Saldo positivo
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quinta-feira, 18 de março de 2004
Rosângela Vale<BR>Reportagem Local 
Pagamentos e depósitos costumam ser preocupações bem distantes do universo infantil, mas, para os alunos da sexta série do Colégio Maxi de Londrina, já fazem parte da rotina. Eles emitem cheques, conferem extratos e controlam a conta bancária com a dedicação dos correntistas mais exemplares, afinal, têm uma nota a preservar. Não exatamente aquela de valor monetário, mas a que vai garantir um saldo positivo no boletim escolar. Pelo menos em uma das matérias: a temida matemática.
''Gente, vocês têm que me pagar!'' ou ''O meu saldo não bateu!'' são algumas das frases que mais se ouve nas movimentadas aulas do professor Nilton César Salgueiro, 32 anos, que resolveu dar uma dimensão mais prática ao ensino das adições e subtrações. Os alunos têm aprendido o que são números inteiros, positivos e negativos por meio de um jogo, batizado de Sociedade Mercantil, cujo objetivo é o controle das contas bancárias.
A classe é dividida em grupos de nove alunos com profissões imaginárias (vendedor, dono de supermercado, açougueiro, médico, funcionário público), de modo que os gastos da turma estão todos interligados. Cada um deles recebe um talão que imita folhas de cheques e uma folha com espaço para anotar toda a movimentação bancária. Os exercícios consistem em efetuar e receber pagamentos determinados pelo professor e conferir os saldos. Desse modo, a interação entre os alunos torna a aula mais divertida e contribui para o aprendizado. ''A grande vantagem é que eles se tornam meus amigos. Fica mais fácil desenvolver as atividades, mesmo nas aulas mais convencionais'', diz Nilton.
Convencional, neste caso, não é exatamente a melhor palavra para definir as outras aulas do professor. Noções de multiplicação e divisão, por exemplo, são transmitidas por meio de vários tipos de jogos. No segundo semestre, os estudantes são orientados a inventar jogos a partir do conteúdo aprendido. O material é doado, no mês de outubro, a instituições de caridade. Para ensinar a fazer gráficos, Nilton aproveita a época de eleições e pede que os alunos façam pesquisas de opinião. Eles também saem pelo bairro medindo as ruas para construir maquetes.
''Existem bons professores que dão aulas com métodos tradicionais. Aprendi a gostar de matemática com um deles. Mas eu não saberia mais ensinar dessa forma'', observa Nilton, que têm recebido elogios dos pais dos alunos. ''Eles relatam que os filhos aprenderam a gostar da matéria'', conta. Os estudantes também aprovam: ''Já vou saber lidar com conta bancária quando tiver a minha'', diz Laís Martins, 11 anos. ''Acho bom porque está nos preparando para o futuro, para a vida lá fora'', comenta Matheus Merighi Bononi, 12 anos, ambos alunos da 6 série. Quem já passou pela experiência confirma a utilidade das aulas. ''No começo, foi complicado. Nunca tinha visto um extrato antes. A gente tem que pensar rápido, desenvolve mais o cálculo e o raciocínio'', observa Camila Cherubim, 12 anos, cursando a 7 série.
A idéia de trabalhar com noções contábeis nasceu da experiência de Nilton com alfabetização de adultos. ''Eles precisavam aprender matemática para aplicar no cotidiano'', lembra. Quando passou a aplicar o método nas aulas do currículo regular, ele teve um ótimo retorno. O assunto virou tema de sua monografia de especialização em Educação Matemática e prática constante no seu dia-a-dia profissional. ''Trabalhar dessa forma é gratificante'', diz. n


