Saúde - Fumar, um hábito desnecessário
Fumar,
um hábito
desnecessário
Cleide Cavalcante
Agência Estado
Arquivo FolhaO problema traz riscos sérios à saúde, e a possibilidade de deixá-lo está atrelada a uma mudança do padrão cerebralPara o psiquiatra Sidney Chioro, fumar não é um vício mas um hábito. Independentemente de sexo ou idade, o problema traz riscos sérios à saúde, e a possibilidade de deixá-lo está atrelada a uma mudança no padrão cerebral. Desta forma, o tratamento, que consiste em sessões semanais, está calcado também numa profunda abordagem psicológica. Segundo o especialista, os resultados são bastante positivos, desde que se cumpra o processo até o fim. Quando a pessoa pára de fumar, melhora o contato dela com o mundo e consigo. Isso porque tudo o que saía pelo cigarro, passa a sair de forma clara e bem colocada, explica.
Agência Estado Quando se decide parar de fumar o que é mais importante, a decisão ou o desejo?
Sidney Chioro O desejo, por que se a pessoa não tiver vontade ela não consegue. Às vezes, a vontade surge pelo desejo de se ter uma vida mais saudável. Na verdade, não importa a origem da vontade, desde que venha da própria pessoa. Forçar não resolve.
Agência EstadoSó fuma quem quer?
Chioro Não. Observamos muitas pessoas que não querem e fumam. Nós não fazemos o que queremos, fazemos o que nosso cérebro está preparado para fazer. Portanto, se o cérebro do indivíduo tem o padrão que pede para fumar, enquanto esta condição não for desfeita, ele vai continuar fumando.
Chioro O grau de dificuldade para largar o vício pode ser maior ou menor, dependendo da pessoa ou do tempo que ela fuma?
Chioro Sim. Quanto mais tempo se fuma, maior é a dificuldade, sem dúvida. Também a ligação com o cigarro varia de pessoa para pessoa.
Agência Estado Quem tem mais facilidade para deixar o cigarro?
Chioro Depende muito. Minha experiência profissional mostra que está mais relacionado com o tempo que a pessoa fuma, do que ser mais jovem ou mais velha.
Agência Estado Como é o seu trabalho neste sentido?
Chioro O paciente faz uma consulta semanal de 1 hora. Durante os 30 minutos iniciais, a pessoa desenvolve um trabalho com técnicos especializados para identificar as emoções que saem pelo cigarro. Neste momento, o indivíduo é colocado diante de situações que vão mexer com as emoções dele. Um equipa
mento é colocado diante dele e surgem, então, situações que podem ser cenas, imagens ou perguntas, que vão fazê-lo sentir algo. Funciona como estímulo emocional. Assim, ele vai aprendendo a identificar e a lidar com as emoções. Em seguida, um técnico vai ensiná-lo a colocar estas emoções no lugar correto. Ele vai aprender a lidar com a raiva, a angústia, a tristeza e as demais emoções na medida em que ele as identifica e as utiliza corretamente. Ao passo que, automaticamente, vai diminuindo o número de cigarros, já que a necessidade de fumar é reduzida.
Agência Estado Além do hábito, outros fatores também fazem com que a pessoa fume?
Chioro Além da pessoa ter emoções saindo pelo cigarro, tem ainda a questão da dependência química. O hábito é resolvido através de um descondicionamento e a dependência química desaparece progressivamente, pelo fato de nesse processo a pessoa fumar cada vez menos.
Agência Estado Qual é a maneira certa para se parar de fumar, aos poucos ou de uma só vez?
Chioro Uma vez que o cigarro está sendo o canal por onde muitas emoções encontram vazão, não se pode simplesmente parar de fumar de uma hora para outra. Corre-se o risco de fazer com que tensões e ansiedades encontrem outro ponto de fuga. Elas podem sair por outro órgão do corpo e acarretar problemas até sérios. Se a saída encontrada forem, por exemplo, as artérias, a pessoa pode apresentar pressão alta. O correto é a pessoa parar de fumar através de um método que identifique quais emoções estavam saindo pelo cigarro e fazer com que elas saíam pela via correta.
Agência Atualmente vemos um número cada vez maior de ex-fumantes...
Chioro Na minha avaliação o que existe é um movimento geral, sociedade, governo, etc... Estão sendo tomadas medidas de conscientização sérias, já se percebe uma ostensiva distinção com relação aos fumantes. A exposição médica do que já foi comprovado, a maneira concreta que está sendo colocado o fator altamente prejudicial à saúde e sua ligação com doenças graves podem ser também fatores responsáveis por esta nova realidade social.
Agência Estado Qual é a margem de sucesso do tratamento?
Chioro Varia de pessoa para pessoa. Acho que os que iniciarem o tratamento não devem abandoná-lo antes dos três meses, mesmo se parar de fumar antes. O tempo mínino de tratamento é de três meses, o tempo médio é de três a seis meses. Têm pacientes que levam mais tempo. Porquê para nós não é suficiente parar de fumar. É necessário que as emoções que levavam o indivíduo a fumar se estabilizem através de outras vias. Nossa grande preocupação não é fazer com que a pessoa pare de fumar, é fazer com que ela não volte a fumar. E, também, não correr o risco de ter outros problemas. Por exemplo, parar de fumar e engordar. Neste caso, não há progresso nenhum, já que as emoções que saíam pelo cigarro, passaram a sair pela comida.
Agência Estado - Porque isto acontece?
Chioro - Se a pessoa fez o tratamento na clínica, ela não assimilou o que foi explicado. A bebida, as drogas, o jogo são fugas da realidade, enquanto que o impulso de fumar, comer e comprar não são fugas, são lutas na direção errada. Os tratamentos para viciados são totalmente diferentes daqueles para os impulsivos.
Qual é a margem de sucesso do tratamento?
Chioro - Se o tratamento for seguido direitinho, o sucesso é garantido. Vale destacar que, muitas vezes, a pessoa pára de fumar e acha que já está em condições de alta, mas não está. Ela parou, mas não aprendeu a lidar com determinadas situações. Portanto, há o risco de ela botar as emoções novamente no cigarro. O paciente tem de aprender a lidar com um momento de tensão, por exemplo, com uma sólida postura para buscar soluções viáveis.
Serviço
Sidney Chioro - Neurologista, psiquiatra e professor livre-docente de psiquiatria, da Faculdade de Medicina da USP.
Tel/Fax: (011) 881.4203





