Sem meias-medidas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 27 de abril de 2006
Giuliana Reginatto<br> Agência Estado 
Júlia Assunção é a personificação do poder e, mesmo estando momentaneamente longe de sua empresa, na novela Belíssima, mostra que não sucumbe frente às adversidades da vida. Se fosse real, ela estaria entre os milhões de mulheres que inundaram o mercado de trabalho a partir da década de 80. Nos últimos 20 anos, o crescimento das mulheres economicamente ativas foi de 111%, enquanto o índice registrado entre os homens ficou nos 40%. Hoje, elas aparecem como motoristas de ônibus, entregadoras de pizza e políticas respeitadas, profissões que, um dia, foram só masculinas.
São também elas que bancam 88% dos planos de saúde do País e compram 92% dos pacotes turísticos. Recentemente, meteram a colher até na mistura homens e carros, a mais tradicional das combinações. Na Ford, por exemplo, 55% dos modelos EcoSport de 2005 foram vendidos para mulheres. O dado comprova o que o dia-a-dia da brasileira já mostra há anos: pilotar só fogão é coisa do passado.
Desgosto diante do espelho Capazes de enfrentar as piores adversidades e avançando cada vez mais em redutos masculinos, as mulheres sucumbem diante de um só inimigo: o espelho. É o que mostra uma pesquisa realizada pela Universidade de Harvard em dez países. Segundo o estudo, apenas 2% das brasileiras se consideram bonitas. Quase 60% das entrevistadas garantem que enfrentariam o bisturi imediatamente se a cirurgia plástica fosse gratuita. Vale lembrar que o Brasil é o segundo colocado no ranking mundial de plásticas perde apenas para os EUA, onde a renda média das mulheres supera em 14 vezes o salário das brasileiras.
Nem a mocinha da novela escapa da ditadura da beleza, uma espécie de prisão invisível criada pela própria mulher moderna. ''Júlia é filha de um mito da beleza dos anos 60. Isso a oprime porque ela se sente na obrigação de ser como sua mãe, mas não tem condições para isso. Hoje, parece que todo mundo tem de ser bonito. As pessoas fazem loucuras e gastam fortunas para comprar a beleza'', analisa o autor da novela, Silvio de Abreu.
Até a bela Giovanna (Paola Oliveira) teve de suar para caber nos fictícios padrões de beleza mostrados na trama. ''Se fosse vida real, ela teria que perder uns oito quilos para fotografar de biquíni'', observa Carolina Ferraz, que divide cenas com a garota. Mesmo quem estuda há anos a compulsão por formas perfeitas, como o psicólogo Walter Poltronieri, doutor em impactos psicológicos causados pela cirurgia plástica, pode cair em ciladas armadas pela vaidade. ''Quando me separei, foi instantâneo: pintei o cabelo'', brinca o especialista.
Ficar mais bonito para ser feliz
Segundo o psicólogo, a mente humana trabalha com estruturas comparativas, o que torna quase impossível não fabricar relações entre a imagem no espelho e aquela gente magra, jovem e alta que ajuda publicitários a vender produtos. Nós nos comparamos com ideais, mas ninguém é uma beldade 24 horas por dia. Há maquiagem, há photoshop. Uma mensagem subliminar está na mídia: se você tiver boa aparência, vai ser mais feliz. Hoje, as pessoas acham que para conquistar o corpo que idealizam basta ter dinheiro. E a genética?, pondera.


