Sem medo de perder o medo
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sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
O representante comercial Francisco Frejuello Neto viajou pela primeira vez de avião quando ainda era bebê. Dessa experiência ele não se lembra, mas de seu segundo vôo as memórias não são nada boas. ''Eu tinha uns 19 anos. Resolvi tomar um suco de laranja e comecei a passar mal. Na hora de aterrissar, vomitei e, desde então, passei a não gostar de avião. Eu já não me sentia confortável voando e com essa história a coisa piorou'', conta ele.
Dentre as sensações que tinha, Francisco lembra da falta de ar, náuseas e suor frio. ''Eu realmente ficava muito ruim só de pensar em entrar num avião. Depois que fui assaltado, então, piorei muito. Foi em 1975 e fiquei duas horas nas mãos dos bandidos, apanhei até. Desde então passei a evitar avião. Viajava só de carro ou ônibus e inventava desculpas para não voar'', diz.
Pela necessidade de viajar muito a trabalho, veio o desejo de procurar tratamento. ''O medo estava atrapalhando minha vida. Ganhei uma viagem para Porto Seguro (BA) e não fui porque tinha que ser de avião. As viagens de trabalho eram cansativas e as férias eram sempre em locais próximos. Eu trabalhava, tinha condições de aproveitar a vida, conhecer lugares distantes e não ia por medo. Há uns cinco anos, meu filho foi fazer um teste vocacional e perguntei para a psicóloga se conseguiria me tratar. Ela me disse que sim e resolvi tentar'', conta.
''O medo dele não tinha motivo para existir'', diz a psicóloga Simone Oliani. Através da técnica de desensibilização, Francisco encarou o medo para vencer o pânico. ''Ela me fazia imaginar entrando no aeroporto, fazendo o check-in, sentando na poltrona, sentindo o avião decolar. No começo, só de pensar eu já passava mal. Depois fui melhorando'', lembra Francisco.
De acordo com Simone, sentir medo é bom, desde que seja um sentimento controlado. ''O medo garante nossa sobrevivência, nos prepara para coisas ruins e nos faz reagir a situações inesperadas. A ansiedade também tem seu lado positivo, mas ela pode se transformar em algo fóbico e transbordar o limite da racionalidade'', explica.
As fobias, segundo ela, surgem principalmente por três motivos: a história de vida, quando aprendemos o que é ameaçador e o que nos faz sentir mal; o legado evolutivo, que é a carga genética que herdamos de nossos antepassados; e as práticas culturais, que são as histórias infantis e contos de terror. ''Como sintomas das fobias, as pessoas constumam sentir taquicardia, tremores, fadiga, sudorese. Para evitar essas sensações, acabam fugindo da causa desse medo e tendo problemas na vida social, profissional e afetiva''.
A melhor maneira de lidar com a ansiedade fóbica gerada pelo medo é enfrentar o seu causador. ''Quanto mais a pessoa foge, mais o medo aumenta, o que pode levar ao pânico, depressão e fobias. Dificilmente a pessoa consegue se livrar do problema sozinha, por isso o acompanhamento de um profissional é fundamental. Ele irá ajudar o paciente a conhecer os sintomas, identificar as causas do medo e enfrentá-lo de forma controlada'', comenta. O tratamento pode levar de três meses a três anos, dependendo de cada paciente.
Para Francisco foram necessários alguns meses para que o avião deixasse de ser um inimigo. ''Minha fé também me ajudou muito. O pastor da igreja que eu frequento me falou sobre os motivos desse medo e conversou muito comigo sobre como lidar com isso. Hoje entro no avião sem problemas, já fiz as viagens que sempre quis, para o Chile e Natal (RN), e sei que Deus usou o trabalho da psicóloga e do pastor para operar em mim a solução e me livrar do medo'', garante.


