Da vigilância implacável dos pais à liberdade quase irrestrita dos tempos atuais, três gerações de mulheres contam a história do namoro nas últimas décadas
Olhos nos olhos, mãos entrelaçadas, coração dispara, bocas se colam, um arrepio corre pelo corpo e... tudo pode acontecer. Com maior ou menor requinte de detalhes, seria assim que a maioria descreveria, hoje, os momentos mais gostosos de um namoro. Mas as coisam não foram sempre desse jeito. A sua avó certamente teria uma resposta bem diferente para tal questão. Dá para imaginar como seria namorar sem ao menos encostar na pessoa?
Beatriz Ribeiro Carvalho, 76 anos, lembra direitinho da primeira vez que encontrou o marido, Joaquim, já falecido, com quem foi casada por mais de 50 anos. ‘‘Eu estava andando na rua e escutei um ‘psiu’. Olhei para cima e vi o Joaquim em um sobrado. Ele desceu e me seguiu, do outro lado da rua, até em casa. Depois de alguns dias, apareceu e me chamou para conversar. Eu disse para ele falar com meus pais primeiro. À noite, ele veio e me pediu em namoro’’, conta.
A resposta foi enfática: ‘‘Não quero namoro muito prolongado, tem que casar logo’’. E assim foi feito. Em quatro meses, Beatriz e Joaquim subiram ao altar. Até lá, chegar perto um do outro era praticamente proibido. Os encontros aconteciam na casa dela, sob a vigilância implacável dos pais. ‘‘Nem no sofá a gente sentava um do lado do outro’’. Pegar na mão, nem pensar. Beijar, nem ao menos no rosto. ‘‘Só fui ao cinema com ele uma vez. Na frente, andando, iamos nós dois, minha irmã e o namorado. E atrás, a minha mãe’’, relata.
É claro que, em meio a tantas restrições, os pombinhos deram um jeito de burlar as ‘‘leis’’. Preocupados em mantê-los longe, os pais de Beatriz não podiam vigiar o que se passava embaixo da mesa, quando sentavam para o almoço. Nessa hora, os pés de Joaquim procuravam os de Beatriz e, em momentos mais ousados, subiam alguns centímetros acima do calcanhar dela.
A falta de diálogo era compensada com poesias, escritas por ele em um caderno que era deixado na casa dela a cada 15 dias, quando se encontravam. ‘‘Ele morava na fazenda e vinha me ver aos domingos, do meio-dia às 17 horas’’, lembra ela com saudades do primeiro e único namorado.
Namoro apimentado Os tempos já eram outros quando a filha de Beatriz, Eliana Carvalho Donadel, 44 anos, começou a se interessar por garotos. Apesar de ambas terem se casado aos 18 anos, Eliana teve quatro namorados e três ‘‘ficantes’’. O termo ainda não existia nos anos 70, época das minissaias e calças boca-de-sino, mas funcionava mais ou menos como hoje: um caso sem compromisso, só que mais recatado: ‘‘Só tinha beijo’’, garante, lembrando que dentro dos carros a coisa costumava esquentar um pouco mais, mas sempre ficava dentro de certos limites.
Quando conheceu o marido, Flávio, a última coisa que Eliana pensava era em namorar sério. ‘‘Achei careta ele se declarar para mim, se dizendo apaixonado. Ele tinha 24 anos, idade para casar, e eu queria curtir a vida’’, conta ela. Mas Flávio a cobriu de mimos e ela não resistiu. Teve ainda a pressão da mãe, que vivia exaltando as qualidades de ‘‘moço bom, bonito e trabalhador’’. Além do mais, dona Beatriz não gostava nem um pouco dos namoricos da filha. ‘‘Às 10 horas noite, ela ia me buscar na única lanchonete da cidade. Meu pai parava o fusca na esquina, buzinava e apontava o relógio’’, diverte-se Eliana.
Ela conta que, no começo do namoro com Flávio, só rolavam beijos. ‘‘Mas depois começou a ficar mais apimentado. Ele morava sozinho e eu matava aula para ficar com ele’’, revela. Quando contou à mãe que já transava com o namorado, a cena foi dramática. ‘‘Achei que ela teria uma reação mais amiga, mas ficou desesperada’’. Resultado: uma mesa redonda para Flávio explicar a situação e marcar o casamento. Detalhe: eles já haviam comprado as alianças no começo do namoro. Mas a surpresa maior estava por vir: quando trocaram o ‘‘sim’’ na igreja, Sarita já estava a caminho.
Com a filha primogênita, Flávio não deu tréguas e, em plena década de 90, impôs normas espartanas. ‘‘À meia-noite, eu tinha que estar em casa. E se saísse na sexta, não podia sair no sábado’’, conta Sarita Donadel Pfeifer Costa, 26 anos, que, assim como a mãe, teve quatro namorados e, à primeira vista, não se interessou pelo marido, Rodrigo, mas depois acabou cedendo às suas insistentes investidas. Após um ano de namoro, o casal já fazia planos de casamento. Como era o último ano da faculdade dela, e o pai certamente não permitiria o enlace, eles apelaram para uma tática infalível: encomendaram Felipe, hoje com 4 anos.
Ao contrário de Sarita, sua irmã, Cibele, 24 anos, pôde desfrutar a liberdade dos novos tempos: não tem horários tão rígidos para chegar em casa e já viajou com o namorado. Mas trocaria tudo isso por mais respeito entre homens e mulheres. ‘‘Não consigo acompanhar. Hoje está tudo muito moderno’’, reclama.

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