Maria Clarice de Moraes, 44 anos, descobriu a profissão por acaso ou, talvez, destino. Ela aprendeu o ofício de relojoeira com o marido, quando ele começou a levar trabalho para casa. Anos depois das primeiras lições, quando o casal abriu uma loja, foi Maria Clarice quem deixou a casa para entrar de vez em uma profissão dominada por homems.
Benedito Tobias de Moraes Filho, 50 anos, marido de Maria Clarice, aprendeu o ofício aos 17 com um irmão. Trabalhando em uma grande relojoaria da cidade, ele conta que não conseguia fazer todo o trabalho e acabava levando serviço para casa. ''Ela começou a me ajudar limpando os relógios, depois desmontando e montando, até aprender tudo'', relata. ''Comecei há 23 anos. Tudo o que você gosta, aprende com mais facilidade'', afirma Maria Clarice.
Imagine um relógio de pulso, agora pense que dentro dele existem várias peças minúsculas que o fazem funcionar. ''Tudo precisa ser desmontado e montado com uma pinça para que o suor da mão não oxide as peças. Às vezes, o único problema do relógio é a sujeira que faz com que ele não funcione direito'', ressalta Maria Clarice.
O casal faz todo o trabalho de conserto dos relógios apenas com o auxílio de duas máquinas: uma que faz a limpeza e outra que avalia se a máquina está ajustada. Na verdade, todo o trabalho de descobrir e solucionar os defeitos precisa ser feito manualmente. E, para complicar, uma máquina não é igual à outra. ''Cada relógio é um quebra-cabeça diferente. Depende da marca, do modelo e ainda da linha do relógio'', explica.
Maria Clarice aprendeu a fazer tudo: abrir, limpar, encontrar o defeito, fazer o conserto, montar outra vez. Ela só não regula a máquina. ''Deixo ele (Benedito) mexer na máquina que faz a regulagem das horas. Afinal, eu já faço todo o resto e deixo que ele se vire com isso'', brinca.
De acordo com Maria Clarice, trabalhar com relógios de pulso é mais difícil porque as peças são pequenas. Mesmo com a ajuda de uma lupa que aumenta o tamanho, ela reclama do cansaço. ''Você fica três, quatro horas, um dia inteiro com um relógio. Os olhos não aguentam'', confessa.
Para o conserto de relógios de parede, encontrar peças quando a fábrica já fechou ou não vende é um problema solucionado com a produção de peças. ''Por isso que, às vezes, a arrumação demora a ser feita. Quando a peça quebra e o cliente traz junto com o relógio nós usamos como modelo para a nova. Caso contrário precisamos arranjar uma que se enquadre e o relógio funcione'', ressalta.
Benedito lembra que uma vez arrumou um relógio de parede que tinha um cuco e um menino tocando órgão. ''O relógio chegou aqui horrível. O orçamento era alto e achei que a dona não iria deixar para arrumar, mas ela acabou deixando. Tivemos que entender sobre a batidas das horas, as saídas do cuco e do menino tocando o órgão. O relógio ficou lindo depois de seis meses de trabalho, quase não devolvi'', confessa.
Maria Clarice reforça que o serviço é bem-feito. O que está acontecendo atualmente é que muitas pessoas querem arrumar relógios que não valem a pena. ''Para que arrumar um relógio comum em que o conserto sai R$ 8 se dá para comprar um novo por R$ 10?'', questiona. Segundo Benedito, os melhores relógios ainda são os suíços, porém, exemplares de qualidade podem ser comprados por R$ 350, em média. '' O problema é que muitas vezes você paga pela marca, sendo que conseguiria um com a mesma qualidade pela metade do preço'', avalia. ''O que importa é que a caixa do relógio seja de aço e o fundo de rosquear'', ressalta Maria Clarice.
Segundo eles, molhar ou derrubar um relógio são dois dos problemas mais comuns. ''Se você bater o relógio, a máquina pode desregular e dar problemas. Se entrar água a máquina pode molhar e estragar'', orienta Maria Clarice. ''Mas o que destrói mesmo um relógio é a água e um relojoeiro ruim...'', fala Benedito, reproduzindo as palavras de um amigo.

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