Sangria inútil?
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quinta-feira, 11 de maio de 2006
Ciça Valério<br> Agência Estado 
Uma enxurrada de críticas desabou sobre o ginecologista baiano Elsimar Coutinho quando, há dez anos, ele lançou o livro Menstruação, a Sangria Inútil (Editora Gente). Na época, muitos questionaram bravamente sua teoria, que destacava os benefícios da suspensão desse fenômeno feminino. Hoje, a polêmica continua, mas bem amena. Vários médicos já prescrevem esse método como tratamento de mioma, endometriose, sangramento excessivo, cólicas violentas, entre outras alterações.
Se menstruar fosse necessário, toda mulher grávida ou na menopausa estaria ferrada, diz Coutinho, sem meias palavras. Noventa por cento das doenças femininas em idade reprodutiva são decorrentes da ovulação. Mais da metade das pacientes que chega ao consultório de Coutinho quer se libertar da menstruação e dos incômodos relacionados à ovulação, entre os quais a famigerada TPM. E olha que o médico atende em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte e Salvador, totalizando mais de 400 pacientes por mês.
A ginecologista Lúcia Helena de Azevedo, membro da Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), confirma o crescente interesse. Interromper a menstruação tem se tornado uma conveniência social entre mulheres com vida sexual ativa e empresárias com vida agitada. Não impeço uma paciente de optar por esse sistema. Particularmente, sou a favor.
O próximo passo da médica será trocar seu DIU (Dispositivo Intra-Uterino) de cobre por um de progesterona (hormônio feminino), que interrompe a menstruação e, assim, ameniza a TPM. Ela observa, no entanto, que não há estudos que comprovem que os métodos usados para inibir a ovulação sejam totalmente inócuos. Os mais conhecidos são: pílulas de uso contínuo, implantes subcutâneos, DIU e injeção trimestral.
Segundo o médico Cláudio Bonduki, do setor de ginecologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o uso de hormônios sintéticos pode causar efeitos colaterais, como aumento de peso, retenção de líquido, secura vaginal, diminuição da libido. Claro que cada mulher reage de uma maneira. Há as que não sentem absolutamente nada e as que não se adaptam a nenhum método.
Cinco anos atrás, a atriz Ana Paula Arósio bem que tentou viver sem menstruar, mas não se adaptou ao tratamento. Desistiu da empreitada e, atualmente, encara normalmente aqueles dias. Marília Gabriela, por sua vez, é fã assumida do não-sangramento. Aos 57 anos e fazendo reposição hormonal por causa da menopausa, ela lembra muito bem dessa época: Quando entrevistei o Elsimar Coutinho, me encantei e coloquei implante subcutâneo. Fiquei sem menstruar por muitos anos e foi ótimo. Só vejo vantagem nisso, nunca tive efeito colateral. Não posso recomendar, pois cada um reage de um jeito.
Embora algumas mulheres abracem a causa por mera praticidade, o ginecologista Bonduki pede cautela na escolha. O método costuma ser indicado para tratamento de disfunções hormonais e para controlar ou minimizar sintomas que não conseguem ser resolvidos por outras vias, adverte. Em geral, o retorno à normalidade, após anos sem menstruar, pode ser demorado e ainda pode acarretar infertilidade nesse período.


