Saúde - Brincando com o perigo
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quinta-feira, 20 de março de 1997
Cleide Cavalcante Agência Estado 
As mulheres estão mais expostas à doença porque elas se infectam com mais facilidadeAs campanhas publicitárias de combate à Aids estão mais inteligentes. Quem faz esta afirmação é um dos maiores especialistas no assunto, o médico cancerologista Dráuzio Varella. Há uma aceitação maior quanto ao uso de preservativos. Enfim, observamos mais cuidado nas relações sexuais. As pessoas não estão saindo mais com qualquer um como há 10 anos. Também houve muito avanço nesta área, diz Dráuzio. No entanto, ao lado destes aspectospositivos estão os negativos. Entre estes, destaco o preço da camisinha, que ainda é muito alto. Não adianta ter campanhas aconselhando a população a usar a camisinha, se ela não é acessível, acrescenta ele, que deu esta entrevista à Agência Estado.
Agência Estado Como o senhor vê a notícia de que o Laboratório Farmacêutico do Estado de Pernambuco (Lafepe), principal fornecedor de AZT para o Ministério da Saúde, deixou de produzir milhões de comprimidos utilizados para combater os efeitos da Aids por falta de pagamento?
Dráuzio Varella Eu acho que a situação da saúde pública no Brasil está chegando perto do colapso. Temos um modelo errado que vai cada vez mais para o fundo. É como um buraco, quanto mais se tira terra mais fica fundo. Ninguém responde por isso. De quem é a culpa? Não é de ninguém. Na Casa de Detenção de São Paulo, por exemplo, não tem mais o medicamento Etambutol para o tratamento da tuberculose. Não temos opção, ou seja, outro medicamento para substituí-lo. Sem ele, o bacilo da tuberculose fica resistente. Assim, a doença pode contaminar a população de uma forma geral. Isso é muito sério.
A sociedade joga tudo nas mãos do governo
Agência Estado Como o senhor acha que o governo trata da questão da Aids? O que precisaria ser feito e que ainda não foi?
Dráuzio Varella Acho que a Aids não é só uma questão do governo, a sociedade tem de fazer uma porção de coisas mas, ao contrário, joga tudo nas mãos do governo. Por outro lado, o governo podia fazer muita coisa, mas ainda não fez. Não é só fazer campanha. Ninguém fez mais do que eu sozinho, mas fiz porque quis. Achei que devia e não estou falando isso para aparecer. Essas campanhas do governo são como as de um BMW. Quem pode comprar? Esse é o caso da camisinha, que custa caro, cerca de R$ 1,00. Um jovem quando sai com a namorada usa uma média de três camisinhas. Só aí já vão R$ 3,00. Estamos brincando de prevenção à Aids.
Agência Estado Por que o preço da camisinha é tão alto no Brasil?
Dráuzio Varella Tem o imposto que não tiram. Parece que é de 20% ou 30%. O governo quer ganhar dinheiro em cima disso? O que o governo tem de fazer é chamar as multinacionais e ver como fazer um preço mais baixo, perto de 20 centavos. Se o que custa caro é o involúcro, não precisa disso. O importante é ter acesso fácil. A transmissão da Aids é muito rápida. Eu pego o vírus, tenho relação com três mulheres e, consequentemente, as contamino. Elas irão contaminar seus parceiros e estes passarão a doença para mais uma infinidade de pessoas. É como uma árvore que vai dando galhos, que se dividem em dois, três, quatro. Agora, se eu tivesse usado camisinha nas minhas relações, teria cortado o tronco da árvore. Tem de ter prevenção, porque para tratar a doença nem todo mundo tem dinheiro para isso.
Agência Estado E a única forma de prevenção é a camisinha?
Dráuzio Varella Exato. A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem uma estratégia de combate à Aids. Segundo esta entidade, o combate deve ser feito impedindo que as pessoas peguem o vírus. E como fazer isso? As pessoas vão ter de deixar de transar? Não. A OMS diz que a Aids é uma epidemia mundial, e que a camisinha é o principal meio de prevenção. Isso é básico, tão simples e fundamental e ainda estamos vendendo caro este produto. É preciso popularizar a camisinha, ela deve ser mais barata. Seria bom que a camisinha fosse distribuída à população. A Tailândia é um bom exemplo a ser seguido. Lá, a epidemia atingiu proporções alarmantes na década de 80. Agora estão distribuindo camisinhas para a população de risco. O Exército também está colaborando muito. Com esse trabalho estão conseguindo reduzir significativamente a velocidade da disseminação da doença.
Agência Estado E com relação à capacitação dos profissionais médicos?
Dráuzio Varella Olha, eu acho que avançamos muito nessa área. Hoje vejo muita gente preparada para tratar da Aids. Há 10 anos, eu tinha sérias preocupações. Hoje não é assim. Vejo meninos recém-formados fazendo tudo direitinho. Temos uma boa cultura médica. Ainda falta muito, mas dá mais esperança agora. Há também uma maior aceitação da doença. No início, os médicos fugiam dos aidéticos, hoje isso não acontece mais. Mudou para melhor. A publicidade mudou também. O Brasil tem uma das publicidades mais avançadas do mundo. As coisas que vejo aqui, não têm em lugar nenhum do mundo. No Carandiru, por exemplo, temos um gibi de sacanagem que distribuímos para todos os detentos. Chama-se O Vira-Lata, no qual o herói é um ex-presidiário que não transa sem camisinha. O pessoal de outros países cai de costas quando vê a revista. Isso mostra que temos mais liberdade nessa área. Isso é excelente.
Agência Estado Esse coquetel de drogas é o que se tem de mais moderno? Quando ele é ministrado?
Dráuzio Varella Pela primeira vez temos drogas realmente eficazes. Em geral, o coquetel envolve três drogas, uma delas é o inibidor de protease, ou melhor, pelo menos uma delas. Mas ninguém sabe se o certo é utilizar três ou quatro tipos de drogas no coquetel. No momento, estamos aprendendo como utilizar e como combinar estes medicamentos. Quanto ao momento certo para utilizá-los, tenho a impressão que quanto mais cedo melhor. Mas isso não está provado ainda. Quanto mais eficaz o esquema, melhor também. A composição do coquetel varia conforme a experiência do médico e a aceitação dos remédios por parte dos pacientes. São muitas as combinações que podem ser usadas neste coquetel. O que é muito interessante é que um doente que tem acesso a essas drogas dificilmente irá morrer. Pacientes em estágio terminal já chegaram a engordar até 20 quilos em dois meses. São doentes que conseguiram se reestabelecer, voltar a vida ativa, a trabalhar. Este coquetel já estava disponível no comércio desde o ano passado. E, pela primeira vez, o Ministério da Saúde teve e agilidade de, em uma semana, estar aprovando seu uso aqui.
Agência Estado De acordo com pesquisas que estão sendo realizadas em todo o mundo, podemos ter esperanças de que se descubra um medicamento realmente eficaz, ou seja, a cura para a Aids?
Dráuzio Varella Acho que é difícil. Acredito que vamos caminhar para o controle da infecção, o que é uma maravilha. Um remédio que liquide o vírus totalmente já é mais complicado. Acho que pode ser possível para o indivíduo que acabou de pegar o vírus. Talvez haja possibilidade de eliminar o vírus neste momento inicial, mas depois que a infecção se estabeleceu é difícil. Estamos trabalhando para conseguir eliminar totalmente o vírus da Aids, há vários trabalhos no mundo vendo isso. Entretanto, a curto prazo não vejo a cura definitiva.
Agência Estado Em sua opinião, a incidência de casos de Aids está aumentando, diminuindo ou se mantendo estável?
Dráuzio Varella Está aumentado. O Ministério diz que tem 90 mil casos no País. Não podemos levar este número em conta pois a subnotificação é muito grande.
Agência Estado O perfil do grupo de risco mudou? Quem está mais exposto à doença?
Dráuzio Varella Hoje as mulheres estão mais expostas à doença porque elas se infectam com mais facilidade. Elas estão, economicamente, numa posição inferiorizada com relação aos homens. Isso as deixa mais vulneráveis.q


