Cleide Cavalcante
Agência Estado
Nada mais difícil do que conviver com uma pessoa mal-humorada. Muito mais sério do que aparenta, o humor alterado pode desencadear uma série de problemas no organismo humano. Entre eles, doenças como câncer, bronquite, infecções e até alergias. Apesar das graves consequências, a prevenção para o problema é bastante simples. ‘‘Consiste em fazer com que as pessoas tenham um grau suficiente de satisfação em viver. Isso faz com que a possibilidade dela ficar doente diminua muito’’, explica o neurologista Sidney Chioro. Segundo o médico, a origem do mau humor está na forma como as pessoas encaram a vida. ‘‘O indivíduo pode estabelecer o contato entre ele e o mundo através de coisas boas ou ruins. Por exemplo, a pessoa pode olhar o problema ou a solução desse problema’’, afirma. Quando o modelo cerebral adota a postura de se fixar no negativo, pode-se estar cometendo um erro na forma de lidar com as situações. ‘‘A partir disso, o pensamento negativo é gerado, depois o pessimismo e, no decorrer do tempo, aparecem as doenças’’, observa.
Ninguém nasce mal-humorado ou, muito menos, herda essa característica. ‘‘É algo que se adquire ao longo da vida’’, destaca Chioro. Ele frisa que os
mal-humorados são, geralmente, pessoas sensíveis e inteligentes. Mas que determinadas circunstâncias familiares, sociais ou educacionais conduziram à fixação da atenção aos aspectos negativos.
‘‘Devemos saber dimensionar exatamente o ‘ruim’, dar a ele uma localização, um tamanho e uma especificação’’, ensina o neurologista. ‘‘Quando a pessoa vê o ‘ruim’ com uma proporção maior do que a verdadeira, ela entra no caminho que leva ao mau humor’’, assegura. ‘‘Também é importante se atentar a situações que não acontecem diretamente com a gente, mas que podem nos induzir a um estado de humor negativo’’, anuncia.
Consequências A princípio, o mau humor interfere no relacionamento interpessoal. O mal-humorado passa a ser indesejado e até rejeitado. ‘‘Esse estado de espírito prejudica demasiadamente o indivíduo no desempenho de suas atividades. Já que ele perde o estímulo para o que está habituado a fazer’’, atesta Chioro. Ele revela ainda que o mau humor limita a pessoa no seu dia-a-dia, fazendo com que ela se feche cada vez mais para a vida. ‘‘Ai começa a espiral, quanto mais ela está de mau humor, mais aumenta os problemas e pior ela fica. Isso pode ir se cristalizando. Como o cérebro trabalha com modelos de atuação, isso pode ir gerando insatisfação, frustração e infelicidade’’, esclarece.
Chioro alerta dizendo que, ‘‘hoje, já se sabe que, quando uma pessoa mantém esses três estados por um tempo prolongado, fica mais exposta a desenvolver doenças. ‘‘A medicina moderna tem demonstrado que esse estado de espírito desagradável diminui as imunoglobulinas (substâncias que protegem o organismo de infecções e tumores)’’, acrescenta. ‘‘É comum verificar que uma pessoa que teve câncer passou por um período prolongado de infelicidade’’. Sendo assim, o ideal seria que esse tipo de doente, após ser tratado clinicamente, fizesse um tratamento psicológico. ‘‘Poderia, então, ser evitada a reincidência do tumor em muitos casos’’.
Prevenção De acordo com Chioro, atualmente a medicina está se dedicando a pesquisar esse tipo de comportamento e suas consequências. ‘‘A prevenção é o caminho mais curto. A recomendação é que não se deixe as pessoas insatisfeitas por muito tempo’’, afirma. No caso das crianças, a atenção deve ser redobrada. ‘‘Existem meios de diagnóstico e de tratamento para ajudar a criança a superar uma dificuldade’’, confirma o neurologista.
O profissional especializado trabalha no sentido de fazer com que o paciente possa enxergar e tomar posse do ‘‘bom’’, ou seja, tudo o que possa ser agradável e útil. Também faz parte do processo preventivo o despertar para o viver bem dentro das possibilidades de cada um. ‘‘Muitos acidentes são evitados por que a pessoa que está emocionalmente mal, tem menos estímulo para se proteger, para se cuidar, e pode até se autoagredir entrando em situações de risco’’, avalia Chioro.
Percepção Um trabalho especializado, acredita Chioro, ajuda o paciente a tomar consciência de que ele está usando um modelo cerebral inadequado. Isso pode ser feito, também, através de técnicas que levam à mudança do padrão cerebral. ‘‘A mente humana precisa ter quatro funções equilibradas: enxergar, sentir, pensar e agir. Tem sido normal o exagero do pensar em detrimento dos outros sentidos’’, frisa ele.
Tratamento O que, na prática - conclui - não significa negar que o progresso é bom, e sim equilibrar o tempo que a pessoa fica raciocinando com o tempo que ela entra em contato com o que há de real ao redor dela. ‘‘Aos poucos, o indivíduo vai entrando num sistema crescente de falta. O mundo virtual está bem mais próximo, mas este não nos abastece de prazeres reais’’, explica. ‘‘Ver o mocinho beijando a garota no filme não é a mesma coisa que dar um beijo, por exemplo’’.
O ser humano, segundo o neurologista, precisa de um mínimo de satisfações nas áreas afetiva, de atividades concretas e de sua movimentação para poder se sentir bem. ‘‘Caso contrário, sente um vazio enorme que não sabe nem de onde vem. Isso gera insatisfação, irritabilidade, mau humor e assim por diante’’.
Segundo Chioro, é uma área na qual os tratamentos são relativamente simples, práticos e eficientes. Com duas sessões por semana, é possível conseguir melhoras significativas. Ele garante que resultados mais positivos são os provenientes de tratamentos que aliam conhecimentos da psiquiatria aos da neurologia, formando o que se convém chamar de neuropsiquiatria. ‘‘Assim fica mais fácil cuidar dos problemas emocionais que se transformam em problemas físicos’’.

mockup