Sem efeitos colaterais
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quinta-feira, 16 de outubro de 2003
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
Ser casado com um médico ou médica não é tarefa fácil. Os plantões, a rotina corrida e as chamadas de urgência nem sempre são aceitos pelo companheiro e podem causar discussões dentro de casa. Mas, e quando marido e mulher levam a mesma vida estressada de hospitais e clínicas? O que para muitos pode parecer ainda pior, é visto como vantagem para casais bem-sucedidos. Para eles, o companheirismo e a compreensão são os ingredientes básicos para a união. Eles dividem a paixão pela medicina e driblam muito bem a falta de tempo.
União que superou desafios
Como boa parte das histórias de médicos que se casam, os clínicos Isaías Dichi, 50 anos, e Jane Bandeira Dichi, 52 anos, se conheceram na faculdade, durante o último ano do curso. É Isaías quem conta qual foi a primeira impressão que teve da futura esposa. Ela fazia plantão às quintas-feiras e eu, às sextas. Não sabia quem ela era, mas sabia que era uma excelente profissional porque sempre que ela fazia o plantão de quinta, eu não precisava fazer muita coisa na sexta, ela já tinha feito tudo, lembra. O contato pessoal aconteceu na residência médica. Por acaso, eles escolheram o mesmo tema e tiveram o mesmo professor orientador. Ainda nessa época, no final da década de 1970, eles moravam na cidade do Rio de Janeiro e tinham o mesmo sonho de morar em outro local. Foi quando surgiram duas vagas para o Hospital Universitário da UEL, exatamente na área na qual os dois tinham se especializado: semiologia em clínica médica. Mais uma vez tivemos a sorte da coincidência. Fomos chamados para ocupar as duas vagas e nos mudamos para Londrina em 1981, explica Jane.
Apesar do destino a favor do casal, a instalação na nova cidade e a adaptação não foram fáceis. Jane afirma que se não fosse a presença do outro, talvez a mudança não tivesse sido para sempre. Mudar para um lugar onde você não conhece ninguém é muito difícil. Se não tivéssemos um ao outro, acho que teríamos desistido. Os dois são realmente um exemplo de união e companheirismo. Fizeram mestrado e doutorado juntos e trabalham juntos até hoje no HU. O problema de tempo não existe porque ambos trabalham em pesquisas e possuem horários mais fixos. O tempo livre eles passam com o filho adotivo, José, de 5 anos. Somos parecidos e conversamos muito sobre tudo. Passamos por várias dificuldades e nossa cumplicidade nos ajuda a superar desafios. Acho que se não trabalhássemos na mesma área, não teria dado certo, diz Jane.
Falta tempo, mas sobra amor
A história do casal Maria Regina Corzânego do Amarante, médica especialista em estética, 51 anos, e Antônio do Amarante Neto, oncologista, 52 anos, é daquelas que parecem ter tudo para dar certo. Os dois se conhecem desde crianças, da cidade de Cornélio Procópio. Os pais, também médicos, trabalhavam juntos e foi assim que o namoro começou, ainda na adolescência. Quando chegou a época da faculdade, o casal se separou quando Antônio veio para Londrina estudar medicina e Maria Regina ficou na cidade natal estudando Letras. De tanto ele insistir, desisti da faculdade de letras e vim estudar medicina na UEL também, conta ela. Se casaram em 1974, antes mesmo de terem terminado os estudos. Quando ele precisou ir para São Paulo fazer residência, ela parou os estudos e foi junto. Voltaram para Londrina e trabalharam juntos por dez anos. Nessa época o convívio era maior.
Trabalhando em áreas diferentes, sobra pouco tempo para ficarem juntos. Ela tem horários mais difíceis. Trabalha mais na hora do almoço e depois das cinco da tarde, enquanto eu tenho horários mais comerciais. Mas à noite estamos sempre juntos, esclarece ele. Por serem filhos de médicos, ambos estão acostumados com a rotina corrida da profissão e afirmam que nunca brigaram por falta de tempo. Maria Regina diz que quem reclamava eram os filhos, quando pequenos. Eles diziam que a gente só falava de medicina sempre que estava em casa. Hoje nos policiamos para evitar assuntos de trabalho em casa, explica. Os dois se revezavam no cuidado com os filhos e reconhecem que é mais fácil a relação entre pessoas com as mesmas profissões. Acho mais difícil um médico se dar bem com alguém que não é médico e não entende a nossa rotina. Conversamos muito e somos muito amigos por isso, afirma Maria Regina.


