Imagine comprar um móvel que possa ser usado como mesa de refeição, estante, mesinha de centro e aparador. Impossível encontrar tamanha funcionalidade no mercado? Sim, mas no meio acadêmico o tal móvel já existe. O dono da idéia é Rodrigo Colombo Sanches, formando do curso de Desenho Industrial, com habilitação em projeto de produto, da Unopar.
Apresentado como trabalho de conclusão de curso, o projeto teve a orientação da professora Cristiane Affonso de Almeida Zerbetto e foi resultado de uma pesquisa que envolveu aspectos mercadológicos e culturais. Apesar da atual tendência de móveis funcionais, descobriu-se que não havia peças desse tipo no mercado. Outra questão detectada é que os espaços nas residências estão ficando cada vez menores. ‘‘Fiz entrevistas com cerca de 100 profissionais liberais em Londrina. E mais de 50% residem em apartamentos para quatro pessoas, em média. Foi também perguntado se comprariam um móvel multifuncional e mais de 90% disseram que sim’’, conta Rodrigo.
Feito em madeira de cores contrastantes (dos tipos goiabão e sucupira), catalogadas pelo Ibama, o móvel é composto de um tampo e oito banquetas. A principal proposta é usá-lo como mesa de centro, que pode ser quadrada, redonda ou oval, graças aos diferentes encaixes das peças. A estrutura principal tem uma rosca central, que permite aumentar a altura do tampo, possibilitando o uso como mesa de refeições. Mesinhas de canto, aparadores e estante são outras formas de utilização possíveis.
Rodrigo ressalta a preocupação com a ergonomia. As banquetas têm medida adequada ao uso em refeições e a mesa apresenta curvatura nos cantos para melhor acomodação dos usuários. As formas arredondadas e retas do móvel são resultado da pesquisa feita com os índios caigangues do Paraná. ‘‘As duas grandes famílias que dividem a aldeia são representadas pelo círculo e pelo traço. Funcionam como uma espécie de sobrenome para eles’’, explica Rodrigo. Já os filetes marchetados do tampo da mesa são uma referência ao traçado das cestarias.
O resgate da cultura indígena ganhou destaque este ano no curso de Desenho Industrial da Unopar. Outra formanda que buscou inspiração no assunto foi Flávia Rodrigues Nunes, que criou uma minicoleção de jóias multifuncionais, também sob a orientação de Cristiane. ‘‘Produtos desse tipo deveriam vir com uma etiqueta contendo um texto explicativo sobre a cultura que se está resgatando, para que isso seja passado de geração a geração’’, observa a orientadora.
Referências brasileiras A consciência sobre a necessidade de valorizar a identidade nacional também conduziu o trabalho da formanda Gabriela Diez Garisto. Sob a orientação da professora Ana Paula Perfetto Demarchi, ela escolheu o Pantanal como tema e inspiração para sua pequena coleção de jóias, composta de brincos, anel e colar. ‘‘É uma região tão rica – única a ter cerrado, caatinga e vegetação amazônica – que me possibitou usar vários elementos representativos’’, justifica ela. A criação das peças foi baseada em uma pesquisa feita em Londrina para saber o que as pessoas pensavam sobre o lugar. ‘‘A primeira coisa que vinha à cabeça delas era a água, que rege todo o ciclo de vida no Pantanal’’, relata.
A idéia então, foi procurar elementos que dão idéia do movimento das águas, como a corrente que fica entre os pingentes. ‘‘Misturei diferentes lapidações para representar a falta de monotonia do Pantanal, pois a paisagem muda a toda hora por causa das chuvas’’, explica Graziela, que usou ouro fosco e polido. As pedras utilizadas, todas provenientes da região, foram ametista, calcita e diamante, que representam as tonalidades das flores do ipê: branco, roxo e amarelo. Quartzo rutilado e safira também estão previstas no projeto.
A proposta é que a escolha das pedras fique a cargo do cliente, já que a jóia é composta e pode ser comprada por partes. ‘‘Para que não haja uma peça igual a outra’’, justifica Graziela. O sândalo é outro elemento presente na coleção. ‘‘É uma madeira bastante usada pelos índios bororos, tribo que mais produz adornos na região’’, informa. Vem de lá também a inspiração para o trançado do colar em ouro 18 quilates. As peças serão produzidas e comercializadas pela Diez & Diez Joalheiros.
De acordo com Ana Paula, a idéia de trabalhar com elementos nacionais vem da necessidade de romper com a cultura da cópia, tão arraigada no Brasil, levando referências brasileiras para o exterior. ‘‘Hoje, com a globalização, todos têm condições de usar a mesma tecnologia. O elemento diferenciador é o designer’’, observa a professora. Ela também foi a orientadora do trabalho, apresentado ano passado, pela designer Cristiane Tavares, que criou anéis inspirados no tema natureza mística, representando os elementos terra, água, fogo e ar com diferentes pedras e ligas de metais.

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