais fundamental é que a gente queria que desse certo. Além disso, procuramos fazer coisas diferentes, para não deixar cair na rotina’’, descreve.
  A psicóloga Lidia Aratangy, terapeuta de casais há mais de 30 anos e autora de três livros sobre o tema, sai em defesa da rotina - apontada por muitos casais como pivô das separações. ‘‘Rotina existe para facilitar a nossa vida, não é negativa. Além disso, todo mundo é diferente a cada semana. O problema é que ninguém se conhece o suficiente para ser transparente com o outro’’, analisa. Segundo Lidia, o que faz com que uma crise leve ao fim do relacionamento é a própria fantasia da perfeição. ‘‘Não é só um casal conhecido que passa por esse estigma da perfeição, por esse mito de existir a metade perfeita da laranja. No fundo, é difícil um casal descobrir que é igual aos outros.’’
  Para alguns casais, conflitos conjugais representam sinais de que não há mais motivos para insistir na união. E assim foi na vida da ex-modelo Luiza Brunet, que se divorciou do marido, Armando Fernandez, após 18 anos de casamento. ‘‘A longa convivência faz com que o casal perca o interesse social e sexual. Tudo enjoa’’, diz ela. ‘‘A mulher se lembra de datas importantes, o marido não. Ela quer dar atenção à casa e aos filhos, e ele se esquece disso’’, continua.
Relações problemáticas
  A terapeuta Tânia Muller Valiati, coordenadora do centro de psicanálise Espaço Viver Zen, em São Paulo, resume o perfil psicológico das relações propensas às crises:
Sadomasoquista: quando um parceiro depende do outro para viver
Narcisista: nos casos em que há um parceiro dominador, que suga a energia do dependente para sentir-se bem
De transferências: para relações em que marido e mulher invertem seus papéis
Papai e mamãe: quando os casais excluem o tesão da relação.

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