Saúde - Meias-palavras
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quinta-feira, 24 de abril de 1997
Rosângela Vale 
Mário CésarOs pais nunca devem terminar a frase para o filho, nem recriminá-lo, corrigindo palavras ou ordenando que fale direito, diz a fonoaudióloga Rosinei CernescoA gagueira é um defeito de coordenação entre a respiração e a articulação da fala, que leva a um bloqueio da palavra ou à repetição das sílabas. O problema acontece com frequência nos primeiros anos de vida, e geralmente causa aflição nos pais. Chamar a atenção da criança, no entanto, só piora a situação. Segundo os especialistas, a ansiedade da família é muitas vezes responsável pela continuidade da gagueira durante a vida adulta.
Existe uma fase do desenvolvimento da fala - por volta dos três aos cinco anos de idade - em que há um aumento do vocabulário da criança. Na ansiedade de querer participar das conversas, ela acaba tropeçando nas palavras. O curso do pensamento é mais rápido que o curso da fala, explica a fonoaudióloga Rosinei Cernesco. Segundo ela, essa gagueira é chamada de fisiológica, e na maioria das vezes restringe-se à infância, tendendo a desaparecer com o domínio das situações comunicativas. Mas é preciso alguns cuidados para que o problema não se instale definitivamente.
Agir com naturalidade é fundamental. Os pais nunca devem terminar a frase para o filho, e nem recriminá-lo, corrigindo palavras ou ordenando que pare de falar ou fale direito. Também não devem comentar com outras pessoas, na frente da criança, que ela está gaguejando, tampouco chamá-la de gaga. É importante conversar com os professores para evitar que ela seja ridicularizada pelos colegas na escola, orienta a fonoaudióloga. Outra regra básica é olhar bem nos olhos da criança enquanto ela fala, escutando calmamente e mostrando interesse no que ela tem a dizer.
Foto: ArquivoDe acordo com a psicóloga Sandra Flores, uma das formas de amenizar o problema é proporcionar à criança atividades que lhe devolvam a auto-estima
Causas emocionais Rosinei recomenda que os pais observem as variações de fluência no dia-a-dia do filho. Nos dias em que ele está mais fluente, deve-se proporcionar jogos que estimulem a fala; o inverso vale para quando ele está disfluente (com gagueira acentuada): as melhores atividades são aquelas que fazem com que a criança fale pouco, como ler e assistir a filmes, observa.
De acordo com ela, é de extrema importância que a família busque orientação profissional assim que perceber que a criança apresenta gagueira. Existem dois tipos de procedimento fonoaudiológico: a intervenção indireta, se a gagueira for fisiológica, com orientação aos pais e observação periódica; e a intervenção direta, com terapia, se a gagueira já estiver instalada.
A duração do tratamento depende muito da colaboração da família e da boa aceitação da criança. Segundo a fonoaudióloga, se tudo correr bem, em um ano, em média, consegue-se uma fluência maior. Mas é importante trabalhar em conjunto com outras áreas, como psicologia e neuropediatria, salienta.
Geralmente, os fonoaudiólogos encaminham um paciente ao neurologista para certificarem-se de que não há nenhuma lesão orgânica ou cerebral determinando a gagueira. O neurologista funciona como um triador, checando se o sistema nervoso da criança está íntegro para que o fonoaudiólogo ou o psicólogo trabalhem de forma tranquila. Mas em 95% dos casos, o problema está relacionado a causas emocionais, esclarece a neuropediatra Regina Coimbra.
O ambiente familiar pode ser um dos responsáveis pelo aparecimento da gagueira. O alerta é da psicóloga Sandra Flores, que vê o problema como um sinal de que alguma coisa está errada na educação da criança. Pais muito exigentes e perfeccionistas, que impõem normas muito rígidas, acabam contribuindo para a formação de um superego extremamente crítico, fazendo com que a criança desenvolva o medo do fracasso e torne-se uma pessoa tensa e ansiosa. De alguma forma, ela vai ter que colocar isso para fora. Algumas crianças roem unhas ou alimentam-se mal, outras começam a gaguejar, explica.


