Sem prazer de viver
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quinta-feira, 12 de outubro de 2000
Celso Mattos 
O que personalidades como Marilyn Monroe, Princesa Diana, Fernando Pessoa, Beethoven, Ernest Hemingway e Abraham Lincoln tinham em comum? Todas elas sofriam de depressão. Pela diferença de época que cada uma delas viveu, pode-se perceber que a doença é mais antiga do que muitos pensam. Especialistas afirmam que, atualmente, a depressão está mais em evidência porque é mais diagnosticada. Nos últimos dez anos, o ataque médico à doença avançou mais rapidamente que em toda a história anterior da medicina.
Mesmo assim, muitos pacientes ainda fazem uma via-sacra por vários consultórios médicos antes de descobrir que são portadores de depressão. Os principais sintomas da doença são: dificuldade para se concentrar, auto-estima reduzida, sentimento de culpa, perturbação do sono, alteração do apetite, perda do interesse de viver, falta de perspectiva do futuro e sensação de cansaço.
O médico psiquiatra Luiz Alberto Alves Nunes diz que muitas pessoas confundem tristeza com depressão. A tristeza é um sentimento, a depressão é uma doença profunda e resistente, afirma. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a depressão é uma enfermidade que acomete mais as mulheres e é a quarta mais comum entre a população em geral. A incidência é duas vezes maior em mulheres do que em homens, acrescenta Luiz Alberto. Estima-se que 330 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de depressão. Em 2020 será a moléstia que mais roubará anos da vida útil da população, ficando atrás apenas das doenças do coração.
Entre as doenças psiquiátricas, a depressão é uma das que melhor responde ao tratamento, que deve ter o acompanhamento de um psiquiatra e de um psicólogo. É uma doença que tem componentes biológicos e psicológicos, portanto, o tratamento precisa ser multiprofissional. Além disso, o médico ressalta que o apoio da família é muito importante. É uma enfermidade muito estigmatizante, geralmente associada à frescura. Entretanto, a depressão é uma doença séria que pode levar ao suicídio, alerta Luiz Alberto.
Fator ambiental Ele informa que, atualmente, existem medicamentos que dão bons resultados terapeuticos. No entanto, 20% dos pacientes necessitam de tratamento permanente. São aqueles que sofrem de depressão crônica, observa. A psicóloga clínica Maria Zilah Brandão acrescenta que além dos fatores biológicos e psicológicos, existe também o ambiental. Uma pessoa que sofre uma grande perda ou vive um período de crise no relacionamento pode desenvolver a doença, esclarece.
Partindo desse princípio, ela afirma que para o tratamento ser mais eficaz, é preciso levar em conta as experiências vividas pelo paciente nos últimos tempos. A depressão pode surgir, por exemplo, quando a pessoa perde o controle sobre uma determinada situação. O sentimento de incontrabilidade de uma mãe sobre um filho dependente de drogas ou de um profissional desempregado, cuja situação não depende de sua competência, mas do mercado, pode desencadear um processo depressivo, explica a psicóloga.
Inutilidade Maria Zilah esclarece ainda que existe a depressão causada pela síndrome de inutilidade que, geralmente, atinge as pessoas ricas que conseguem tudo sem o mínimo de esforço. São aqueles indivíduos que têm um exagero de recompensa com zero de esforço. Eles nunca experimentam o sentimento de realização pessoal, afirma.
As pesquisas indicam que, de cada 20 pessoas, três vão ter pelo menos um surto depressivo na vida. É uma doença que pode atacar qualquer pessoa pela mesma razão de que existe gente mais propensa a desenvolver hipertensão e catarata as vítimas da depressão sucumbem ao mal também por motivos genéticos. É uma doença que causa muito sofrimento, mas que tem cura. Entretanto, a pessoa precisa fazer uma reorganização da vida para evitar recaídas, alerta a psicóloga.
A receita moderna para o controle da doença combina remédios e sessões de análise. Muitos pacientes precisam de medicamentos para saírem do estado depressivo mais profundo e, desta forma, responderem melhor a uma terapia. A depressão deixou de ser um flagelo cercado de preconceitos para ser uma doença curável e controlável, garante Maria Zilah Brandão.


