Adolescência, juventude, maturidade, velhice. Em cada fase, um jeito de se relacionar consigo e com os outros, de pensar, sentir, sonhar e compreender as dádivas e os pesares da vida. Para homenagear a mulher no dia em que ela é destaque no calendário, a Folha da Sexta conta, aqui, seis histórias: belas, surpreendentes, instigantes, inspiradoras, emocionantes e comuns, assim como as ''donas'' de cada uma delas.



Apesar do rostinho de menina, a pianista e estudante de História Ana Paula Baladares, 20 anos, em nada lembra uma adolescente convencional. Seja pelas experiências (já foi casada), pelas idéias ou pelo talento, ela mostra que maturidade não tem nada a ver com rugas. ‘‘Sempre fui independente. Minha mãe incentivou isso e me deixou aprender com as conseqüências das minhas decisões’’.
  Morando e trabalhando com a família, Ana divide seu tempo entre as atividades da empresa familiar e as aulas da faculdade e as de piano (também é professora). Articulada e despojada, deixa claro o gosto pela simplicidade. ‘‘Não me considero vaidosa, nem uso batom. Mas me sinto satisfeita com meu corpo, me acho bonita. Não gosto de ginástica. O máximo que faço é uma caminhada. Minha única vaidade é meu cabelo’’, revela.
  Apaixonada por música, a pianista se prepara para dar um passo e tanto na sua carreira este ano: ‘‘Vou executar a partitura da música que o Arrigo Barnabé fez para o filme ‘‘Londrina em Três Movimentos’’. Para mim, é uma coisa inédita interpretar peças de um compositor vivo. Ele vai estar acompanhando tudo. É uma grande responsabilidade’’, observa.
  Profissão, entretanto, não é tudo na vida da garota com jeito de mulher. ‘‘Carreira é importante; família é mais ainda. Acho que hoje as mulheres estão tão preocupadas em construir uma carreira brilhante, em preencher o desejo de ser alguém, que o sentido de criar filhos se perdeu um pouco. Vou querer educar bem meus filhos para que eles façam diferença no mundo’’.



No sorriso fácil, sempre estampado no rosto, e no alto-astral contagiante, a estilista Luciana Kouri exibe a sua determinação maior. ‘‘Tenho um lema na vida: ser feliz’’. E foi seguindo esta máxima que ela se deparou com a moda. ‘‘Minha família foi contra, mas depois eles entenderam, viram o quanto eu gostava. Meu trabalho é muito prazeroso. Ver a peça sendo feita e depois sendo usada por alguém é uma realização para mim’’.
  Apesar de o universo da beleza ser parte de seu trabalho, Luciana não se considera vaidosa. ‘‘Acho que estar bem informada e me vestir bem já é uma espécie de vaidade’’, diz. Para manter o pique e espantar o stress, ela corre todos os dias e faz musculação com personal trainer. Atualmente, entretanto, seu dia-a-dia já é pura malhação.
  Prestes a se casar (amanhã) e a inaugurar a primeira loja de sua marca em Londrina (a Züe, em parceria com a sócia Andreia Ferreira) – tudo praticamente ao mesmo tempo – ela vive uma fase dourada. ‘‘O Rafael (Lopes) é mais do que eu imaginava. Queria um kit básico, mas ele é completo. Ele tem os projetos dele e curte os meus. A gente está crescendo junto, isso é o mais bacana. Quero ficar casada para sempre, ter quatro filhos, uma casa cheia de gente’’, planeja. Outro projeto é expandir os negócios, com franquias em outras cidades. ‘‘Ter uma marca consolidada é o meu desejo para a minha profissão’’.



A consultora de marketing corporativo Valéria Ohira, 38 anos, não segue à risca os preceitos da profissão apenas no trabalho. ‘‘Na vida também é assim: você planeja e realiza’’, ensina. Formada em computação e em administração de empresas, com especializações em marketing pela UEL, marketing industrial pela Universidade Federal do Paraná e com MBA pela Getúlio Vargas, ela tem hoje uma sólida carreira, um negócio próprio e clientes de peso em Londrina e região.
  Separada e com um filho de 19 anos estudando em São Paulo, Valéria trabalha 15 horas por dia, com expediente inclusive aos sábados e domingos, sem direito a férias. Estressante demais? Nada disso. ‘‘Gosto desse pique’’, garante. Tanto que seu dia começa bem cedo. Às 6h30, três vezes por semana, já está na academia. Às 9 horas chega ao escritório, sem horário para sair. Ainda dá tempo de fazer aulas de fisioterapia postural e inglês.‘‘O que gera o stress é o cansaço, por isso, faço atividade física. A estética é conseqüência, mas também é importante. Mulher tem que ser bonita e feminina, mas tudo sem exageros, na medida certa’’, aconselha.
  Entre os projetos para este ano está a carreira acadêmica. ‘‘Fui convidada a ser docente na unidade Londrina do Isae/GV. Quando você trabalha e estuda bem, acaba tendo um retorno surpreendente. São presentes que Deus me dᒒ, observa, ressaltando a formação católica. O segredo de tanto sucesso? ‘‘Saber estruturar a vida como mãe, filha, mulher e profissional de forma leve e responsável’’, responde Valéria.



A arquiteta e engenheira civil Luzia Favoreto, 43 anos, se prepara para uma nova fase. Está dando os últimos retoques no apartamento em que vai morar sozinha depois de um casamento de 18 anos que acabou recentemente. ‘‘O que existe em momentos de transição é uma renovação energética. E isso se reflete na vida como um um todo’’, diz, justificando os bons ventos profissionais.
   ‘‘Apesar do sofrimento causado pela separação dos filhos, os dois últimos anos foram muito produtivos profissionalmente. Foram anos de consolidação de todo o meu trabalho. Hoje, me sinto reconhecida’’, desabafa, abrindo um sorriso largo que parece lhe desnudar o espírito. ‘‘Otimismo e ética são meus valores pessoais. Acho que todas as coisas vão dar certo e que todas as pessoas são boas, até que me provem o contrário’’.
  Apaixonada pela profissão, Luzia define o trabalho como um arrebatamento. ‘‘Meus momentos de criação são estonteantes, é quando a alma se faz presente. Muita gente não descobre para que veio ao mundo: eu vim para que as pessoas vivam melhor em seus espaços’’, diz, com absoluta convicção, a geminiana que adora cinema, literatura e culinária. ‘‘Nem assisto à TV; meu mundo é outro’’.
  De bem com o corpo, a arquiteta mantém a forma sem sacrifícios. ‘‘Caminho para manter meu nível de stress controlado. Deus foi muito bom comigo, nem sei fazer regime’’, conta ela, que se considera feminina, mas não vaidosa. A sua forma transparente de lidar com tudo na vida se reflete também na idéia de relacionamento. ‘‘As coisas têm que ser compartilhadas’’.




Para a designer de grinaldas Nilce Gradia, idade não tem peso, pelo menos não da forma tradicional. ‘‘Não sinto que tenho 65 anos, até me esqueço disso. Faço coisas que não devo’’, diz, contando que já caiu duas vezes de árvores. É na cabeça, e não no corpo, que ela percebe, com mais nitidez, os efeitos do tempo. ‘‘Os valores e as atitudes vão mudando. Tem uma censura dentro da gente’’, define, lembrando da época em que lançava moda na cidade.
  ‘‘Eu não tinha medo de ousar, usava tudo antes das outras pessoas. Hoje, sou mais moderada; certas coisas eu não uso mais’’, conta. Relacionamentos, na opinião dela, também são aspectos afetados pela passagem do tempo. ‘‘Gostaria de ter um companheiro, mas as mulheres da minha idade têm um problema sério. Não sei se por preconceito, mas eu não poderia me envolver com um homem mais novo. E e os da minha idade estão procurando gatinhas’’, observa.
  Nilse deu uma reviravolta na vida quando decidiu se separar, há 20 anos. ‘‘Eu era muito dependente, não ia nem ao supermercado, tinha tudo na mão’’, lembra. Hoje, trabalha para se sustentar, mora sozinha e diz apreciar a solidão. ‘‘Os filhos têm a própria vida, e os netos a gente curte quando são pequenos, depois eles seguem o caminho deles’’. Aceitar as mudanças que a vida traz é, para ela, o segredo de viver bem. ‘‘Senão a gente fica muito amarga’’, justifica, apontando a parte boa da história. ‘‘Quando a gente é mais nova tem que dar satisfação para os outros, mas depois que amadurece faz o que bem quer’’.



À primeira vista, o que mais impressiona em Maria Alice Brugin de Arruda Leite é a agilidade e o porte altivo – difícil acreditar que se trata de uma septuagenária. Com alguns minutos de bate-papo, outra surpresa: aos 75 anos, a paulista de São José do Rio Preto lembra, com riqueza de detalhes, histórias de sua infância e juventude na cidade que ela ajudou a construir. ‘‘Quando chegamos aqui, só tinha três casas’’, conta.
  Maria Alice foi a primeira aluna matriculada no Colégio Mãe de Deus, casou-se aos 17 anos, teve apenas um filho e iniciou a sua ‘‘carreira’’ como fundadora de várias entidades. Por duas gestões foi presidente da Sociedade Amigos do Museu Histórico. ‘‘Estas experiências foram muito importantes na minha vida, abriram meus horizontes. A idade foi chegando e eu não percebi. Foram os meus melhores anos’’, revela. Apesar de acreditar já ter dado a sua cota de contribuição a Londrina, não quer parar de trabalhar. ‘‘Meu sonho é ver a cidade mais enfeitada, com praças floridas, como era antigamente’’, revela a pioneira, que desfruta a tranqüilidade e o companheirismo de um casamento de 58 anos.
  Sua vitalidade é resultado de uma disciplina já incorporada ao dia-a-dia. ‘‘Caminho no zerão, todas as manhãs, há 25 anos. Minha vida é muito organizada. Programo todo o meu dia na véspera, então, não me atrapalho. Não fumo, não bebo, tenho uma alimentação normal, como de tudo. Cuido da pele, uso meus cremes, mas vou pouco ao cabeleireiro. Eu mesma gosto de cuidar dos meus cabelos’’, relata, com a simplicidade dos que têm elegância inata. ‘‘Não consigo andar de chinelo nem dentro de casa. Só uso salto. Já me levanto arrumada’’, conta.

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