Sem lágrimas, saliva ou suor
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de setembro de 2000
Nélia Marquez Agência Estado 
Cerca de 900 mil pessoas no Brasil podem estar hoje padecendo de uma doença de difícil nome, mas de sintoma muito fácil de identificar. É a síndrome de Sjögren, uma doença auto-imune, crônica, identificada basicamente pela redução ou, em alguns casos, eliminação da saliva, lágrima e suor, acompanhada de fadiga. Pode também causar secura de pele, nariz e vagina, e afetar outros órgãos do corpo, inclusive rins, vasos sanguíneos, pulmões, fígado, pâncreas e cérebro.
Muitas pessoas têm a doença, mas não sabem, afirma a presidente da Lágrima-Brasil (associação que integra os portadores da síndrome de Sjögren), Stella De Carli Cardoso de Oliveira. Ela própria conseguiu diagnosticar que era portadora da Síndrome de Sjögren 25 anos depois que surgiram os primeiros sintomas. Eu passava de mão em mão, pois os sintomas eram tratados diferentemente em cada área médica, conta Stella de Carli, que descobriu que era portadora da síndrome quando um médico imunologista pediu para que fizesse os testes. Comprovada a doença, ela passou então ser tratada por um reumatologista.
A síndrome de Sjögren é uma doença crônica, progressiva, hereditária que não tem cura, com instalação lenta e gradual, mas, segundo o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica Regional do Distrito Federal, Leopoldo dos Santos, perfeitamente controlável. Os portadores da doença podem levar uma vida perfeitamente normal quando tratados, afirmou. Segundo ele, em muitos casos a qualidade de vida dos portadores até melhora. Recebeu o nome Sjögren como referência ao oftalmologista sueco que descobriu o problema, no início do século 20.
Causas Ainda não se sabe exatamente como a síndrome aparece. No meu caso apareceu depois do trauma que tive quando atropelei uma pessoa, relembra Stella De Carli. Para ela, o gatilho da doença pode ser um trauma ou uma situação de estresse. Para o médico Leopoldo dos Santos, a síndrome surge quando a pessoa é exposta à ação de um vírus que desencadeia uma reação exagerada, cuja expressão fundamental é o ataque às glândulas que produzem saliva, lágrimas e muco.
Existem dois tipos de manifestação da síndrome. A primeira delas é chamada de primária, considerada mais rara e mais difícil de fazer o diagnóstico inicial porque os problemas ocorrem isoladamente. No caso da manifestação secundária, a síndrome surge associada a uma outra doença como o lupus e a artrite reumatóide. Segundo Lepoldo Santos, 30% dos casos em que a manifestação é secundária são decorrentes da artrite reumatóide.
Para evitar que a doença ganhe força, o médico considera fundamental o diagnóstico inicial. Sempre que uma pessoa sente cansaço excessivo, secura nos olhos ou secura na boca deve cobrar do médico a investigação sobre o seu diagnóstico, aconselha. O que acontece, porém, segundo ele, é que as pessoas que se encontram no estágio inicial da doença, são tratadas como psíquicos porque a doença vai e volta de acordo com o tratamento isolado.
Isso dá uma certa insegurança ao paciente, afirma. Por conta da Sjögren, Stella De Carli, hoje com 50 anos, foi aposentada há dois por invalidez. As pessoas não sabem a falta que faz a saliva, afirma ela. A minha língua rachou duas vezes por falta de saliva, chegando a sair sangue, conta. O problema, segundo ela, é que a inexistência de saliva leva também ao desaparecimento das enzimas que combatem as bactérias. O resultado é que língua fica ardida e com uma espécie de candidiase. Stella deixou também há um ano de ter qualquer resquício de lágrima.
Diagnóstico Os exames para identificar a doença, de acordo com o médico, são simples e, em sua maior parte, são oferecidos pela rede pública de saúde. Ele citou o teste Rosa Bengala (em que é aplicado um corante que identifica a existência de inflamação na córnea), o teste de Schimer (em que é avaliado o nível de produção de lágrima), a cintilografia de parótida (que avalia as vias salivares) e a biopsia da glândula da saliva. O tratamento da doença pode ser conduzido por reumatologista, imunologista, clínico geral ou oftalmologista, e é feito com a reposição de saliva e lágrima. Nos casos em que a glândula não está totalmente comprometida, existe, conforme o médico, a possibilidade de aplicação de um comprimido que estimula a produção de saliva. Por enquanto, o Sistema Unificado de Saúde (SUS) ainda não incluiu em sua cesta os medicamentos para tratar a doença.
Como identificar a doença
Conforme os dados preparados pela Associação Lágrima-Brasil, a identificação da Síndrome de Sjgren é feita a partir da resposta positiva a pelo menos quatro das perguntas abaixo:
Você tem os olhos demasiadamente secos, ou com a sensação de corpo estranho, areia ou queimação? Seus olhos são sensíveis à luz?
Você tem dificuldade de engolir alimentos? Bebe água freqüentemente quando está falando? A sua voz é rouca?
Sua língua é dolorida ou rachada? Você tem úlcera na boca ou costuma ter infeções na cavidade oral? Suas glândulas abaixo e ao redor de suas mandíbulas e ouvido costumam estar inchadas?
Você nota um aumento súbito de cáries dentárias e/ou perda de dentes?
Você percebe que seu nariz está produzindo um muco espesso, pegajoso e com mau cheiro?
Você nota que houve mudança no seu paladar ou olfato?
Você se sente cansado todo tempo? Esta fadiga afeta a sua vida?
Você tem alguma doença de tecido conjuntivo como artrite reumatóide, lupus ou esclerodermia? (N.M./AE)


