Que o salto é sexy e elegante ninguém duvida, mas e quanto à saúde dos pés? Como qualquer mortal, a ortopedista Cibele Réssio, especialista em pé e tornozelo e mestre em ortopedia e traumatologia pela Unifesp, já quebrou o próprio tornozelo por causa de um sapato com plataforma, segundo ela, menos inofensivo do que se pensa. ‘‘Como ele é mais confortável porque o pé fica paralelo ao solo, a mulher relaxa e, num descuido, ocorrem as torções. Com o salto agulha, ao contrário, é preciso atenção o tempo todo para se equilibrar’’, explica. A ortopedista é uma consumidora voraz a ponto do seu filho desviá-la das vitrines. ‘‘Tenho 400 pares, entre eles, vários de Fernando Pires, Channel e outros não tão famosos’’, conta.
  A paixão pelos sapatos levou-a à tese que defendeu em 1999 – A Avaliação Baropodométrica da Influência do Salto Alto em Mulheres. ‘‘Pensava em projetar um sapato de salto alto que não causasse dor. Mas a idéia não foi em frente.’’ Na época, a especialista mediu a pressão na planta dos pés de 10 mulheres, recrutadas no Hospital São Paulo. Foram estudados 40 passos de cada uma em quatro situações diferentes: descalças, com salto de 3 cm, de 6 cm e de 9,6 cm. Conclusão: a partir de 3 cm, todo salto alto, independentemente do tamanho ou formato, muda o modo como a pessoa pisa no chão e se equilibra.
  ‘‘Quanto maior o salto, menor a superfície de apoio, o que faz com que o peso se concentre nos dedos. As articulações ficam sobrecarregadas, causando dor, calosidades e deformidades ósseas como joanetes. Ainda há encurtamento da musculatura da panturrilha.’’ Para quem não abre mão dos escarpins e sandálias nas alturas, o jeito é fazer como a ‘‘médica fashionista’’, que até na maternidade usava chinelinhos de salto. ‘‘O ideal é intercalar o uso de saltos com modelos de sola plana e fazer alongamentos diariamente.’’
  Em contrapartida, uma pesquisa feita pelo professor e cirurgião vascular João Potério Filho, do Departamento de Cirurgia Vascular do Hospital das Clínicas (HC) da Unicamp, mostra que o uso do salto alto reduz a pressão nas veias das pernas e tem poder terapêutico. A compressão nas veias foi medida antes e depois de cada teste, quando mulheres usando saltos de 7 cm e 10 cm caminharam durante um minuto na esteira. Depois, descalças, elas repetiram os testes. ‘‘Com o salto, para se equilibrar, a mulher usa todos os músculos das pernas e a pressão nas veias.’’ O professor observa que quem começa a usar saltos cedo assume uma postura diferente e, com isso, acaba corrigindo possíveis defeitos ortopédicos, uma vez que é obrigada a contrair os músculos da perna com mais força.

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