Uma nova epidemia se anuncia para esta década. A hepatite C, inflamação crônica do fígado, causada por um vírus transmitido pelo sangue e derivados, atinge hoje cerca de 3% da população mundial (só no Brasil, são cinco milhões de portadores), cifra que deve crescer nos próximos 15 anos. Os dados são da Organização Mundial de Saúde (OMS), mas os médicos ressaltam que não há motivo para pânico. Apesar de não ter cura, a hepatite C é controlável com medicamentos fornecidos gratuitamente no Brasil. Além disso, o número de infectados tende a cair a partir de 2020 porque a transmissão por transfusão de sangue, a mais comum, não acontece mais.
‘‘O vírus da hepatite C foi identificado em 1989 e o exame para detectá-lo no sangue doado tornou-se obrigatório em 1993. Acontece que a evolução é lenta, assintomática e variada. De 100 pessoas que contraem o vírus, 80% se curam espontaneamente, 20 a 25% desenvolvem uma cirrose em 20 anos e 5% terão câncer de fígado em 25 anos’’, calcula o médico e presidente do Grupo do Fígado, Carlos Eduardo Brandão, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade do Rio de Janeiro (UniRio).
‘‘Somando os atendimentos nos hospitais das duas universidades e no consultório, registro de três a cinco casos de câncer de fígado por semana. Há dez anos, a média era de um caso.’’ Segundo Brandão, esses casos de câncer são de pessoas que contraíram o vírus na década de 70. ‘‘Como a doença demora até 25 anos para evoluir e só em 1993 passou a ser evitada, até 2020 ainda vão aparecer casos. Depois, o número deve cair’’, explica o médico.
O problema é que há portadores que não sabem como contraíram o vírus, cuja transmissão por via sexual é rara (3% dos casos) e a oral, impossível. ‘‘Metade dos portadores fizeram transfusão de sangue até 1993, quando não se detectava o vírus no sangue doado. Um quarto usava drogas injetáveis, mas os outros 25% não estavam em nenhum grupo de risco e não se sabe como contraíram o vírus.’’
Exames específicos Se a doença é assintomática e não tem cura, como diagnosticá-la e tratá-la? Este é o principal foco do Grupo do Fígado, que reúne, só no Rio, cerca de 50 médicos especialistas em doenças hepáticas. Segundo Brandão, exames de sangue específicos e biópsia do fígado são o caminho para o diagnóstico. ‘‘O tratamento é feito com duas drogas associadas, interferom, que é injetável, e ribavilina, um comprimido’’, ensina ele. ‘‘Mas funciona em 50% dos casos. Quanto mais antiga a infecção, menor a eficácia. A notícia boa é que a doença é muito pesquisada e existe um novo interferom que faz efeito em 70% dos doentes.’’
Para o portador do HCV, nome dado ao vírus da hepatice C, há três entraves à cura. Em primeiro lugar, por ser assintomática, o doente só procura o médico quando já tem uma cirrose, ou seja, tem o vírus há 20 anos. O interferom tem efeitos colaterais incômodos e há grande preconceito social contra a doença. Há um quarto agravante cuja importância vem diminuindo: poucos médicos formados há mais de dez anos sabem identificar a doença e dão diagnósticos errados. Foi o que aconteceu com o empresário Carlos Varaldo, argentino radicado no Brasil. Em meados dos anos 90, teve diagnosticado um câncer de fígado e o médico lhe deu duas opções, transplante ou morte em seis meses.
‘‘Procurei, no Brasil e no exterior, informações sobre doenças hepáticas. Com o Grupo do Fígado descobri ser portador da hepatite C. Tratei-me e passei a estudar a doença e formas de apoio para outros portadores’’. Essa militância levou-o a fundar o Grupo Otimismo, Organização Não Governamental com site na internet (www.hepato.com.br) que dá informações sobre hepatite C, promove estudos, grupos de apoio e luta para conscientizar a sociedade e garantir os direitos legais do portador, inclusive à medicação. ‘‘Só em 1998 o interferom e a ribavilina passaram a ser fornecidas pelo governo, mas os portadores, além de efeitos colaterais, ainda sofrem preconceito social.’’
Varaldo explica que o portador tem que mudar o estilo de vida. ‘‘Eu era boêmio, bebia socialmente e esse é o primeiro item a ser banido da vida do portador, o que significa mudar os hábitos e até o grupo de amigos. Há pessoas que sentem muito os efeitos colaterais reais do remédio, parecidos com os sintomas de uma gripe constante, e os psicológicos, o fato de sentir-se diferente das outras pessoas’’, enumera ele. ‘‘Mas conviver com a hepatite C não traz grandes transtornos, a não ser a vigilância sobre o vírus, que não é extinto, mas pode ser negativado. Eu estou assim há cinco anos, mas faço controle até hoje.’’
Preconceito A dona de casa Raymunda Pierangi passou por isso e hoje se considera vitoriosa. Há dois anos teve uma pericardite diagnosticada. De exame em exame, chegou à hepatite C e sua vida sofreu uma revolução. ‘‘Além do desânimo e do medo de morrer, os amigos e parentes me abandonaram. Ou passaram a me tratar como uma moribunda’’, conta ela, que se tratou e hoje tem a doença negativada. ‘‘Mas não foi fácil. Me lembro que uma vez, comecei a rezar assim: ‘Meu Deus, se Você me deu uma família que depende de mim, não pode me matar agora, nem me deixar sem saúde. Não peço, eu intimo uma solução para meu caso.’’
Sem os recursos de Varaldo, Raymunda atribui sua cura aos bons médicos que encontrou, ao Grupo Otimismo que passou a integrar, ao fato de beber muita água e às orações, não necessariamente nesta ordem. ‘‘Hoje controlo a doença, mas levo uma vida normal. Às vezes me sinto um pouco cansada, mas relaxo e volto à atividade normal’’, conta ela. ‘‘Graças a Deus, tive todo apoio de meus filhos e dos amigos deles e convivo com a doença sem maiores problemas.’’
Raymunda faz parte do grupo de portadores cuja origem do vírus não é detectada. Afinal, nunca usou droga injetável, só fez uma cirurgia até hoje e leva a mesma vida de milhões de donas de casa brasileiras. No entanto, mesmo sem haver uma certeza científica de como se transmite a doença, ela toma cuidados para não passá-la aos filhos. ‘‘Minha escova de dentes é guardada separado da deles e meu alicate de unhas fica escondido para as meninas não pegarem’’, resume. ‘‘Não separei mais nada. Se acaso estou cozinhando e me corto, deixo o que estou fazendo, lavo as mãos e jogo fora aquela comida.’’
Certeza Para Brandão, a única certeza quanto à transmissão da hepatite C é que passa pelo sangue ou seus derivados. ‘‘Não há comprovação de que o vírus passe por relação sexual como a B e sabe-se que não passa por via oral, como a A’’, garante. Varaldo vai além. Diz que consultórios dentários e utensílios de manicures podem transmitir o vírus, embora não haja certeza quanto a isso. ‘‘Os consumidores de drogas aspiráveis também correm risco porque elas ferem o nariz e sua acidez não mata o vírus, como ocorre com o HIV’’, diz ele.
Num ponto, os dois concordam: a hepatite C hoje atinge mais pessoas que a Aids (cuja incidência é de 0,25% da população, cerca de 420 mil pessoas), mas chama menos atenção do governo, da mídia e da população em geral. ‘‘Só a conscientização vai mudar essa situação’’, conclui Varaldo. •

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