Saúde - A fidelidade em tempo de Aids
Segundo a coordenadora do Programa Municipal de Prevenção à Aids, Cristina Gil, é complicado falar de prevenção quando os indivíduos se julgam fora de perigoA questão da Aids é bem mais grave do que parece. O aumento da doença em mulheres casadas, e nas mulheres de maneira geral, está despertando médicos e autoridades para um fato complicado: as campanhas de prevenção devem ser mais específicas e encontrar mecanismos mais eficazes de conscientizar a população, apesar dos preconceitos em torno da doença.
A Aids avança assustadoramente. No Brasil, até o ano 2000, a previsão é de que a proporção de infectados entre homens e mulheres, que hoje é de 2,9 homens por 1 mulher, seja praticamente igual. É preciso que se entenda que há muito a Aids saiu dos principais grupos de risco: homossexuais, bissexuais, hemofílicos, drogados e prostitutas. Hoje, ela atinge a todos sem distinção.
Valores Segundo Cristina Gil, coordenadora do Programa Municipal de Prevenção à Aids, o grande problema é que as pessoas ainda têm dificuldade em dissociar a doença dos grupos de risco. Nesse sentido, fica difícil trabalhar com programas de prevenção, pois as pessoas se julgam fora de perigo porque, teoricamente, não mantêm comportamentos de risco, diz.
No entanto, a verdade é que a Aids levanta um diálogo mais profundo a respeito das relações, inclusive no que diz respeito à fidelidade. Como fazer então? No Brasil, o alto índice de contaminação entre mulheres casadas vem aumentando e é preocupante. Algumas campanhas, embora de forma acanhada, quiseram bancar a idéia de que, mesmo no caso de parceiros fixos, as pessoas devem buscar a prevenção através do uso de preservativos. Só que aí esbarram justamente em sentimentos e valores como o amor, a confiança e a fidelidade.
E, nesse aspecto, os argumentos são fortes. Na opinião de Suzane (que prefere não revelar seu nome verdadeiro), a situação é delicada. Porém, como uma mulher consegue fazer com que seu marido use camisinha? Seria o mesmo que admitir a traição ou a sua possibilidade. Sem confiança é impossível manter um relacionamento. Acho que aqui vai a responsabilidade dos dois. Do traidor em entender que há consequências, e do traído em perceber o que está havendo e tomar uma decisão. Se uma pessoa quer manter a chamada relação aberta, então é melhor que ambas saibam, pelo menos, que devem buscar proteção para não estar pegando doenças lá fora e trazendo-as para dentro de casa, diz.
Equívoco Para Marcela (que também não quer se identificar), aceitar a traição, independentemente da Aids, é aceitar uma agressão e fingir que nada está acontecendo. A maioria das mulheres que está sendo traída, no íntimo sabe o que está acontecendo. Acho impossível que a pessoa não perceba. Se a relação está mal, se o marido não pára em casa, como não perceber que alguma coisa está errada? O problema é que algumas mulheres aceitam essa situação por comodismo, argumenta.
A relação que Marcela mantém com o marido, segundo ela, é a base de sua confiança. Nós somos muito amigos, temos uma relação baseada no diálogo. Por isso, eu confio muito nele. Como vou exigir que ele use camisinha? Ele vai dizer: Escuta aqui, se eu tenho certeza que não saio com ninguém além de você, porque você quer que a gente use preservativo? Não acredito que ele possa pular a cerca. Não é do feitio dele. Se um dia ele se apaixonar por outra, daí a história é diferente. E isso pode acontecer a qualquer um, mas tenho certeza que antes de assumir uma relação assim, ele vai chegar e conversar. Não conseguiria manter uma vida dupla, acredita Marcela.
Para a coordenadora Cristina Gil, o grande problema é que, embora a fidelidade faça parte de alguns valores que foram padronizados pela sociedade, na prática ela não acontece da forma como se gostaria. Outro equívoco comum é as pessoas acreditarem que precisam ser promíscuas (no sentido que dão à palavra) para se contaminarem com Aids. Não entendem que um simples descuido pode ser fatal.
Responsabilidade Nesse aspecto, Marlene Zucolli, membro do Centro de Direitos Humanos de Londrina, acredita que a saúde pública também tem sua cota de responsabilidade nessa confusão que se faz em relação aos riscos. Apesar de se falar que não existem mais grupos de risco, que todos corremos perigo, acaba-se voltando a atenção apenas para esses grupos, revela.
O ginecologista e obstetra Lauro Vargas lembra que casamento seguro com sexo seguro pressupõe fidelidade
Quando uma prostituta vai em busca de um serviço de saúde, imediatamente é investigada a possibilidade da Aids. O mesmo não acontece quando uma dona-de-casa vai procurar o mesmo serviço. Ora, se uma mulher tem infecção vaginal de repetição ou displasia cervical, é preciso buscar um diagnóstico satisfatório. E a investigação do HIV está incluída. Porque esses também podem ser sinais comuns de manifestação da Aids, diz Marlene.
Para ela, é importante começar a olhar qualquer cidadão que tem queixas como provável portador do vírus. O que implica no direito a um diagnóstico precoce. A doença não tem cura, mas já tem controle, possibilitando ao paciente uma sobrevida bem maior se o diagnóstico for feito precocemente, lembra.
Diagnóstico Até para os médicos a questão da Aids não é simples de ser tratada. O médico ginecologista e obstetra Lauro Vargas lembra que é complicado abordar uma paciente casada sobre esse assunto. A não ser que ela tenha dúvidas e queira esclarecimentos. Como vou chegar para uma mulher que tem uma relação estável e perguntar se ela se cuida? Principalmente nas classes A e B, em que se considera que o nível de informação seja satisfatório.
Para Lauro Vargas, um casamento seguro com sexo seguro implica na fidelidade. Não há outra maneira. Um único deslize pode ser fatal. Para ele, a Aids está exigindo a reconsideração sobre valores a serem preservados dentro de uma relação, tornando-os uma questão de sobrevivência.
Realidade As pessoas precisam se conscientizar que a Aids é democrática, não discrimina ninguém. Tem uma grande massa de pessoas soropositivas que ainda não apareceram. No caso das mulheres casadas, vai ser muito difícil trabalhar a questão do uso de preservativo. Primeiro, porque sempre cabe à mulher o ônus da relação, e o preservativo seria mais uma negociação a ser feita, e depois, porque a questão envolve a discussão da própria relação entre as pessoas, afirma.
A solução do problema, tanto para Cristina Gil como para Marlene Zucolli, está na informação. Só na medida em que forem aumentando os diagnósticos e a saúde pública escancarar a realidade através dos números, deixando claro a situação, desnudando dúvidas e preconceitos, as pessoas entenderão que a discussão da sexualidade é fundamental. É necessário discutir a sexualidade desde a infância, através da própria escola, conscientizando para a situação, antes mesmo de os indivíduos iniciarem sua vida sexual.
Em tempo de Aids, as pessoas devem ter em mente que a maturidade e a sinceridade em suas relações são pontos fundamentais. Isso significa que, nos dias atuais, a fidelidade não é apenas uma questão de caráter, amor, lealdade ou respeito, é também uma regra de sobrevivência. É urgente que se entenda isso. q





