Sem sangue, sem dor
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quinta-feira, 12 de setembro de 2002
Célia Guerra<BR>Reportagem Local 
Desde seu lançamento, há mais de 40 anos, a pílula anticoncepcional vem revolucionando o comportamento das mulheres. Nos anos 60, ela desencadeou a revolução sexual a prática do sexo pelo prazer e não apenas para a reprodução.
Mas não parou por aí. Nos últimos cinco anos, a proposta dos novos produtos colocados no mercado pela indústria farmacêutica é oferecer mais conforto às mulheres, suprimindo o sangramento mensal. Pesquisas vêm comprovando que a adoção do anticoncepcional de uso contínuo, além de evitar a gravidez, minimiza os incômodos da menstruação, diminui os riscos de doenças como a endometriose e o câncer de ovário.
O estudo brasileiro ''Percepção do sangramento mensal entre as usuárias de pílulas anticoncepcionais'', divulgado recentemente pela Faculdade de Medicina de Jundiaí (SP) revelou que o conhecimento sobre a ação hormonal dos contraceptivos influencia na decisão de suspender a menstruação.
Para o ginecologista paulista Achilles Machado Cruz, não ter o sangramento mensal, ''é uma tendência da mulher moderna que trabalha fora o dia inteiro, tem atividade física e ainda cuida da casa, marido e filhos''. O estudo mostra ainda que algumas delas já perceberam as vantagens de não menstruar. O uso de pílulas sem pausa, segundo a pesquisa, já atinge 1/3 das mulheres.
O médico Hugo Maia, professor do Departamento de Ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia explica que a pausa no uso do anticoncepcional as cartelas de 21 dias foi criada no lançamento do medicamento há 40 anos para haver maior aceitação entre as pacientes. Com isso, elas têm o sangramento mensal simulado e parecido com o ciclo menstrual natural. Isso ocorre, como esclarece o médico, pela pausa no consumo do medicamento e não pela flutuação hormonal como ocorre no ciclo natural. ''Não há razões terapêuticas para o sangramento'', atesta.
Regras da natureza O médico ginecologista Dalmo Borges Ramos Júnior, de Londrina, é favorável ao procedimento e para ele a menstruação tem que ser descrita como algo que, muitas vezes, causa prejuízos à vida social e profissional da mulher. Dalmo explica que o sangramento ocorre pelo fato de não ter havido uma fecundação, com isso, o endométrio tecido que reveste a cavidade do útero , que estava preparado para receber o embrião, se descama.
''A cada ovulação'', acrescenta o médico, ''a mulher deveria engravidar, pelo menos como determinam as regras da natureza. Assim, como há um planejamento da concepção não haveria motivos para um sangramento mensal''.
Não há como precisar, de acordo com o médico, se as pílulas interferem na capacidade de fertilização. A fertilidade humana, informa, é muito baixa se comparada aos animais. ''Nos bichos, a fecundação ocorre em 98% dos casos em que há uma relação sexual, na mulher esse índice é de 25%''. Uma gravidez ocorre normalmente até um ano depois de suspensa a ingestão desses medicamentos.
O médico afirma ainda que além do desconforto, a menstruação pode provocar outros problemas como a tensão pré-menstrual (TPM) que incomoda cerca de 75% do público feminino, infecções vaginais pelo uso dos absorventes, cólicas e até mesmo anemias se o fluxo sanguíneo for muito intenso. ''Esses sintomas desaparecem quando não há o sangramento''.
Já se falou que a menstruação promovia uma ''limpeza'' no organismo feminino, ou seja, o sangue estaria eliminando substâncias nocivas. ''Não há nele nenhuma toxina ou material que devesse ser eliminado'', garante Dalmo. O corpo humano possui um sistema excretor próprio: ''Os aparelhos urinário e digestivo são os responsáveis pela retirada das sujeiras do organismo'', frisa.
O uso contínuo da medicação, para Dalmo, não traria prejuízos à mulher. ''Não há trabalhos científicos que comprovem malefícios''. Caso houvesse, na opinião do médico, a prática não seria aprovada por órgãos como a Federação Brasileira de Ginecologia. O uso dos hormônios não é indicado para mulheres portadoras de diabetes, hipertensão, ou que possuam risco de doenças vasculares como a trombose.
Apesar de ser favorável ao uso contínuo das pílulas, o médico alerta que a suspensão da menstruação deve ocorrer por indicação médica e com um motivo associado a ela. ''Não se deve adotar a prática apenas porque se leu uma matéria de jornal e se gostou da idéia'', adverte. n


