Rosângela Vale
Enviada Especial
Fotos: Karla Matida‘‘No geral, o evento foi um sucesso. Acho que a cada dia que passa, as pessoas estão mais preocupadas com um bom produto, em trabalhar com alta tecnologia, que hoje é um grande segredo porque os tecidos e os materiais estão mais sofisticados. Acho que uma cor que todo mundo pode apostar é o cinza, que apareceu em praticamente todas as coleções, e nos materiais mais lixados, como o feltro. Ainda há muito brilho, essa coisa de rock’n roll que a Zoomp usou muito bem. A influência do Japão, até em função da década de 80, está muito presente; foi a época que os japoneses entraram fortemente na moda. Os trabalhos que as pessoas fizeram em cima das vestimentas orientais, caso de Walter Rodrigues e da Glória Coelho, foram muito bonitos. Acho que os tricôs são os grandes hypes da temporada. Vimos trabalhos belíssimos na Patachou e em Renato Loureiro; os mineiros são muito bons nisso. Posso dizer que o produto de moda feito no Brasil está dando saltos em progressão geométrica. Em cada saison vemos isso melhor e melhor’’.
Cristina Franco (consultora de moda do grupo Renasce)


‘‘Pela primeira vez, cada estilista se voltou para a própria personalidade, insistindo naquilo que marcou mais o seu trabalho. Porque, você sabe, uma personalidade a gente tem que identificar numa roupa. É o processo de amadurecimento de um estilo brasileiro de exportação. A gente esperava isso há mais tempo, mas talvez pela situação de protecionismo do País durante anos, e pela instabilidade constante da política monetária, as coisas foram dificultadas. Sempre tive a opinião de que tudo o que é mostrado no MorumbiFashion dificilmente se transforma em tendência de rua. Acho, sim, que entre os que estavam assistindo aos desfiles, tem muita gente que provavelmente vai copiar o esquema de cores, tentar imitar textura, já que estamparia quase não existe. Adorei o trabalho da Zapping, acho raríssimo esse espírito, quase uma brincadeira, feito com um rigor técnico maravilhoso por um rapaz tão jovem como o Sommer. Adorei o Alexandre e a Glória; gostei muito da Fit, do rigor e da simplicidade. O Reinaldo fez um desfile que pouca gente vai entender porque é a extrema sofisticação, o esnobismo atual da modernidade, ou seja, roupas que parecem que não estão acabadas, que parecem não combinar uma com a outra. Foi uma coleção corajosa’’.
Costanza Pascolato (empresária e consultora de moda)


‘‘Acho que esse Morumbi teve algumas coisas ruins, mas algumas muito boas, como a G, o Reinaldo Lourenço, o Alexandre Herchcovitch e a Zoomp, e depois a Forum, num segmento que ela está conquistando, com essa coisa da roupa mais conceitual, adaptada a um estilo comercial; o Fause, que está tentando descobrir uma modelagem que atenda aos desejos dele; a Patachou, o Ricardo Almeida e o Renato Loureiro, que fazem uma coisa mais comercial, com personalidade; e o Sommer, com o streetwear clubber dele, que dessa vez veio tão bem trabalhado. Pessoalmente, eu não gostei da Fit, acho que ela tem um papel de despretensão na moda, de propor um básico cotidiano, e dessa vez quis ter um contorno fashion que ficou um pouco fora do contexto. O melhor desse Morumbi é que cada um optou por um caminho. Tinha temporadas que todo mundo fazia a mesma coisa. Claro que tem as tendências da estação. Acho que a entrada da cor é muito importante. O minimalismo está acabando, começando a poder ser romântico, chique, hippie... Um trabalho que o consumidor tem que saber valorizar é a pesquisa de materiais. Essa coisa de ver uma roupa cortada no fio, que pode parecer estranho, sem acabamento, sem bainha, na verdade é um requinte da tecnologia que só um tecido fantástico e um corte moderno permitem. Com essa crise, na dúvida, é melhor deixar de comprar cinco porcarias e investir em uma boa peça, porque a moda muda, mas uma boa compra resiste, às vezes, a vida inteira’’.
Lilian Pacce (jornalista de O Estado de S. Paulo)


‘‘Foi uma boa temporada, o nível até melhorou. Eu, pessoalmente, acho essa grande festa, às vezes, um pouco tediosa, ainda mais na crise que a gente está passando, quando as pessoas estão mais preocupadas em fazer produto do que em fabricar emoção. Mas certas coleções que foram médias, que não são a grande vanguarda, tiveram uma melhora de acabamento. É o caso da Iódice, que realmente deu um passo à frente. Saiu em vários jornais brasileiros que foi cópia, mas, gente, o que não foi copiado? O grande pecado da moda brasileira ainda é a falta de assinatura. As influências internacionais são nítidas em absolutamente todas as coleções. Eu não faria nenhuma exceção. Mas, com todas essas informações na mão, tem gente que desenvolve isso e acaba criando outro trabalho. Pierre Cardin sempre diz que nada se cria, tudo se recria, então, tem boas recriações. O Alexandre Herchcovitch, que é a pessoa mais criativa, fez uma coleção muito forte. A coleção da G foi um primor de rigor, de consciência de trabalho. Eu fiquei até emocionada, porque sei o quanto custa fazer tudo aquilo. O trabalho da Patachou, foi realmente bastante bom. O pior desfile da temporada foi a da Cia de Linho, foi o Oscar do erro, nunca vi tanta coisa horrenda junto na minha vida, mas, enfim, acontece. Não acho uma coisa negativa, é importante ousar. Às vezes dá certo, infelizmente não foi dessa vez’’.
Regina Gerreiro (correspondente da Revista Elle em Paris)

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