A morte do francês Vincent Humbert, 22 anos, no final do mês passado, trouxe de volta uma discussão já antiga mas ainda difícil de ser resolvida no meio médico: a eutanásia. Vincent ficou tetraplégico, cego e mudo depois de um acidente de carro. Infeliz com sua condição, o rapaz chegou a enviar ao governo francês um pedido por escrito para que sua morte fosse autorizada. Como o governo negou o pedido, a mãe de Vincent, desesperada com os apelos do filho, decidiu colocar barbitúricos na sonda que o alimentava e o rapaz entrou em coma. Dias depois, o médico responsável pelo caso desligou os aparelhos que mantinham o jovem vivo.
  De acordo com a lei da França, a eutanásia é crime e, com isso, a mãe de Vincent e o médico responsável estão sendo acusados por homicídio. Se a história tivesse acontecido no Brasil, o final seria provavelmente o mesmo. Aqui, a eutanásia também é crime e pode levar à prisão o responsável pela morte de um paciente que deseje interromper a própria vida. O código de ética médica, elaborado em 1988, é claro ao afirmar que é vedado ao médico utilizar, em qualquer caso, meios destinados a abreviar a vida do paciente, ainda que a pedido deste ou de seu responsável legal. Apenas na Holanda a eutanásia é permitida, em casos de pacientes terminais e com doenças que causem muita dor.
Sofrimento Para o cardiologista londrinense, pós-doutor em bioética e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Bioética, José Eduardo de Siqueira, a sociedade ainda é muito conservadora com relação à eutanásia. ‘‘Só agora o assunto começa a ser debatido nas aulas de ética das faculdades de medicina do País. Em muitos lugares, não se discute a eutanásia’’, afirma. De acordo com Siqueira, o maior problema é a idéia cientifista que existe na maioria das pessoas. ‘‘A gente acha que a ciência resolve tudo e que a medicina existe para preservar a vida. Mas, em muitos casos em que o paciente é terminal, não é a vida que está sendo prolongada e, sim, o sofrimento’’, comenta.
  A importância dada à religião e a moral de povos como o brasileiro, que não encaram a morte como algo natural, transformam a discussão sobre a eutanásia um tema polêmico e quase proibido, segundo Siqueira. ‘‘Isso é curioso porque a religião católica acredita na alma e em uma vida melhor após a morte, mas não aceita a morte de uma pessoa para lhe poupar o sofrimento’’, afirma
  Para o cardiologista, uma solução possível, caso a eutanásia fosse liberada um dia, seria a criação de comitês mistos de bioética para discutir a situação de cada caso. Formados por médicos especializados, psicólogos, advogados e outros profissionais, os comitês iriam analisar a aplicabilidade da eutanásia para cada caso.
Humanização Questionados pela reportagem em relação à eutanásia, médicos recém-formados, residentes do Hospital Universitário, deixam claro o valor moral de manter a vida a qualquer custo. O residente em radiologia Renato Brogin diz ser contra a eutanásia e traz uma possível solução para o caso. ‘‘Nós aprendemos que a vida é algo muito importante e que deve ser preservada. Acredito que a humanização do tratamento seria o melhor caminho. Se a pessoa é bem tratada na questão física e psicológica, ela não vai desejar morrer’’, sugere.
  O residente em cardiologia Fuad Salle Neto também afirma que o trabalho do médico é manter a vida e que a eutanásia não deve ser um padrão aceito. ‘‘O nosso conhecimento foi adquirido para trazer alívio às pessoas, não a morte’’, completa. O futuro neurologista Rogério Pistore diz que mesmo se a eutanásia fosse aceita pela lei, sua consciência iria incomodá-lo se um dia provocasse a morte de um paciente. ‘‘Acho que não conseguiria dormir tranqüilo sabendo que ajudei alguém a morrer ou que provoquei a morte’’, afirma.
  O residente de endocrinologia Leandro Diehl afirma que a sociedade não está preparada para aceitar a eutanásia. ‘‘Além disso, acho que existem assuntos mais urgentes dentro dos hospitais para serem discutidos e acertados. A falta de leitos para tratar os doentes, por exemplo, é quase uma eutanásia e precisa ser resolvido’’, desabafa. n

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