Saúde - Aliviando a Dor
Aliviando
a Dor
Preparar a criança psicologicamente para uma cirurgia é fundamental para que o processo não seja tão traumático
Celso Mattos
Marcos BorgesA falta de informação faz a criança dar ao problema uma dimensão errada, afirma a psicóloga Eliana LouvisonA notícia de que um membro da família precisa se submeter a uma cirurgia é sempre motivo de preocupações. Dependendo da gravidade da doença, a rotina familiar muda da noite para o dia. Além da preparação pessoal, é preciso buscar forças para passar tranquilidade ao paciente. A situação se torna ainda mais complicada quando o caso envolve uma criança. Encontrar formas de prepará-la para enfrentar uma cirurgia é outro desafio que os pais precisam superar.
Como responder às constantes perguntas? É melhor contar a verdade ou maquiar o problema com pinceladas do imaginário infantil? Para a psicóloga clínica Eliana Louvison, quanto mais informada a criança estiver sobre o assunto, menos traumático será o processo cirúrgico. Não é preciso entrar em detalhes dando informações sobre coisas que ela não vai presenciar porque estará anestesiada. Porém, não adianta enganá-la dizendo que não vai doer. Ela vai acordar cheia de pontos e sondas que vão incomodá-la por vários dias. A criança tende a associar dor a castigo, portanto, se não estiver bem-informada vai achar que está sendo punida por alguma coisa, explica a psicóloga.
Artíficio Para repassar à criança os esclarecimentos necessários, os pais precisam estar munidos de informações, por isso, não podem ter pudor de questionar o médico. A falta de conhecimento sobre um assunto faz a pessoa fantasiar a situação dando ao problema uma dimensão que nem sempre corresponde à realidade. Isso vale tanto para os pais quanto para a criança. Sabendo exatamente o que vai acontecer, o medo continua, mas será um medo real e não fantasiado, afirma Eliana.
Arquivo/FLPara o cirurgião pediatra Lúcio Marchese, a verdade não pode ser escamoteada
Segundo a psicóloga, outro procedimento errado é cobrar da criança que ela seja forte, que não chore e que não tenha medo. O pai, por exemplo, tem mania de usar esse artíficio com o menino. Esse tipo de cobrança deixa a criança ainda mais estressada porque ela sequer pode externar seus sentimentos. É uma carga a mais para ela carregar. Não é justo que os pais cobrem isso do filho quando, no fundo, eles também estão se borrando de medo e chorando pelos cantos.
Dinâmica familiar Para o cirurgião pediatra Lúcio Tedesco Marchese, em alguns casos, a preparação deve estar mais voltada para os pais do que para a criança. Principalmente quando se trata de uma cirurgia de emergência ou quando o paciente tem menos de 4 anos. Nestes casos, o mais indicado é procurar diminuir a ansiedade da família, porque a criança tende a reproduzir a dinâmica familiar, afirmar o cirurgião.
Em se tratando de cirurgias eletivas e que envolvem crianças acima de 4 anos, os pais precisam estar bem-esclarecidos para responder a todas as perguntas do filho de forma simples e sem escamotear a verdade. Porém, sempre evitando o excesso de detalhes que ao invés de ajudar, acaba prejudicando. Marchese ressalta também que quando não há risco de agravamento do quadro clínico, deve-se adiar a cirurgia por uns tempos em situações de separação ou morte recentes na família.
O cirurgião pediatra diz que outro dado que precisa ser levado em consideração é que a partir dos 6 anos de idade, a criança passa a ter noção do que é a morte. Ela não entende exatamente como isso acontece, mas sabe que significa uma separação definitiva da família, uma viagem sem volta para um lugar desconhecido. Em alguns casos, o medo faz com que ela entre num processo de reclusão, evitando falar na doença. Isso é muito comum quando se trata de quadros graves como, por exemplo, tumores malignos.
Comportamento A criança que sofre desse tipo de doença mantém contatos constantes com outras que sofrem do mesmo mal em clínicas e hospitais. Com o tempo, ela vai percebendo que algumas vão desaparecendo e começa a questionar os pais para aonde elas foram. Além disso, nesses lugares sempre rolam comentários que ela acaba ouvindo e processando de uma forma muito particular. Para a criança, isso é visto como um castigo, cujo motivo ela desconhece. Mas, graças ao avanço da medicina, muitas conseguem superar a doença e ter uma vida normal, diz Marchese.
O médico salienta que os pais precisam estar preparados para possíveis mudanças no comportamento de uma criança que passa por vários processos cirúrgicos. Tivemos o caso de uma menina que depois de fazer quatro cirurgias, começou a abrir a barriga de todas as suas bonecas. A criança leva para seu mundo particular a realidade em que está vivendo. Por esse motivo, é fundamental que os pais e os profissionais estejam preparados para orientá-la sobre tudo o que está acontecendo e ajudá-la a superar esses momentos dolorosos, aconselha o médico.





