Os filhos estão criados e encaminhados. Uma vida inteira de trabalho proporcionou certa tranquilidade financeira. E o tempo, agora, é para ser desfrutado sem pressa, sem estresse minuto a minuto. A vida, em suma, é um convite ao divertimento. Que outra turma, senão a da terceira idade, teria tantos motivos para viajar?
Com o aumento da expectativa de vida no País, o que ajudou a engrossar a porcentagem de idosos brasileiros, este segmento de mercado se tornou extremamente atraente para as agências de viagens. Resultado: roteiros que atendem direitinho as necessidades e exigências de quem tem mais de 50 anos. O que não faltam são pacotes diferenciados para quem já virou freguês e também para os que ainda não passaram pela experiência.
Há 10 anos na área, as sócias Sheila Navega de Souza Prata e Odília de Oliveira Yokozawa, da Navega Tur, conhecem com profundidade o mercado onde atuam. Professoras aposentadas, elas se dedicam às tarefas de organizar roteiros e de acompanhar os passageiros em todos os destinos. Os cuidados especiais vão desde o planejamento de mais paradas nas viagens de ônibus até a realização de seguro extra. Para quem tem dificuldade de locomoção, a dupla trata de providenciar acomodação adequada, na parte térrea dos hotéis.
A organização das atividades recreativas também fica por conta delas. ''Procuramos respeitar o ritmo deles que, ao contrário do que se imagina, é bem acelerado. Pensa que eles querem dormir à noite? De forma nenhuma. Cama e televisão eles têm em casa. Querem é dançar, ouvir música, jogar bingo'', conta Sheila, que aponta as festas temáticas (juninas, à fantasia, de pijama) como as de maior sucesso.
Segurança e companhia''A tônica da terceira idade é a alegria. Nos divertimos muito'', diz Odília. Tanto que o preconceito dos jovens dura até a primeira viagem com os grupos de idosos. Além de descobrirem que não precisam carregar a mala de ninguém, os mais novos acabam se contagiando com o alto-astral da turma.
De acordo com as sócias, a maioria dos clientes cativos é formada por mulheres. Alguns têm mais de 80 anos e viajam sozinhos, sem a família. ''Trabalhamos com um filão independente, de bem com a vida, que têm saúde e dinheiro e quer segurança e companhia. Nós fazemos este trabalho de agregar pessoas'', define Sheila, com um ar de satisfação, ao lembrar os muitos encontros que a agência tem proporcionado nos últimos anos, de grandes amizades a casamentos.
Apesar de sempre proporem novas opções este ano, levaram um grupo à Cuba Sheila e Odília não deixam de fora os roteiros tradicionais: por causa das boas instalações, das recreações constantes e da comida caprichada, as águas termais são os destinos preferidos da galera da terceira idade. As viagens de ônibus à Serra Gaúcha e a outros estados próximos também são bem-vindas. ''Estamos descobrindo o Brasil depois de velhos'', observa Olanira Barros, 75 anos, oito deles viajando com frequência dentro e fora do País.
Chile, Argentina, México, EUA, Espanha, Portugal e Cuba são alguns países pelos quais Olanira já passou. ''Nessa idade, a gente não tem ambição de enfeitar a casa, de comprar isso ou aquilo. A ambição é de viajar e conhecer o que tem de bonito por aí'', justifica ela, informando que ganha 40% de descontos na compra de passagens aéreas. ''Agora, as companhias estão descobrindo o filão que é a terceira idade. Sou uma passageira vip'', gaba-se.
Impetuosidade juvenil Apesar de participar constantemente dos roteiros com os grupos de terceira idade, Olanira também já viajou com turmas de jovens e gostou da experiência. A diferença, segundo ela, é a intensidade com a qual as duas faixas etárias vivenciam a aventura. ''Fazemos os mesmos passeios e as mesmas brincadeiras. Mas eles são radicais. Nós somos mais moderados'', compara.
Esta impetuosidade juvenil é o que mais atrai a aposentada Carmen Siqueira de Carvalho, 78 anos. Viúva há 12 anos, desde 1998 ela viaja ao exterior pelo menos uma vez ao ano. Na maioria das vezes, sozinha. Tudo começou com o tratamento para depressão. ''Fui para Barcelona com a minha filha. No ano seguinte, o médico disse que se eu conseguisse viajar sozinha estava curada. Fui e conheci toda a Andaluzia'', conta.
A partir de então, Carmen não parou mais de carimbar o passaporte. Da Grécia, tem as mais belas lembranças. ''Tenho fascínio pela mitologia grega. Fiz questão de visitar todos os templos e museus'', diz. Em outubro deste ano, resolveu fazer um curso de inglês intensivo lá fora. E apesar de existirem opções do gênero para a terceira idade (leia box), ela fez questão de dividir a classe com jovens.
Carmen ficou um mês em Malta pela Central de Intercâmbio. Estudava o dia todo e visitava museus nos finais de semana. ''Não me sinto idosa. Sou ousada, ativa. Não tenho amigos para acompanhar o meu pique'', diz ela, que faz natação, hidroginástica e inglês e tem dois sites na Internet, um de poesias e outro sobre terapia musical, área com a qual trabalhava no Rio de Janeiro, sua cidade natal.
Com a casa repleta de lembranças dos 10 países pelos quais passou, Carmen destaca o enriquecimento cultural como uma das principais razões de suas viagens. ''Pesquiso a vida das pessoas, faço comparações com o nosso País, conheço outros costumes, outras comidas. É a melhor coisa do mundo'', recomenda. n

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