Saiba dizer não
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quinta-feira, 08 de maio de 2003
Rosângela Vale<BR>Reportagem Local 
Em muitas famílias, a cena é bem comum: gritos, birras, ameaças de não comer e de não estudar e até confronto físico são reações corriqueiras dos filhos diante de um simples ''não''. Para se livrarem da situação seja pela falta de paciência em casa ou pelo constrangimento em ambientes públicos , os pais, muitas vezes, acabam cedendo aos apelos dos pequenos. A atitude é muito mais nociva do que parece. Ao não ensinarem aos filhos os limites dos próprios desejos, os pais estão semeando o terreno para o desenvolvimento de verdadeiros tiranos. Quem avisa é a psicóloga Fátima Conte, que traça um perfil desse comportamento infantil na entrevista a seguir.
A culpa é sempre dos pais?
Fátima Não gosto desse termo, porque parece que eles teriam outras alternativas e, na verdade, muitas vezes, eles não sabem como lidar, não têm escolha. Tentam controlar usando punição, castigos, tapa na bunda, retirada de privilégios, mas de um jeito inconsistente, uma hora sim, outra hora não. Pode-se dizer que boa parte do problema está na relação entre pais e filhos. Vamos pensar assim: quanto menor a criança, maior a porcentagem de responsabilidade dos pais nesse processo. Não é que seja culpa deles, mas geralmente são eles que treinam os tiranos.
Pais que são muito permissivos ou mimam demais a criança têm mais probabilidade de terem filhos tiranos?
Fátima Um pai que mima muito a criança, é muito permissivo, mas não cede às coerções, não modela um tirano. Ele pode criar uma pessoa com uma resistência muito baixa a frustrações, a limites. O problema acontece quando os pais começam a valorizar essa forma de coerção da criança como uma maneira de conseguir o que ela quer. E aí, cada vez mais, ela vai perdendo a sensibilidade para a necessidade do pai, da mãe, a capacidade de conseguir se colocar no lugar. Porque se o pai fala não e depois cede, então a criança percebe que tinha um jeito. Ela não tem a capacidade de analisar custo benefício a médio prazo, então, se o pai acabou cedendo, ela sabe que era possível, vai ficando na cabeça dela que ela pode cada vez mais. Os pais ajudam a criança a se enxergar como aquela que não pode ver seus desejos recusados, aquela que tem direito de coagir, de ser coercitiva, de ter o que deseja, então eles contribuem bastante. E a escola também. Muitas vezes, a criança repete isso na relação com o amiguinho, com o professor. E da mesma forma que os pais, é muito difícil lidar com isso.
Como o professor contribui para essa situação?
Fátima Às vezes, porque acaba deixando passar ou por não saber tomar certos tipos de atitudes em sala de aula. Aí, a consequência para a criança acaba sendo boa, então ela enfrenta o amigo, enfrenta o professor e ele não pode fazer muita coisa ou imagina que não pode frente a essa agressividade. Muitos desses problemas aumentaram porque a gente crucificou a punição como um conceito. Quer dizer, não se pode mais usar nenhum tipo de consequenciação aversiva para o comportamento da criança. Então, todo mundo ficou muito perdido com isso.
A própria psicologia contribuiu para agravar o problema?
Fátima A própria psicologia contribuiu, porque mostrou todos os efeitos ruins da punição, mas não colocou outra coisa no lugar. Por exemplo: se a criança começa com birra, então, num primeiro momento, já diga não e aguente. Se ela berrar, se ela espernear, se ela gritar, deixe, se retire, mas não ceda. Se ela, por outro lado, apresentar mais sensibilidade aos limites, se ela começar a quebrar essa idéia de que o desejo dela é uma ordem, valorize: 'puxa, como você está amadurecendo, que legal'. E aí dê o que ela está pedindo em outro contexto, de outra forma. A psicologia não orientou essa atitude mais complexa que seria a mais adequada para que a criança tivesse auto-estima, auto-confiança. Ela só riscou a punição. Então, o professor não sabe o que fazer, os pais não sabem o que fazer, acham que não podem punir. Na verdade, o que não pode é ter uma prática baseada no castigo.
Esse perfil de tirano, na infância, tem uma determinada idade para acontecer?
Fátima Não, existem bebês tiranos, que são birrentos, começam a berrar cada vez mais alto quando não são atendidos imediatamente. Os pais acabam indo atrás só quando as crianças berram muito. É difícil porque você não sabe a razão do choro do bebê, então, quanto mais pequeno, mais depressa você tem que atender, antes que ele precise berrar. O ideal é não esperar ele fazer esse show, para ele não começar a colocar uma regrinha na cabeça: se eu berrar muito, minha mãe vem. Daí cresce aquela criança birrentinha, que fala não para tudo, que chega aos dois, três aninhos, já é do contra com os amiguinhos, não divide brinquedos. Chega na adolescência, se isso não se interromper, vai se intensificando até virar um adulto coercitivo. É importante frisar que, se uma criança faz isso uma vez ou outra, mas sabe resolver os problemas de outra forma, a gente não pode colocá-la na classificação de tirano.
Que tipo de adolescente é o tirano?
Fátima É o mesmo padrão. O desejo é uma ordem. Eu quero a bolsa xis, a mochila tal. Atendi um menino uma vez que era expert nisso. Ele tinha 12 anos. Deixava de comer, mas escondia a comida para comer depois. Não estudava, não tomava banho. E é difícil pegar um adolescente e enfiar debaixo do chuveiro. Se os bebês já são assim é bom os pais ficarem atentos. Não tem uma idade em que esse padrão é normal. Não é normal ser tirano nunca. Nem criança, nem adolescente, nem adulto.
O adulto pode virar um tirano na acepção política da palavra?
Fátima Sim, pode ser um tirano político, na relação com os filhos, nas relações de trabalho, aquele chefe insuportável. Pode ser uma tirana também, embora seja mais frequente nos meninos, por causa da própria cultura, que associa isso a ser forte, macho. Então, um menino mais agressivo, mais tirano, mais coercitivo, é um menino que recebe menos repreensão do que uma menina. Ela chama muito mais atenção e é logo contida. Os meninos não, porque têm essa associação com masculidade, virilidade, controle, determinação e independência.
Que tipo de estórias são mais relatadas pelos pais?
Fátima Estórias que começam desde que a criança é bem pequena. Eles relatam muita dificuldade em lidar com isso, muito sentimento de culpa por estarem sabendo que são parte do problema, mas também por não saberem qual é a solução. Eles têm muito medo de a criança ter um problema interior muito sério, que gere isso. Eles usam punição e, quanto mais punem, mais piora. E aí acham que deve ter uma causa mais profunda, mas não é isso. É que a punição é o mesmo padrão da tirania. É a estratégia errada para lidar com o problema.
O segredo é não ceder?
Fátima O segredo é não ceder e reconduzir a criança. Por exemplo, a menina quer uma bolsa. Então, o que os pais podem fazer? Primeiro, mesmo se chorar e espernear, não ceder. Se for possível, em algum momento, devem negociar isso. Algo do tipo: 'economize um pouco da sua mesada', ou 'eu dou no seu aniversário'. Aí vamos pensar que ela venha com uma proposta que seja viável. E que não seja na base da coerção, como: 'E se eu pegar aquele dinheiro que ganhei da avó?' No caso de a resposta da criança não ser uma coerção, o pai e a mãe podem ceder. É isso que eu chamo de reconduzir. Criar uma situação para que ela apresente uma resposta diferente.
Você poderia dar outros exemplos de como os pais devem agir?
Fátima Tem criança que faz birra, fica vermelha, parece até que vai ter um troço no meio do supermercado. Passe vergonha ali, segure a criança firme, olhe bem firme para ela e diga: 'eu não vou comprar esse pote de sorvete hoje, porque nós temos muita sobremesa em casa. Eu venho comprar com você no sábado, só que você tem que parar com isso'. Aí, se a criança continuar, a mãe fala, 'acabou esse assunto, eu só vou conversar sobre o sorvete de novo no dia em que você se comportar de outro jeito'. E esquece. Se um dia a criança vier dizendo algo do tipo: 'aquele sorvete vai sair da promoção, sexta-feira você compra?' Está pedindo de outro jeito e está me respeitando, então, eu cedo. Isso é reconduzir. Tem que reconduzir e valorizar. E valorizar a sensibilidade com relação aos problemas das pessoas, valorizar o respeito, os limites. Sempre trabalhar com o avesso. Não é para usar muita punição. Pode usar a punição de retirar coisas, de ser mais duro, de segurar firme, mas só para ter a chance de reconduzir a criança e ela, entre aspas, dar a resposta certa para o problema e você valorizar. E se ela não sabe a resposta certa, você tem que ensinar. A pior saída é bater de frente, medir força.
Para muitas mães, é difícil ter todo esse jogo de cintura...
Fátima Porque, como mãe, a gente está exposta a uma porção de coisas. Primeiro, à falta de informação: tira a punição e põe o quê no lugar? Segundo, nunca fomos treinadas para fazer isso com ninguém, o que significa uma mudança no padrão de comportamento, não temos preparo para isso, é uma linguagem que pouca gente desenvolveu. Terceiro, a mãe de hoje está exposta a jornadas de trabalho cada vez mais extensas, filhos num ambiente cada vez mais complexo, mais longe dela. Hoje, ninguém mais se conforma em ser só mãe, a gente quer ser mãe, profissional, mulher, quer ter amigos, lazer... É como se a gente tivesse que descobrir um jeito de fazer uma coisa muito difícil, de forma muito rápida, então, a mãe fica com culpa, com dúvidas, com ansiedade...
Quais as consequências que esse comportamento tirano pode trazer à pessoa?
Fátima Muitas vezes, os pais acham que é uma questão de temperamento, de personalidade mas, se não lidam bem com isso, podem levar a outros tipos de problemas. Os filhos podem se tornar adultos muito manipulativos, agressivos, sem limites, do tipo que se envolvem em situações muito perigosas porque se consideram poderosos. Só que essa pessoa não é feliz. Ela consegue tudo, mas não se sente amada porque sabe que está conseguindo as coisas pela coerção. Não é uma pessoa que fica com um bom senso de amor próprio.n


